░ as velhas novembram

as velhas novembram
de outubro a dezembro
em fainas novenas
varejam os ramos com
membros canhestros
erguem-se às hastes à
cata do fruto à flor da
ramagem sacodem-na
pra panos cerzidos
desde dezembro anterior
nos janeiros da apanha
colocam-nos ao chão
no plinto das árvores
os panos ao ombro as
talhas de azeite medas
de feno ou serapilheira
as velhas janeiram quais
espantalhos siderados
em pássaros moveres.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ Algumas questões que podemos colocar

A alma é sólida, como o ferro?
Ou delicada e frágil, como
as asas de uma mariposa no bico do mocho?
Quem tem alma e quem não tem?
Continuo a olhar em meu redor.
A face do alce é tão triste
como a de Jesus.
O cisne abre com lentidão as asas brancas.
No outono, o urso negro leva folhas para a escuridão.
Uma pergunta leva a outra.
Tem forma? Como um icebergue?
Como o olho de um colibri?
Tem um só pulmão, como a serpente e a vieira?
Por que razão tenho eu alma e o papa-formigas
que adora as crias não tem?
Por que razão tenho eu e o camelo não?
Pensando bem, e os áceres?
E os lírios azuis?
As pedras pequenas, sozinhas ao luar?
As rosas, limões e as suas folhas brilhantes?
E a erva?

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, tradutor e  matemático)

░ NINGUÉM

 

para Donaldo Mello

 

Não há princípio nem fim
na eterna diáspora
dos astros
tresloucados
deslocando-se
aos confins
do universo
em expansão.

O tempo não existe
para as estrelas
mas elas fenecem
e, de vê-las, fico triste.

Sem sombra e destino, também vagarei.
Hei de seguir o mesmo curso de ninguém.

 

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▪ Antonio Miranda
(Maranhão BR, n. 1940)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor.

░ A FALA DAS COISAS

Desde toda vida
descompreendi inteligentemente
o xadrez, o baralho,
os bordados nas toalhas de mesa.
O que é isto? eu dizia
como quem se ajeita pra melhor fruir.
Fruir o quê? Eu sei. A mensagem secreta,
o inefável sentido de existir.
Tia Clotilde está desesperada:
‘para a minha família Deus não olha’.
Meu amor, quando tira o dia pra chorar,
não quer saber de mim, até que fala:
‘abri a porta da rua, achei três bilhas azuis,
como recado da alegria’.
É sonho, eu sei,
mas nesse dia ele não chora mais.
Se a senhora quiser, depois do almoço,
vamos no ribeirão buscar argila,
areia fina pra arear as panelas.
Olha o céu que se estende sobre nós,
seu manto cor de anil,
sua capa de veludo negro
cravejado de estrelas.
A flor-de-maio, a cravina,
viçam na terra estercada
sobre Totônio bebe,
Válter não para no emprego,
Noêmia quer casar mas não tem sorte.
Tua dor de cabeça tem origem psíquica;
tantos com à mão,
nenhum para o esquecido calor de entre as pernas,
ai, papai, me deixa namorar,
tem duas borboletas voando agarradinhas!
Meu corpo de velha quer salmodiar.
Quer ter um menino e tece,
faz tachos de doce e borda,
tapa com buchas de pano
as frestas da janela e canta
em meio de tanta dor.
Tendo orvalhado tudo,
a madrugada orvalhou a pimenteira,
cuja flor estremeces, ó minha pobre tia.
Deus mastiga com dor a nossa carne dura,
mas nem por chorar estamos abandonados.
A água do regador alçado sobre as couves
alvoroça os insectos.
A larva na hortaliça nos distrai.
Não inventamos nada.
O ponto de cruz é iluminação do Espirito;
o rei, a dama, o valete, são sérios
farandoleiros.
Se nos mastiga com dor,
é por amor que nos come.
Vamos rezar as mantinhas.

 

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▪ Adélia Prado
(Minas Gerais BR, n. 1935)
in “Poesia Reunida”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2015

░ Las puertas no ajustan

Las malas hierbas sospechan que has dejado la casa,
los geranios lo saben,
y la sal, que no es pura, absorbe la tristeza.
El delator cloruro de magnesio
intuye tiempo de tormenta
y se apelmaza.
Siento humedad en los nudillos de los dedos,
las lágrimas han desplazado unos milímetros las jambas
y las puertas no ajustan.
Pero oculto a la madera que ha sido cortada,
no quiero despertarla, todavía crece.
Tal vez la meza,
tal vez la arrulle
con la nana antigua de las olas.

 

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▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015

░ BIPOLAR

IJuxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
– eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
– e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

░ EMILY DICKINSON

Nasci no mesmo dia que Emily Dickinson
quase dois séculos depois
e as coisas mudaram um pouco
desde então

não tive
a sua integridade perante a dor
nem o seu ouvido subtil para as revelações

vivo num prédio alto
onde não chegam os pássaros
só um ruído de sirenes
que não canta

é uma cidade imensa
aqui somos todos Ninguém
mas não aprendemos
a guardar o segredo:

ao caminhar regamos
o nosso nada nas esquinas

Nasci com a pele escura
de um país do trópico
e vim procurá-la neste tumulto
tão distante da sua voz
que se enredava nos prados

imagino-a calando-se nos ladrilhos
vejo os seus manuscritos de letras estreitas

como ramos de tinta negra
que se quebram
em qualquer capa
na lista das compras
e se voltam a enlaçar
para inventar o mundo

Nasci num dez de dezembro como ela
e não trouxe esse silêncio

não obstante

graças ao esconjuro
de repetir os seus versos
enquanto mudam os semáforos

estou a flutuar

ainda

 

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▪ María Gómez Lara
(Colômbia, n. 1989)
in “Nó de Sombras”, Editora Glaciar, Lisboa, 2015
Tradução – Nuno Júdice

░ Raro ofício gratuito

Raro ofício gratuito__Ir perdendo o cabelo
e os dentes__ As antigas maneiras de ser educado
Estranha complacência__ (O poeta não deseja ser mais
que os outros)__Nem riqueza nem fama nem somente
poesia__ Talvez esta seja a única forma
de não ter medo__Instalar-se no medo
como quem vive dentro da lentidão
Fantasmas que todos possuímos__Simplesmente
aguardando alguém ou algo sobre as ruínas

 

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▪ Roberto Bolaño
(Chile, n. 1953-2003)
in “La Universidad Desconocida”, Editorial Anagrama, Barcelona ESP
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

░ Em plena noite

Também em plena noite
a neve
se derrete branca

e a chuva
cai
sem perder a sua transparência.

É ela, a noite,
a que nos livra dos reflexos,

a que nos faz expandir
as pupilas.

O que busca com o seu bastão
_____________o cego é a luz, não o caminho.

 

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▪ Hugo Mujica
(Buenos Aires, n. 1942)
in “De Sed adentro”, Editora Pre-Textos, Argentina, 2001
Tradução – Maria Azenha (https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Azenha)

 



CASTELHANO

En plena noche

 

También en plena noche
la nieve
se derrite blanca

y la lluvia
cae
sin perder su transparencia.

Es ella, la noche,
la que nos libra de los reflejos,

la que nos expande
las pupilas.

Lo que busca con su bastón
____________el ciego es la luz, no el camino.

_
▪ Hugo Mujica
(Buenos Aires, n. 1942)
in “De Sed adentro”, Editora Pre-Textos, Argentina, 2001