FORTE DE SÃO MIGUEL

Ainda não enlouqueci e julgo-me até
capaz de reconhecer a beleza, quando a vejo.
Esta noite, por exemplo, era de prata,
sonora, o mar que se erguia na varanda do hotel.
Acordei-te; és agora a única testemunha
deste poema – e da minha vida.
Antes, logo de manhã, coube-nos lançar
ao mar as cinzas do meu pai.
Não foi fácil, tecnicamente falando.
A tampa de metal teimava em não abrir,
tivemos de recorrer a uma ponta de corrimão
das escadas velhas do Forte. E assim,
sem preparo nem rigor, há-de chegar ao oceano
o que sobrou, fisicamente, do meu pai.
Custou-me lavar as mãos, sujas
– pela última vez – da carne que me gerou.
A alma, se existe, não a sei lavar, embora
as lulas estufadas e o vinho branco
voltassem a tornar recomendável a Casa Pires.
Adeus, pai. Acho que foi mesmo
a única vez que me sujaste as mãos.

 

_

▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in ” Muito raramente, duas vozes se encontram tão perto do silêncio”

 

PARA O NELSON, QUE NUNCA LERÁ ESTE POEMA

Alto, esguio, talvez uns trinta anos,
completamente cego,
resiste à indiferença das ruas.
Agora, acompanhado por um jovem,
caminha neste mundo sombrio.

A minha voz,
saída dos escombros de uma guerra fria,
ouviu-se desolada e triste:
“bom dia.”

Passámos alguns segundos quietos
a ouvir o som um do outro.

Quem éramos afinal neste encontro?
Que armas trazíamos?
Quem era o que matava e o que foi morto?

-pouco mais haveria a dizer –

Ouviu-se, no fim da rua :
“Adeus! Até à próxima.”

Um cão – de um castanho escuro –
parecia não se importar muito.

_

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in ” A casa da memória”

POEMA PARA UMA FILHA

“Eu acho que a vou ter!”
disse eu, brincando entre as dores.
A parteira enrolou com competência
as mangas nos braços leitosos e corpulentos.
“Querida, tu nunca a vais ter,
mas sim pari-la”.
Um juízo que os anos revelaram ser verdadeiro.
Com certeza, eu nunca te tive,
como tu ainda me tens, Caroline.
Por que é que uma mãe precisa de uma filha?
Uma agulha no coração, refém da sorte,
o fim da liberdade. No entanto, nada é mais perfeito
do que aquele balido, aquele choro em forma de lâmina
que uma mãe passa ao seu bebé.
A pinça do cordão que segura
as suas esferas. A pequena
criança, sozinha, cria a mãe.
A vida de uma mulher é sua
até que lhe seja levada
por um primeiro e particular choro.
Então ela deixa de estar só
e passa a fazer parte das premissas
de tudo o que existe:
um tempo, uma tribo, uma guerra.
Só quando pertencemos ao mundo
nos tornamos no que somos.

 

_

▪ Anne Stevenson
(E.U.A. 🇺🇲 / U.K 🇬🇧)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

 

O COMITÉ AVALIA

Digo a minha mãe que
ganhei o Prémio Nobel.

De novo? diz ela. Em qual
categoria desta vez?

É uma brincadeira
que fazemos: eu finjo

que sou alguém, ela
finge que não está morta.

 

_

▪ Andrea Cohen
(E.U.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Nelson Santander

 

*

 

The Committee Weighs In

 

I tell my mother
I’ve won the Nobel Prize.

Again? she says. Which
discipline this time?

It’s a little game
we play: I pretend

I’m somebody, she
pretends she isn’t dead.

 

_

▪ Andrea Cohen
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Nightshade”, Four Way Books, 2019