SOUS LA NUIT

 

para Y. Yván Pizarnik de Kolikovski, meu pai

 

___ Os ausentes sopram cinzentamente e noite é densa.
A noite tem a cor das pálpebras do morto.
___ Fujo toda a noite, enceto a perseguição e a fuga, canto
um canto para os meus males, pássaros negros sobre mor-
talhas negras.
___ Grito mentalmente, o vento demente desmente-me,
confino-me, afasto-me da mão crispada, não quero saber
de mais nada senão deste clamor, este arquejar da noite,
esta errância, este não se encontrar.

___ Toda a noite faço a noite.
___ Toda a noite me abandonas lentamente como a água
cai lentamente. Toda a noite escrevo para procurar quem
me procura.
___ Palavra por palavra eu escrevo a noite.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
in “Antologia Poética”, Editora Tinta da China, Lisboa, 2020

*

Mudado para português por _ Fernando Pinto do Amaral  🇵🇹  Professor, Tradutor e Poeta

 

INTRODUÇÃO

Atei uma ligadura ao mundo.
Seguindo uma estratégia diferente, há quem o aparafuse ajoelhan-
do-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila.
Por cima dele o céu é elástico.
Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao dar por acabado o livro
de que este texto pode, entre outros, ser a introdução, mais me fascinam.
A própria alma é elástica: podemos, assentando um dedo sobre a sua
superfície e pressionando-a, levá-la a tocar nas coisas mais inesperadas.
O real é um vidro pintado sob o sol berrante, as coisas prendem-se-
-me ao espírito. Do mar, para não dar senão um exemplo, fiz a minha
máscara integral.

 

_
▪ Luís Miguel Nava
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia”, Assírio & Alvim, 2020

 

NUMEROGRAFIA

onde estamos?        que revólver
campeia no deserto?             que
matriz norteia   o   objecto?

por ecos se repete na figura a equação da curva:
o invisível ceptro do seu número:
por ecos se reflecte a sua forma celeste
na cinza do contínuo:

_________________________ que luz emite?
que procura? ________que paradigma sonha
a sua sombra na figura?
em que campo celeste e em que linha de terra
se ergue  _______ a sua casa de ciprestes
na penumbra antiga do número?

 

_
▪ Alexandra Kräft
— Heterónimo de Maria Azenha 🇵🇹 —
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998


OBS: Quem é Alexandra Kräft?

Alexandra Sigmund Kräft (Londres, n. 2025 ) elege o átomo como Estátua Cósmica.
Ela pensa sobre os contornos e sombras dos objectos, não sobre os próprios objectos, que não existem.
Por isso o outro ser humano é uma ilusão: tudo é objecto do seu olhar.
E tudo é abjecto do seu ver.
É esta náusea que a define.

 

 

AS MÃOS DA NOITE

As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.

Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite :  as figuras quebradas.

A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou

a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde

O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa

 

_
▪ Manuel Gusmão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Contra todas as evidências”  Poemas reunidos – I
Editorial Avante, Lisboa, 2013

NESTE SILÊNCIO

Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vazio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.

 

_
▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas e Pedras”, Ed. Autor, Lisboa, 1962

NO MEIO DA NOITE

Esta página é a de um morto
numa casa envenenada pelo vento.
Corre no meio da noite
em busca do poema.

E o poema esconde-se

muito puro
no silêncio de um homem aflito.

A Deus pede
o sudário de uma estrela

na agonia
do
infinito.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
inédito



 

NEL CUORE DELLA NOTTE

 

Questa pagina è quella di un morto
in una casa avvelenata dal vento.
Corre nel cuore della notte
in cerca della poesia.

E la poesia si nasconde

molto pura
nel silenzio di un uomo afflitto.

A Dio chiede
il sudario di una stella

nell’agonia
dell’infinito.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
inedito

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

NA CAPARICA

 

1.

Subimos a rua dos velhos pescadores
empurrados pelo rumor dos corpos
que tudo ignoram do alfabeto
da fome.

Na loja do chinês, um girassol
ilumina os recantos da exactidão

enquanto a mulher franzina
vai bordando um naperon
de silêncios.

2.

Na travessia do poente avermelhado
surge de repente
o efémero espanto da infância

a escuridão murmurada
onde cintilam os passos de uma mãe
inacessível

onde as aves se despedem
sem ruído.

 

_
▪ Maria Graciete Besse
( Portugal 🇵🇹 )
in “Na inclinação da luz”, Licorne, Évora, 2019

A MAN MET A WOMAN

A man met a woman and loosed a flower inside her.
Drifting on the wind the flower accompanied the woman for nine months.
And the wind laden with dead leaves cried: it is time for another flower to be born.
And the memory of the flower renounced its work.
And the woman said: I want my flower back.
And she heard her voice lost in an elsewhere.
Years later the man grew old and received the gift
of a coffin.
The woman leapt from a window.
Spring, brimming with flowers, turned unbearably beautiful.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— unpublished —

 *

Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist 



 

UM HOMEM ENCONTROU UMA MULHER

 

Um homem encontrou uma mulher e atirou para dentro dela uma flor.
A flor acompanhou a mulher durante nove meses arrastada pelo vento.
E o vento carregado de folhas mortas gritou: é tempo de nascer outra flor.
E a memória da flor deixou-se operar.
E a mulher disse: quero a minha flor de volta.
E ouviu a sua voz perdida noutro lugar.
Anos mais tarde o homem envelheceu e recebeu de presente
um caixão.
A mulher pulou da janela.
A primavera, repleta de flores, tornou-se insuportavelmente bela.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —