Prefiero historias con personas que se matan
dentro de casas entre sábanas blancas
porque tienen hambre de Dios.
Una vez un niño que dormía
vio cómo Dios abría un agujero en el corazón de Marilyn.
Marilyn, aterrada, abrió un foso
y se escondió dentro.
Ahora todas las noches otros muertos
cavan en las profundidades de la tierra
para encontrar el corazón de Marilyn.
Este poema pertenece a la antología de la poeta portuguesa Maria Azenha que, preparada y traducida por José Ángel Cilleruelo (traductor también Casa de leer en lo oscuro, publicado por Trea en 2019), verá la luz en español a principios del próximo año bajo el título Descalzar los zapatos.
(…)
En palabras de José Ángel Cilleruelo, Maria Azenha «no le pone nunca puertas a la poesía y su obra es omnímoda, lo absorbe todo y a nada renuncia. (…)
Alto, esguio, talvez uns trinta anos,
completamente cego,
resiste à indiferença das ruas.
Agora, acompanhado por um jovem,
caminha neste mundo sombrio.
A minha voz,
saída dos escombros de uma guerra fria,
ouviu-se desolada e triste:
“bom dia.”
Passámos alguns segundos quietos
a ouvir o som um do outro.
Quem éramos afinal neste encontro?
Que armas trazíamos?
Quem era o que matava e o que foi morto?
-pouco mais haveria a dizer –
Ouviu-se, no fim da rua :
“Adeus! Até à próxima.”
Um cão – de um castanho escuro –
parecia não se importar muito.
_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in ” A casa da memória”
NAQUELA MANHÃ
Ao funeral de meu pai não assistiu ninguém
não chegou uma coroa de flores
nem padre
nem irmãos
nem as nuvens quiseram saber
da piscina dos meus olhos
foi terrível chorar com o corpo acima da terra
compor a dor
antes da primavera
passava um comboio
os carris tinham o nome dos anjos
exalavam um perfume a óleo
levavam o meu choro banhado a ouro
( Maria Azenha )
THAT MORNING
No-one came to my father’s funeral
no wreath of flowers appeared
no priest
no brothers
not even the clouds wanted to know
about the lake in my eyes
terrible, to weep over the body not buried
to gather up the pain
before spring
a train went past
the carriages bore the name of angels
they exhaled their diesel-fragrance
they took my weeping and bathed it in gold
(translated by Lesley Saunders)
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