UM CÂNTICO PARA A MÃE

Contigo mãe
Terminaram todas as recordações
Resta-nos o esquecimento como um muro
Sobre a tragédia da vida
Tu levaste todas as dores
Para que nada fique connosco
Nem o arrependimento sequer
De não estarmos mais contigo enquanto foi móvel a tua existência
Mãe, eu já lavei o meu rosto com lágrimas
Para que não ficasse nenhuma pegada
Do teu derradeiro olhar.

 
_
▪ Julián Petrovick
( Peru 🇵🇪 )

DOIS POEMAS DE LUIS ALBERTO DE CUENCA

 

Bébetela

 

Dile cosas bonitas a tu novia:
“Tienes un cuerpo de reloj de arena
y un alma de película de Hawks.”
Díselo muy bajito, con tus labios
pegados a su oreja, sin que nadie
pueda escuchar lo que le estás diciendo
(a saber, que sus piernas son cohetes
dirigidos al centro de la Tierra,
o que sus senos son la madriguera
de un cangrejo de mar, o que su espalda
es plata viva). Y cuando se lo crea
y comience a licuarse entre tus brazos,
no dudes ni un segundo:
bébetela.

 

Bebe-a

 

Diz coisas bonitas à tua namorada:
“Tens um corpo de relógio de areia
e uma alma de filme de Hawks.”.
Di-lo muito baixinho, com os lábios
colados à sua orelha, sem ninguém
poder escutar o que estás a dizer
(ou seja, que as suas pernas são foguetes
dirigidos para o centro da Terra
ou que os seus seios são a madrigueira
de um caranguejo ou que as costas
são prata viva). E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços,
não hesites um segundo:
bebe-a.

 

No está muerta

 

Ella dijo, después de mil besos y abrazos:
“Soy tan feliz que quiero que el tiempo se detenga.”
Y él respondió: “No sufras, ya inventaré la fórmula
de que el tiempo no pase para ti.” Y la miraba
con los ojos nublados por la melancolía.
Y entonces ella dijo: “Si logras detenerlo,
que no vaya a dolerme y, sobre todo, que haga
juego con mi vestido.”

 

Não está morta

 

Depois de mil beijos e abraços, ela disse:
“Estou tão feliz que quero que o tempo páre.”.
“Não te preocupes, vou já inventar a maneira de o tempo
não passar para ti.”, respondeu ele. E olhava-a
com os olhos nublados pela melancolia.
Diz ela então: “Se conseguires detê-lo,
que não me doa e, sobretudo, que condiga
com o meu vestido.”

 

_
▪ Luis Alberto de Cuenca
(España 🇪🇸 )

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho  🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático

 

TRICÍDIO

Matei meu pai e minha mãe com um garfinho
– com um garfinho – porque os confundi com dois
pássaros nas árvores do caminho. Matei os meus pais
com a pinça de catar cubos de açúcar do meu avô:
não disse uma só palavra o adorado ídolo a quem eu,
todas as manhãs, saúdo tirando o chapéu. O gato da
minha vizinha tomou-me sob a sua protecção. Veio
sentar-se a meu lado, vigiando-me constantemente – a
sua crina, de pele de coelho bestialmente escovada por
detrás e os seus olhos em forma de ovos de cegonha.

Agora estou só agora e mortalmente triste:

todo o trabalho abandonado: choro – apoiada no
caixãozinho onde dormem lado a lado.

o meu pai e a minha mãe que eu matei com um garfinho
no maldito dia dos meus dezasseis anos.

 

Marianne Van Hirtum
Bélgica (1935-1988)
Tradução de Regina Guimarães

ENCONTRO NUMA FESTA EM LONDRES

Durante um minuto permanecemos desconcertadamente juntos.
Perguntas a ti mesmo em que língua hás-de falar-me,
ofereces, antes, uma cebola avinagrada num palito.
És jovem e talvez te esqueças
de que o Império vive
apenas nos sons puros das vogais que te ofereço
acima do ruído.

 

_
▪ Eunice de Souza
( India 🇮🇳 )
in “Rosa do Mundo” [2001 Poemas para o Futuro], Assírio & Alvim, 2001

*

Mudado para português por _ Cecília Rego Pinheiro 🇵🇹  Tradutora e Professora

DOIS POEMAS DE J. R. SOLONCHE

 
Lazarus

 

“Lazarus, arise,” you said.
And I arose.
I walked out of the darkness into the sunlight.
I shielded my eyes with my hand against the sun.
I stood there and waited.
I waited for you to tell me what to do next.
What did you want me to do?
Did you want me to speak of what death was?
Did you want me to go to my family and resume my life?
Did you want me to follow you in your preaching?
To testify on your behalf as a maker of miracles?
I stood there.
I waited.
You never told me what to do.
So when all of you were gone, I took down my hand from my eyes.
I turned and walked into the tomb.
I waited to die again.
I waited to die from thirst.
I waited to die from hunger.
It took a long time.

 

Lázaro

 

“Lázaro, levanta-te!”, disseste.
E eu ergui-me.
Saí da escuridão para a luz do sol.
Protegi os meus olhos com a mão.
Fiquei ali à espera.
À espera de que me dissesses o que fazer.
Que querias que eu fizesse?
Que falasse sobre o que era a morte?
Que voltasse para a minha família e reatasse a minha vida?
Que te acompanhasse na pregação?
Que testemunhasse a teu favor como fazedor de milagres?
Fiquei ali.
À espera.
Nunca me disseste o que fazer.
Assim, quando todos abalaram, tirei a mão dos olhos.
Virei-me e voltei para o túmulo.
À espera de morrer de novo.
De sede.
De fome.
Levou imenso tempo.

 

*

That red wheelbarrow

 

How disappointed I was
when I found out
that the story wasn’t true,
that he had noticed it
through the window
of the room of the sick
little girl he was called
to tend to, but that it
actually belonged
to an old black street
vendor in Rutherford.
Of course, so much did
depend on it regardless
of whose it was,
and the rain water
did still glisten on it,
and the white chickens
were still white and
were still going to get
their throats cut. So
perhaps it’s a good thing
it was the street vendor’s.
The little girl would
have given them names.

 


O carro de mão vermelho

 

Que desapontado fiquei
quando soube
que a história não era verdadeira,
que dera conta dele
pela janela
do quarto da miúda
adoentada que fora
chamado a consultar, mas que
na verdade pertencia
a um velho vendedor ambulante
negro em Rutherford.
Claro que tanta coisa
dependia dele a quem quer
que pertencesse,
a água da chuva
ainda nele cintilava,
os frangos brancos
ainda eram brancos e
ainda iam ter os pescoços
cortados. Talvez fosse
pois uma boa coisa
pertencer ao vendedor.
A miúda ter-lhes-ia
posto nomes.

 

_
▪ J. R. Solonche
(U.S.A. 🇺🇲)

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho   Poeta, Tradutor e Matemático

 
 

DOIS POEMAS DE LINDA PASTAN

 

Popcorn
 
When Plato said
that what we see are shadows
flickering on a cave wall,
he must have meant
the movies.
You let a cigarette lean
from your mouth precisely
as Bogart did.
Because of this, reels later,
we say of our life
that it is B-grade;
that it opened and will close
in a dusty place where
things move always
in slow motion;
that what is real
is the popcorn
jammed between our teeth.

 
Pipocas
 
Quando Platão disse
que o que vemos são sombras
a tremularem na parede de uma caverna
deve ter querido referir-se
ao cinema.
Tu deixas um cigarro pender
da boca exactamente
como Bogart.
Por causa disso, bobinas mais tarde,
dizemos que a nossa vida
é um filme série B;
que começou e terminará
num lugar poeirento onde
tudo acontece sempre
em câmara lenta;
que o que é real
são as pipocas
presas entre os nossos dentes.

 
Rereading Frost
 
Sometimes I think all the best poems
have been written already,
and no one has time to read them,
so why try to write more?

At other times though,
I remember how one flower
in a meadow already full of flowers
somehow adds to the general fireworks effect

as you get to the top of a hill
in Colorado, say, in high summer
and just look down at all that brimming color.
I also try to convince myself

that the smallest note of the smallest
instrument in the band,
the triangle for instance,
is important to the conductor

who stands there, pointing his finger
in the direction of the percussions,
demanding that one silvery ping.
And I decide not to stop trying,

at least not for a while, though in truth
I’d rather just sit here reading
how someone else has been acquainted
with the night already, and perfectly.

 
Relendo Frost
 
Penso às vezes que os melhores poemas
já foram todos escritos
e ninguém tem tempo para os ler,
porquê então tentar escrever mais?

Noutras alturas contudo
lembro-me de como uma flor
num campo já cheio delas
acrescenta algo àquele efeito de fogo de artifício

ao chegarmos ao cimo de um monte
no Colorado, digamos, no pino do verão
e olharmos para toda aquela cor transbordante.
Tento convencer-me também

de que a nota mais pequena do instrumento
mais pequeno na orquestra,
os ferrinhos por exemplo,
é importante para o maestro

ali de pé, apontando o dedo
na direcção da percussão,
exigindo aquele ping argentino.
E resolvo não parar de tentar,

por uns tempos pelo menos, embora na verdade
eu preferisse sentar-me apenas aqui a ler
como outra pessoa se familiarizou
já, e perfeitamente, com a noite.
 

_
▪ Linda Pastan
(E.U.A. 🇺🇲)
in “Estes anos a desaparecerem”, Douda Correria, Lisboa, 2021

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

 

TALVEZ O MUNDO ACABE AQUI

O mundo começa numa mesa de cozinha. Não importa o quê, temos de comer para viver.

As oferendas da terra depois de preparadas são postas sobre a mesa. Sempre foi assim desde a criação e continuará a ser.

Afastamos as galinhas e os cães. Os bebés rompem os dentes nas esquinas. E arranham os joelhos debaixo dela.

É aqui que as crianças recebem instruções sobre o que significa ser humano. É aqui que nos tornamos homens ou mulheres.

Nesta mesa, mexericamos, recordamos os inimigos e os fantasmas dos amantes.

Os nossos sonhos tomam café connosco, enquanto abraçam os nossos filhos. E riem dos nossos pobres egos em queda e de quando nos recompomos mais uma vez à mesa.

Esta mesa foi uma casa à chuva e um refúgio ao sol.

Guerras começaram e terminaram nesta mesa. É o lugar onde nos podemos esconder da sombra do terror. Um lugar para celebrar a terrível vitória.

Demos à luz nesta mesa e preparamos aqui os nossos pais antes de serem enterrados.

Nesta mesa, cantamos com alegria e com tristeza. Oramos por sofrimento e remorso. Agradecemos.

Talvez o mundo acabe na mesa da cozinha, enquanto rimos e choramos, comendo o último bocado doce.

 

_
▪ Joy Harjo
(E.U.A. 🇺🇲)
in “The Woman Who Fell From the Sky”, W. W. Norton & Company, 1994

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹  Poeta, tradutor e médico

 



 

PERHAPS THE WORLD ENDS HERE

 

The world begins at a kitchen table. No matter what, we must eat to live.

The gifts of earth are brought and prepared, set on the table. So it has been since creation, and it will go on.

We chase chickens or dogs away from it. Babies teethe at the corners. They scrape their knees under it.

It is here that children are given instructions on what it means to be human. We make men at it, we make women.

At this table we gossip, recall enemies and the ghosts of lovers.

Our dreams drink coffee with us as they put their arms around our children. They laugh with us at our poor falling-down selves and as we put ourselves back together once again at the table.

This table has been a house in the rain, an umbrella in the sun.

Wars have begun and ended at this table. It is a place to hide in the shadow of terror. A place to celebrate the terrible victory.

We have given birth on this table, and have prepared our parents for burial here.

At this table we sing with joy, with sorrow. We pray of suffering and remorse. We give thanks.

Perhaps the world will end at the kitchen table, while we are laughing and crying, eating of the last sweet bite.

 

_
▪ Joy Harjo
(U.S.A. 🇺🇲)
from “The Woman Who Fell From the Sky”, W. W. Norton & Company, 1994

 

A FELICIDADE DO MEDO

 

Para a Ana

 

Às vezes entre a noite e a manhã
Vejo os cães rodearem-te
Cães com os dentes à mostra
E tu deitas as mãos às suas patas
E ris nos seus dentes
E eu acordo a transpirar de medo
E sei que te amo

 

_
▪ Heiner Müller
(Alemanha 🇩🇪 )
in “Traumtext”, Editora Stroemfeld, 1996

*

Mudado para português por _ Luís Costa 🇵🇹  Poeta e tradutor



 

DAS GLUCK DER ANGST

Für Anna

 

Manchmal zwischen Nacht und Morgen
Seh ich Hunde dich umkreisen
Hunde mit gebleckten Zähnen
Und du greifst nach ihren Pfoten
Und du lachst in ihre Zähne
Und ich wache auf mit Angstschweiß
Und ich weiß daß ich dich liebe

 

_
▪ Heiner Müller
( Deutschland 🇩🇪 )
in “Traumtext”, Stroemfeld, 1996
 

PÁSSAROS E SACOS

Bandos de pardais entristecem-me
quando, rápidos, voam pelos campos
e gorjeiam, secos e ásperos,
pela sua pobreza bem arada.
Não deixem nunca de fazer-me companhia.
Quase nada nos acompanha até ao fim.
Também não me abandona o cheiro dos sacos
que me serviam de cama no fundo do carro
quando andava, em criança, nas vindimas.
Saía antes da alvorada. Os sobressaltos
das rodas e o ritmo forte, calmo,
dos cascos cravados adormeciam-me.
Os sacos ainda fazem a vez de mãe.
O seu cheiro regressa, denso e cálido,
enquanto vejo como brilha ao sol a relva
e os bandos de pardais, desesperados,
procuram um lugar onde poisar
e saciar uma fome pequena e dura.
Voam, voam comigo até ao fim.

 

_
▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸 )
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015

*

Mudado para português por _ Miguel Filipe Mochila 🇵🇹  Poeta, tradutor e professor