PADRE

O Tio Knut era padre.
Era um homem prático, mas para ele
o Latim era Grego.
Morreu depois da reforma, estava
a escavar o local para a sua casa nova
quando o coração deu de si.

Mais um electricista
que um pregador, começava sempre a homilia
dizendo: “Não sou muito de discursos”
e quanto a isso estava certo.

Realmente não tinha muito a ensinar
aos paroquianos, eles tinham seus próprios problemas
com os nascimentos, o amor, com as mortes,
e ele não possuía palavras para tais coisas.

Mas aprendera como consertar
fios eléctricos e visitava as gentes em suas casas
e reparava curtos-circuitos e caixas
de fusíveis com defeito, atarraxava lâmpadas no sítio

e onde quer que ele tivesse estado, havia luz.

_

▪ Knut Ødegård
(Noruega 🇳🇴)
Mudado para português por João Luis Barreto Guimarães

POEMA PARA UMA FILHA

“Eu acho que a vou ter!”
disse eu, brincando entre as dores.
A parteira enrolou com competência
as mangas nos braços leitosos e corpulentos.
“Querida, tu nunca a vais ter,
mas sim pari-la”.
Um juízo que os anos revelaram ser verdadeiro.
Com certeza, eu nunca te tive,
como tu ainda me tens, Caroline.
Por que é que uma mãe precisa de uma filha?
Uma agulha no coração, refém da sorte,
o fim da liberdade. No entanto, nada é mais perfeito
do que aquele balido, aquele choro em forma de lâmina
que uma mãe passa ao seu bebé.
A pinça do cordão que segura
as suas esferas. A pequena
criança, sozinha, cria a mãe.
A vida de uma mulher é sua
até que lhe seja levada
por um primeiro e particular choro.
Então ela deixa de estar só
e passa a fazer parte das premissas
de tudo o que existe:
um tempo, uma tribo, uma guerra.
Só quando pertencemos ao mundo
nos tornamos no que somos.

 

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▪ Anne Stevenson
(E.U.A. 🇺🇲 / U.K 🇬🇧)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

 

O COMITÉ AVALIA

Digo a minha mãe que
ganhei o Prémio Nobel.

De novo? diz ela. Em qual
categoria desta vez?

É uma brincadeira
que fazemos: eu finjo

que sou alguém, ela
finge que não está morta.

 

_

▪ Andrea Cohen
(E.U.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Nelson Santander

 

*

 

The Committee Weighs In

 

I tell my mother
I’ve won the Nobel Prize.

Again? she says. Which
discipline this time?

It’s a little game
we play: I pretend

I’m somebody, she
pretends she isn’t dead.

 

_

▪ Andrea Cohen
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Nightshade”, Four Way Books, 2019

A HIENA

A hiena ama os tanques de guerra
que ficam em pé nos desertos
porque a tripulação morreu.
Ela sabe esperar.
Ela espera até que mil e uma
tempestades de areia corroam o aço.
Então chega a sua hora.
A hiena é o animal heráldico da Matemática,
ela sabe que não pode ficar nenhum resto,
o seu deus é  o zero.

 

_
▪ Heiner Müller
(Alemanha 🇩🇪 )
Mudado para português por Luis Costa

LAMENTAÇÕES AOS MORTOS DA GUERRA

Dia de recordação dos mortos na guerra: junta
o luto de todas as tuas ao luto da perda deles,
inclusive a perda da amada que te deixou; mistura
sofrimento com sofrimento, conforme faz à memória parcimoniosa,
ao contrair festa, sacrifício e dor, tudo num dia só,
data festiva e de fácil lembrança.
Doce mundo, embebido feito pão
em leito doce para o Deus terrível e sem dentes
“Por trás disso tudo, uma grande felicidade oculta”.
De nada te serve chorar por dentro e gritar por fora.
Por trás disso tudo, uma grande felicidade se oculta, talvez.
Dia de recordação dos mortos. Sal amargo vestido de
menina pequena com flores.
Cordas disposta ao longo do caminho
de um desfile conjunto: vivos e mortos.
Crianças com passos de luto alheio,
como se andassem sobre cacos de vidro.
A boca da flautista permanecerá assim por muitos dias.
Um soldado morto nada por entre pequenas cabeças,
com braçadas de morto, no antigo equívoco que possuem os mortos
sobre o lugar da água viva.
Uma bandeira perde o contato com realidade e voa.
uma vitrine enfeitada com vestidos bonitos de mulher,
em azul e branco. E tudo em
três línguas: hebraico, árabe e morte.
Um animal grande e majestoso agoniza durante a noite,
sob o jasmim, olhando o mundo incessantemente.
Um homem anda na rua — seu filho morreu na guerra —
como uma mulher carregando um feto morto no ventre.
“Por trás disso tudo, uma grande felicidade se oculta.”

 

_
▪ Yehuda Amichai
( Israel  🇮🇱 )
Tradução de Berta Waldman, Roney Cytrynpwicz e Tal Goldfajn.

DEMOCRACIA

Outra maldita tarde
de domingo, uma dessas
tardes que um dia escolherei
para me pendurar
do último prego flamejante
da minha angústia.
Pela rua
famílias com crianças,
pais e mães
de faces rosadas, satisfeitos
pelo recém-cumprido
dever eleitoral;
gente debruçada sobre rádios
que vomitam números, percentagens
em bases de dados.
Cordeiros a caminho do matadouro
dando a escolher a arma
ao magarefe.


▪ Roger Wolfe
( Inglaterra 🇬🇧 )
in “Fazer o trabalho sujo”, Língua morta, 2020
Mudado para português por Luís Pedroso

A ORDEM

Isto é a Ordem!
Tudo
sumido numa ordem,
tudo dependente das ordens,
dos mecanismos, dos uniformes,
das fronteiras, dos princípios,
dos códigos, dos fins.
Isto é a Ordem!

Símbolos, mensagens, leis,
ordenamentos, conceitos,
praga de conceitos,
desde que nascemos
até que morremos,
todos
escravos dos conceitos.

Mas, nascemos? Morremos?
É possível tal coisa
no meio de tanta Ordem?

E computadores, computadores:10
faltava este grande invento
para que tudo seja uma Ordem.

Uma Ordem!
Isto é uma Ordem!
Ordeno e mando!
Às suas ordens!

Uma Ordem é a nossa Razão,
essa sim é uma Ordem,
da qual nascem todas as ordens,
mãe dos nossos crimes,
sombra das nossas luzes,
poço dos nossos sonhos:
A palhaça do mundo!

Determinações, mandamentos:
como dez mandamentos ?
milhares e milhares de mandamentos!

Cálculos, classificações,
rituais, milhares de rituais.
Tudo medido,
tudo milimétrico.
Como poderemos ser
únicos e companheiros?
Ordem de Malta,
Ordem de São Bento,
ordens mendicantes,
ordens e contra-ordens.
A quadratura do círculo!
A quadratura da Beleza!
A quadratura do pensamento!

Pobre pensamento:
se o pensamento é uma criança…

Como sair da Ordem
estabelecida, imposta, justiceira
uma Ordem
de dominados e dominantes,
de vencedores e vencidos.
E a ordem dos factores!

Ordens, Academias,
isso sim, Reais,
mentalizadoras.
O Mundo
é uma Ordem fantástica,
enlouquecida,
faz e desfaz,
faz e desfaz.
Atenha-se às ordens!
Uma Ordem! É uma Ordem!

(Espero que saibais
o que quero dizer
quando digo Ordem…)

“>Não, não: o que nós
necessitamos são desordenadores,
mudar a Ordem,
a implacável Ordem,
este viver matemático e geométrico,
mimético, envenenador.
É a Ordem!

Que se pode esperar
se nascer é uma ordem,
morrer é uma ordem.
Tanta Ordem
e tanto sofrimento!

Por ordem alfabética!
Por ordem de aparecimento em cena!
Não, não:
eu quero desordenar-me,
necessito de desordenar-me, libertar-me
de tanto ordenamento
que faz de mim uma Ordem.

É a Ordem!
Cuidado com a Ordem!
Como sentir
se se é uma Ordem?
Como pensar
se se é uma Ordem?
Como sonhar
se se é uma Ordem?

Regras, medidas, alfaiates
enlouquecidos, medidores.
Isto é a Ordem!

Ordens de registo:
levo os bolsos
cheios de ordens de registo.
Forças da Ordem.
Claro: da Ordem!

Mal saio de uma Ordem
e já me persegue outra Ordem:
Ordem pública, pública,
Ordem íntima: um
a dar ordens
a si mesmo!

E vozes preventivas
e vozes executivas,
pobres vozes!

Passem, senhores, passem!
A numerar-se! A ordenar-se!
Proibido alterar a Ordem!
Isto
é uma Ordem!

Reflexos condicionados,
funções condicionadas,
pessoas rectas,
ideias fixas,
deuses, deuses
rectos e fixos,
imagens: que mistura
de imagens, de sombras,
de ordens.
Uma Ordem! Uma Ordem!

A norma, a regra:
tem a regra,
cumpre a ordem.
É a Ordem,
o grande teatro da Ordem!
A eterna submissão
do diverso à Ordem!

Liberdade!
dentro de uma Ordem!

A Ordem!
Isto é a Ordem!

Dizei-me: do homem!
Que resta aqui do homem?

_
▪ Jesús Lizano
(Espanha 🇪🇸 )
in “O Engenhoso Libertário – Breve Antologia Poética de Jesús Lizano“, com organização, tradução e prefácio de Carlos d’Abreu, Douda Correria, Lisboa, 2015
 

ARMAZÉM

Quando mudei de casa
Descobri imensas coisas para as quais não tinha
espaço. O que se faz numa situação destas? Aluguei
um armazém. Enchi-o. Passaram-se anos.
De quando em vez, visitava-o, observava as minhas coisas,
mas nada acontecia, nem uma só
pontada no coração sentia.
À medida que fui envelhecendo, as coisas que realmente gostava
foram diminuindo, mas crescendo
em importância. Então, um dia abri o cadeado
e chamei o homem do ferro-velho. Ele
levou tudo o que lá estava.
Senti-me como um pequeno burrito, quando
o libertam do seu fardo. Coisas!
Queima-as! Queima-as! Faz uma maravilhosa
fogueira! Mais espaço fica no teu coração para o amor,
para as árvores! Para os pássaros, que nada
possuem – a razão de poderem voar.

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA 🇺🇲 )
in “ Felicidade”, 2015
Mudado para português por Pedro Belo Clara