PRECE NO MEDITERRÂNEO

Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com o coração de ver,
vozes que nos aceitem.

E tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão, cega
durante a travessia

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar

que é também nosso

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ágora”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2020

E ASSIM FOI

assim que deus me apareceu peguei na máquina dos anjos
e comecei a escrever
certo é que sou mãe mas não uma qualquer
ando de um lado para outro com o paraíso dentro
conheço a cor intensa das mulheres que se sentam em casa
à espera que o seu corpo rebente
e penso:

agora escrevo como uma matrioska
estou sempre a deitar cá para fora mundos que fazem aumentar o universo
o Pessoa sabia-o e mudava frequentemente de ADN
estava farto de coisas visíveis como eu que nunca estou
na mesma cabine nem no mesmo laboratório de sombras
com a mão aberta à ciência

que hei de fazer se sou de dentro para fora
estou sempre grávida
repleta de objetos exóticos que se espantam de
tudo nada existir realmente

tenho o ar leve
sou uma nave

o meu corpo é uma metáfora

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Integra a Antologia Poética “Quem dera o sangue fosse só o da menstruação” – Volume II, Organização Debora Ribeiro 🇧🇷, Editora Urutau, Brasil/Galiza e Portugal, 2020

E no entanto o dia é fundo

O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram.
Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.

 

_
▪ Soledade Santos
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sob os teus pés a terra”, Editora Artefacto, Lisboa, 2010

TRE MADRI. TRE POESIE DI SABBIA

Ho sognato che avevo tre madri.
Tutte e tre stanno sotto un albero con gli occhi in alto.
La prima è trasparente e cuce pezzi fini di un cratere
dentro il mio petto.
La seconda brilla nel deserto nelle pareti della mia stanza.
E piange fili di seta in un caverna.
La terza suona il Silenzio di un Flauto,
cantando musiche antiche,
per gli anni che non abbiamo vissuto insieme.
Tutte e tre appartengono a un paese di sabbia e stanno tutte su un’isola.
noi abbiamo visto i prigionieri che ci hanno fatto compagnia.
Uno di loro è mia Madre. L’altro, mia figlia.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



TRÊS MÃES. TRÊS POEMAS DE AREIA

 

 

Sonhei que tinha três mães.
As três estão debaixo de uma árvore de olhos para cima.
A primeira é transparente e cose pedaços finos de uma cratera
dentro do meu peito.

A segunda brilha no deserto nas paredes do meu quarto.
E chora fios de seda numa caverna.

A terceira toca o Silêncio de uma Flauta,
cantando músicas antigas,
pelos anos que não vivemos juntas.

As três pertencem a um país de areia, e estão todas numa ilha.
nós vimos os prisioneiros que nos fizeram companhia.
Um deles é minha Mãe. Outro, minha filha.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M”

 

* Áudio: “Três Mães. Três poemas de areia” — Maria Azenha [Poema e voz]
Música – ‘Beyond’ (excertos) , Tina Turner

 

A FLORESTA

A mulher coloca a criança na escola
a escola coloca a criança na sala
o pai furta da sala a criança
a criança vai para a floresta
o pai abre uma vala
a mãe
esconde-se na terra
a criança
fica sozinha
a mãe
come o pai
na
floresta

 


▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Xeque-mate”, Editora Urutau, Brasil, 2018

 

INTERLÚDIO

essa insónia era gentil, diferente da outra, a da noite não madrugada ainda,
geralmente depois de um pesadelo. dessa insónia maior que a própria insónia
não havia desejo nenhum: só um medo de fazer recolher mãos, dedos, pulsos,
olhos fechados. suficiente de imaginar dentro dos olhos um sítio alto, e o
medo reproduzido: cair na cama tão pungente como um precipício.

 
_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” Poesia 1990-2010, Dom Quixote, Lisboa, 2010

 

I MORTI DEL MONDO MODERNO

Ho visto Abele uccidere Caino!
Ho visto uno specchio di morti di velluto
accostati a un Muro.
Bevevano birre insieme ed erano ubriachi di Buio.
Quando parlo di questo alle persone
con parole incise su corone di spine
voltano le spalle. Non sanno di cosa io parli.
Allora ho dovuto mettere una maschera.
Con guanti chirurgici ho graffiato il vento
e i versi non gemettero al toccarli.
Né una foglia a terra per il biancore caldo delle mani.
Né uno specchio degno per scrivere oscuramente sulle braccia.
Riesco solo a urlare l’imponderabile il rally immenso dei morti.
I negozi,
— Come dirvi? —
con lo stesso manichino da vetrina
con gli stessi vestiti,
con gli stessi denti,
con gli stessi colori,
e le gambe dei bambini senza mutamento.
Non so come lo sopportano.

Là dentro il registratore di cassa del tempo
e il sangue che scorre nella roca speranza.
La padrona del negozio è appassita.
Chiede ogni momento scusa.

Uscirò nella selva, ho solo bisogno che qualcuno mi ascolti
su un ramo di angoscia.
Risolvo la maschera con i pasticci della Cina
e con la candeggina della Storia per disinfettare il mondo.

Approfitto ora di un intervallo per insultare la memoria
e passeggiare nelle ombre creatrici di uccelli.
Quasi immersa nel terrazzo, a metà pomeriggio, di un sesto piano,
prendo il sole e il suo mansueto abbraccio.
— Non si sentono macchine,
né aerei esaltati
che improvvisano sonate per topi.
Tutto è andato giù nello scarico del mondo. —

Quasi le cinque.
Sono quasi le cinque.

C’è uno specchio di morti di velluto
da qualche parte
accostato
a un Muro.

Più tardi,
i morti pensierosi e maturi
andranno al lavoro,
come di consueto.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia de Protesto”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 

OUVIU-SE LONGAMENTE

Ouviu-se longamente,
desde o fundo das cisternas,
um grito que arruinou para sempre os palácios
de vidro.

O príncipe cego acordou em sobressalto e com
um dedo em riste, trémulo,
assinalou o Oriente,
mas não disse nada.

Muito perto,
nos aposentou de cetim e almíscar,
sob os tectos de âmbar,
as concubinas continuaram a dormir, a dormir
profundamente,
como só acontece com as amantes cujo corpo
saciado
esquece as amargas horas do mundo.

Eram belas assim,
deitadas,
acariciando o cofre onde guardavam as jóias:
crescentes em ouro, anéis,
pulseiras onde se reflectia o brilho de Lira e
Andrómeda,
pérolas que rodeavam as suas gargantas escuras,
e desciam para a inclinação dos seios.

Era uma vida lenta, uma vida pura.

Havia uma interminável música de alaúdes nos
longínquos lugares do sono.
Sobre os animais do deserto,
viajavam outros príncipes, também cegos pelo
desejo
que começava nos oásis do Levante.

As tâmaras eram esmagadas pela ferocidade
dos dentes.
Vénus nascia muito cedo quando olhavam para
o seu lado esquerdo.
Mais tarde,
tambores incessantes cercavam as fogueiras.
Os turbantes brancos davam aos seus vultos a
placidez do algodão e das estátuas.

Era uma vida lenta, inspirada.

Encostado a uma palmeira,
o ancião das dunas interrogava Alá sobre os
segredos da lua cheia.
Mas os deuses não respondem aos homens que
contemplam a lua,
debaixo da sua morada.

Por vezes,
havia uma luz relampejante no aço das
cimitarras.
Por vezes,
o sangue corria como um pequeno rio vermelho,
através da areia,
purificado.

Era uma vida nómada, que passava.

Muito longe,
nos palácios em ruínas,
nos aposentos de cetim e almíscar,
sob os tectos de âmbar,
elas continuavam a dormir profundamente.

Eram apenas a carne, o sol, a serpente.
Eram apenas um corpo deitado, entreaberto.

 

_
▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esta voz é quase vento”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

 

CORRE NUDA NELLA VIA

Corre nuda nella via.
– È una donna –
Consegna la pioggia
di perla
in
perla
a un diamante segreto
occulto nelle mani.

Viene con lei la notte
e la neve.
E il primo giorno della Creazione.
Se mia figlia vivrà, sarà sua.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ 🇮🇹 tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 

CORRE NUA NA RUA

 
Corre nua na rua.
– É uma mulher –
Entrega a chuva
de pérola
em
pérola
a um diamante secreto
oculto nas mãos.

Vem com ela a Noite
e a neve.
E o primeiro dia da Criação.
Se minha filha viver, será sua.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”