FUI À RUA BUSCAR A MORTE

 

_____Fui à rua buscar a morte que andava desaustinada pelas paredes
como cão raivoso. Ofereci-lhe o braço, trouxe-a comigo, fi-la minha amante. Num leito de linho nos deitámos e em segredo me falou dias seguidos sobre a sua infância, a solidão debaixo da terra, o amor pela natureza. Explicou-me como acariciava os bichos comedores de cadáveres e dessa alegria maliciosa.
_____ A morte passou a ter para mim muita importância. Comecei a vesti-la de alvas roupas, coser-lhe flores ao crânio, amando-lhe a face lívida, iniciando-a numa sensualidade sem fim.
_____ Então, numa manhã a Morte sorriu mostrando nos seus lábios o seu carácter perfeito, isento de mesquinhez; beijou-me a boca, as pernas, o coração. Perturbou-me.
_____ No meu interior países fervilharam, milhões de rostos se viraram à luz: Tudo era claro como nunca sucedera.

_____ Começara outra vida: dera-se a iluminação.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esquizo Frenia” , &etc, Lisboa, 1979



 

SALÍ A LA CALLE A BUSCAR LA MUERTE 

 

_____ Salí a la calle a buscar la muerte que andaba sobresaltada por las paredes como un perro rabioso. Le ofrecí el brazo, la traje conmigo, la convertí en mi amante. En un lecho de lino nos acostamos en secreto me habló durante días seguidos sobre su infancia, la soledad bajo la tierra, el amor a la naturaleza. Me habló de cómo acariciaba los animales comedores de cadáveres y de esa alegría maliciosa.
_____ La muerte comenzó a tener para mí mucha importancia. Comencé a vestirla con ropas claras, a coserle flores en el cráneo, amando su faz lívida, iniciándola en una sensualidad sin fin.
_____ Entonces, en una mañana la Muerte me sonrió mostrando en sus labios su carácter perfecto, exento de mezquindad; me besó en la boca, en las piernas, en el corazón. Me perturbó.
_____ En mi interior hervían países, millones de rostros volteaban hacia la luz: Todo era claro como nunca había sucedido.

_____ Había comenzado otra vida: ocurrió la iluminación.

 

_
▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esquizo Frenia” , &etc, Lisboa, 1979

*

Mudado para castelhano por — Carlos Ciro 🇨🇴  Editor, tradutor, poeta e ensaísta.

 

MENTALIDADE ou

aqui estou!, disseste

depois de eu ter feito
a pergunta ordinária: está lá?
estavas a falar da Marmeleira,
“aqui”, disseste
em vez do nome da terra, questão
só de mentalidade, porque
Marmeleira é um nome
como outro qualquer,
conheço muitos assim,
não precisa de ser com árvores,
nem sequer de fruto…
olha os Carvalhos, por exemplo,
e há mais! Enfim, tu viajas, sabes,
enquanto eu é o que se sabe;
eu vou só daqui para ali
e vice-versa…
e vice-versa, é claro,
porque ali é só para me lavar
e o resto… tem piada
porque primeiro o que escrevi li
rosto, mas o rosto já está,
claro que é o resto , está certo,
nenhum autor do meu conhecimento
em vez de resto escreveria cagar;
eles nem conhecem a palavra,
nunca a ouviram, ou se ouviram
pensaram que era uma “plataforma”
para outra coisa, talvez simplificação
de carregar, há autoclismos assim.
Voltaire, o maganão, dizia
também que não dizia, não precisava,
bom proveito lhe faça,
mas há quanto tempo foi isso?
é tudo mentalidade, ou não será
mental idade, pois passaram séculos,
houve muita coisa de cima para baixo:
o pudim, por exemplo, foi na cozinha,
a cozinha, centro de luculações e
lucubrações, na tua preparas tu
o teu ensopado, enquanto eu na panela
mexo a minha sopa de pacote, e assim
se vão passando os dias,
e de noite não se come. é a natureza,
“de noite comem os animais nocturnos”,
é uma das grandes observações
da revista científica, embora como tudo
tenha excepções: as excepções
às vezes são só uma questão
de mentalidade, mas outras não.
não foi na Marmeleira, também
dizes “vou entrar” quando
estás a entrar para o metro,
mas sempre que vais a sair
nunca dizes nada. mentalidade,
excepção? é mas é
um notável ponto de partida
para iniciar a filosofia
de que já te falei, lembras-te?,
segundo a qual embora o meu de transporte
seja o mesmo, e as mesmas pessoas
as implicadas, os dois actos
de entrar e sair, aproximação e afastamento,
têm um sentido tão apartado e — cuidado! —
parece mas não é sempre apertado,
pois num caso o “saio aqui” aproxima,
mesmo que a estação fique muito
distante, e o silêncio à saída afasta,
mesmo que a estação fique junto
à minha casa! mas a reflexão vai
por água abaixo (em caso de chuva)
porque junto à minha casa, é notável ,
não há nada. desse nada podia nascer
uma estação e um mundo de bilhetes,
e de turistas, claro, era onde eu queria chegar:
o tema é a mentalidade, não é?
é mesmo mentalidade há muito chula,
desde as especiarias, escravos, esbulhos
de muita espécie, sempre um esquema ,
e do pior, e dura, dura, dura,
sim, muito dura para os (e eis o x da questão)
expostos, os postos fora de sua casa.

 

_
▪ Alberto Pimenta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Zombo”, Edições do Saguão, Lisboa, 2019

 

O POETA NO SEU ATELIER DE LÁGRIMAS

Onde está
mãe         onde está
entre todos os leitos
da terra
a pedra   o nó do vento
o azul de todas as cores
que te falam
no fogo da Noite?

o amor soluça tempestades!
há homens desmaiados!

onde está mãe
onde está
onde o vento sopra
onde o vento compreende
e sabe
que brilha nesta Terra
esta ciência

esta conta feita
que não vem de volta?

o amor é uma águia
voando assustadoramente
para além das lágrimas!

onde está
mãe       onde está
a rotação do fogo
a estrela do mar-alto
os cavalos-frases com
bordados infindáveis
na hélice da Noite?

o amor é um passo ao lado
como um cão que ladra!

onde está mãe
onde está
o vapor dos barcos
que fogem das águas
no sangue incolor  redistribuído
pelas casas
pelas lâmpadas         pelas covas
pelas árvores
que comigo bebem
copos enlouquecidos
de
cantos telegráficos?

o amor é um automóvel
a dividir por quatro rodas!

onde está
mãe      onde está
o teu filho de dedos ciclópicos
feito com os teus olhos
cheios de contornos
que eu recordo que eu
recordo

o amor é uma bruxa
a perguntar por tudo!

onde está mãe
onde está
o coração velho das fábricas
agora
transformado
em supermercados    em hipermercados
em hiperhipermercados
condenados
à fealdade dos homens?

o amor tem voz fanhosa!
anda constipado.
não tem rosas no lugar adequado!

onde está mãe
onde está
o céu riscado
o outro Lado
onde andava de comboio pelo Cosmos
entre cativas margens
onde Deus fecundava as páginas?

o amor é um calendário!
uma cidade doida
com espelhos nas escadas!

onde está
mãe onde está o mar
a sua flauta mágica?

os dois cornetos de nuvens
que eu amava
que eu amava,

onde flutuam?

o amor é uma máquina de números!
um dois três !
um dois três !

uma picadora eléctrica
que faz parar o trânsito
entre Deus
e
os
Poetas!

Belos semáforos telegráficos!

olha mãe olha
mãe
eu vou acelerar vertiginosamente
estou farta de ser homem   tristeza de menina
sou     marianalfabeta
sou     marianalfabeta
sou Poeta.

e as rosas
hoje
incomodam-me

olha mãe olha
mãe      o amor
é uma grande guerra
que abre
e fecha as portas
põe luzes no Caminho
uma tragédia d’águas

olha mãe olha
mãe,
que vou acelerar vertiginosamente
fujo atrás dos figos
os mais esbeltos os mais livres
em carne e sangue vivos…

o amor é um rapaz na estrada
à espera de uma mulher
que é um violino!

olha mãe olha
há muito tempo que é domingo
e  vou sozinha
intensamente livre
angélica e fantasma,

dei um pulo para a Outra margem.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “P.I.M.”, Universitária Editora, Lisboa, 1999

Epigrafia #2

 
«explica-me este verso
pedias
como se a luz
pudesse
permanecer intacta
sobre a tua mão.»
 

Não expliques nenhum verso.
Peço-te.

Deixa que a luz tombe
sobre as janelas quase abandonadas
da varanda

e que as sombras de ferro forjado
que perduram nas cortinas
mesmo anoitecendo

sejam a única coisa intacta
no interior do poema.

 

_
▪ Sandra Costa
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

II

De um emboscado deus os sons que escreves
Vêm secretamente do infinito.
É p’ra escrever que as tuas mãos são leves,
Submissas asas de um misterioso espírito.

Alheia te é a música que atreves;
Teu é o fado, o precipício, o rito
Da dor que faz passar entre horas breves
A voz de um deus escondido no teu grito.

Cercado por crepúsculos de sabres,
A vida perfumar com as rosas que abres
Te é mister, poeta grácil de olhos tristes.

Desafias os astros? Não te gabes.
És sábio de saber que nada sabes.
Estás a mais no mundo e não existes.

 

_
▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sonetos Românticos”, Edições “O Jornal”, Lisboa, 1990

 

PRECE NO MEDITERRÂNEO

Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com o coração de ver,
vozes que nos aceitem.

E tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão, cega
durante a travessia

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar

que é também nosso

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ágora”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2020

E ASSIM FOI

assim que deus me apareceu peguei na máquina dos anjos
e comecei a escrever
certo é que sou mãe mas não uma qualquer
ando de um lado para outro com o paraíso dentro
conheço a cor intensa das mulheres que se sentam em casa
à espera que o seu corpo rebente
e penso:

agora escrevo como uma matrioska
estou sempre a deitar cá para fora mundos que fazem aumentar o universo
o Pessoa sabia-o e mudava frequentemente de ADN
estava farto de coisas visíveis como eu que nunca estou
na mesma cabine nem no mesmo laboratório de sombras
com a mão aberta à ciência

que hei de fazer se sou de dentro para fora
estou sempre grávida
repleta de objetos exóticos que se espantam de
tudo nada existir realmente

tenho o ar leve
sou uma nave

o meu corpo é uma metáfora

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Integra a Antologia Poética “Quem dera o sangue fosse só o da menstruação” – Volume II, Organização Debora Ribeiro 🇧🇷, Editora Urutau, Brasil/Galiza e Portugal, 2020

E no entanto o dia é fundo

O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram.
Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.

 

_
▪ Soledade Santos
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sob os teus pés a terra”, Editora Artefacto, Lisboa, 2010

TRE MADRI. TRE POESIE DI SABBIA

Ho sognato che avevo tre madri.
Tutte e tre stanno sotto un albero con gli occhi in alto.
La prima è trasparente e cuce pezzi fini di un cratere
dentro il mio petto.
La seconda brilla nel deserto nelle pareti della mia stanza.
E piange fili di seta in un caverna.
La terza suona il Silenzio di un Flauto,
cantando musiche antiche,
per gli anni che non abbiamo vissuto insieme.
Tutte e tre appartengono a un paese di sabbia e stanno tutte su un’isola.
noi abbiamo visto i prigionieri che ci hanno fatto compagnia.
Uno di loro è mia Madre. L’altro, mia figlia.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



TRÊS MÃES. TRÊS POEMAS DE AREIA

 

 

Sonhei que tinha três mães.
As três estão debaixo de uma árvore de olhos para cima.
A primeira é transparente e cose pedaços finos de uma cratera
dentro do meu peito.

A segunda brilha no deserto nas paredes do meu quarto.
E chora fios de seda numa caverna.

A terceira toca o Silêncio de uma Flauta,
cantando músicas antigas,
pelos anos que não vivemos juntas.

As três pertencem a um país de areia, e estão todas numa ilha.
nós vimos os prisioneiros que nos fizeram companhia.
Um deles é minha Mãe. Outro, minha filha.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M”

 

* Áudio: “Três Mães. Três poemas de areia” — Maria Azenha [Poema e voz]
Música – ‘Beyond’ (excertos) , Tina Turner