A FLORESTA

A mulher coloca a criança na escola
a escola coloca a criança na sala
o pai furta da sala a criança
a criança vai para a floresta
o pai abre uma vala
a mãe
esconde-se na terra
a criança
fica sozinha
a mãe
come o pai
na
floresta

 


▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Xeque-mate”, Editora Urutau, Brasil, 2018

 

INTERLÚDIO

essa insónia era gentil, diferente da outra, a da noite não madrugada ainda,
geralmente depois de um pesadelo. dessa insónia maior que a própria insónia
não havia desejo nenhum: só um medo de fazer recolher mãos, dedos, pulsos,
olhos fechados. suficiente de imaginar dentro dos olhos um sítio alto, e o
medo reproduzido: cair na cama tão pungente como um precipício.

 
_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” Poesia 1990-2010, Dom Quixote, Lisboa, 2010

 

I MORTI DEL MONDO MODERNO

Ho visto Abele uccidere Caino!
Ho visto uno specchio di morti di velluto
accostati a un Muro.
Bevevano birre insieme ed erano ubriachi di Buio.
Quando parlo di questo alle persone
con parole incise su corone di spine
voltano le spalle. Non sanno di cosa io parli.
Allora ho dovuto mettere una maschera.
Con guanti chirurgici ho graffiato il vento
e i versi non gemettero al toccarli.
Né una foglia a terra per il biancore caldo delle mani.
Né uno specchio degno per scrivere oscuramente sulle braccia.
Riesco solo a urlare l’imponderabile il rally immenso dei morti.
I negozi,
— Come dirvi? —
con lo stesso manichino da vetrina
con gli stessi vestiti,
con gli stessi denti,
con gli stessi colori,
e le gambe dei bambini senza mutamento.
Non so come lo sopportano.

Là dentro il registratore di cassa del tempo
e il sangue che scorre nella roca speranza.
La padrona del negozio è appassita.
Chiede ogni momento scusa.

Uscirò nella selva, ho solo bisogno che qualcuno mi ascolti
su un ramo di angoscia.
Risolvo la maschera con i pasticci della Cina
e con la candeggina della Storia per disinfettare il mondo.

Approfitto ora di un intervallo per insultare la memoria
e passeggiare nelle ombre creatrici di uccelli.
Quasi immersa nel terrazzo, a metà pomeriggio, di un sesto piano,
prendo il sole e il suo mansueto abbraccio.
— Non si sentono macchine,
né aerei esaltati
che improvvisano sonate per topi.
Tutto è andato giù nello scarico del mondo. —

Quasi le cinque.
Sono quasi le cinque.

C’è uno specchio di morti di velluto
da qualche parte
accostato
a un Muro.

Più tardi,
i morti pensierosi e maturi
andranno al lavoro,
come di consueto.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia de Protesto”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 

OUVIU-SE LONGAMENTE

Ouviu-se longamente,
desde o fundo das cisternas,
um grito que arruinou para sempre os palácios
de vidro.

O príncipe cego acordou em sobressalto e com
um dedo em riste, trémulo,
assinalou o Oriente,
mas não disse nada.

Muito perto,
nos aposentou de cetim e almíscar,
sob os tectos de âmbar,
as concubinas continuaram a dormir, a dormir
profundamente,
como só acontece com as amantes cujo corpo
saciado
esquece as amargas horas do mundo.

Eram belas assim,
deitadas,
acariciando o cofre onde guardavam as jóias:
crescentes em ouro, anéis,
pulseiras onde se reflectia o brilho de Lira e
Andrómeda,
pérolas que rodeavam as suas gargantas escuras,
e desciam para a inclinação dos seios.

Era uma vida lenta, uma vida pura.

Havia uma interminável música de alaúdes nos
longínquos lugares do sono.
Sobre os animais do deserto,
viajavam outros príncipes, também cegos pelo
desejo
que começava nos oásis do Levante.

As tâmaras eram esmagadas pela ferocidade
dos dentes.
Vénus nascia muito cedo quando olhavam para
o seu lado esquerdo.
Mais tarde,
tambores incessantes cercavam as fogueiras.
Os turbantes brancos davam aos seus vultos a
placidez do algodão e das estátuas.

Era uma vida lenta, inspirada.

Encostado a uma palmeira,
o ancião das dunas interrogava Alá sobre os
segredos da lua cheia.
Mas os deuses não respondem aos homens que
contemplam a lua,
debaixo da sua morada.

Por vezes,
havia uma luz relampejante no aço das
cimitarras.
Por vezes,
o sangue corria como um pequeno rio vermelho,
através da areia,
purificado.

Era uma vida nómada, que passava.

Muito longe,
nos palácios em ruínas,
nos aposentos de cetim e almíscar,
sob os tectos de âmbar,
elas continuavam a dormir profundamente.

Eram apenas a carne, o sol, a serpente.
Eram apenas um corpo deitado, entreaberto.

 

_
▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esta voz é quase vento”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

 

CORRE NUDA NELLA VIA

Corre nuda nella via.
– È una donna –
Consegna la pioggia
di perla
in
perla
a un diamante segreto
occulto nelle mani.

Viene con lei la notte
e la neve.
E il primo giorno della Creazione.
Se mia figlia vivrà, sarà sua.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ 🇮🇹 tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 

CORRE NUA NA RUA

 
Corre nua na rua.
– É uma mulher –
Entrega a chuva
de pérola
em
pérola
a um diamante secreto
oculto nas mãos.

Vem com ela a Noite
e a neve.
E o primeiro dia da Criação.
Se minha filha viver, será sua.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

 

UM VILLON PORTUGUÊS (ler ao ritmo do Testament Villon)

Oh velhadas que sobrais por aí,
Na ilusão de que viver é bom,
Despertai com os filhos, também eles já velhotes,
Para uma nova e dura realidade:
O mundo é das crianças, de vozes assassinas,
De nada vos serviu educá-las com esforço
E a preceito,
Já nada disso conta, estais a mais na imagem,
Ninguém sabe quem fostes, ou quem sois,
E pior, se ainda sois,
A nada tendes direito.

O tempo não regride
Em carecas não ficam bem trancinhas,
E o que sobra da gritaria vã
Já não acorda os ais das memórias perdidas.

 

(Janeiro, 2020)

_
▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
Inédito

EM VÃO!

Em vão
_____assumirei a fome alheia como minha
_____(há mãos obscenas a ocultar o trigo)
Em vão
_____verei os olhos de meninos maiores que os seus ventres
_____(há mãos obscenas a roubar o trigo)
Em vão
_____Temerei as exactas máquinas da guerra
_____(há obscuras mãos a sequestrar a paz)
Em vão
_____Suportarei mal o sangue empapando o chão
_____(há obscuras mãos a estrangular a paz)
Em vão!
______Em vão!
____________Em vão!
__________________Mas que não digam que fui indiferente
__________________Que não me desesperei
__________________Que não morri mil mortes
__________________Que não paguei o tributo de ter sido
______________________________________homem.

 

_
▪ Adalberto Alves
( Portugal 🇵🇹 )
in “Oriente de mim”, Editorial Teorema, Lisboa, 1993

O NEVOEIRO

Comecei a formar-me
a partir do mito

Sabia-me água
condensada entre o mar e o céu,
mas pouco mais sabia,
até ouvir dizer, muito em baixo e ao fundo,
sobre a sua vinda.

Aprendi-lhes as palavras
e a ler o que diziam:
que ele desaparecera junto a longa batalha,
abandonando o galgo
que lhe era companheiro

E mais diziam:
que, com ele, entre a fé cega e o sonho,
haviam ido também
os de olhos mais de luz

Muito mais tarde havia eu de ouvir
que esses de olhos de luz
pertenciam aos que não tinham nunca
lutado pelo pão ou uma terra sua,
e que ser de mais luz, de ter mais sonhos,
vive na proporção das moedas
que povoam os bolsos

Não me viam, os seus olhos cegos,
entre o ardor e o rugir da batalha

E eu soube sempre,
mesmo quando era só água em finíssimos átomos ,
espalhada pelo céu e rente ao mar,
que ser tão poderoso ou menos poderoso:
uma deslocação de ar
sem peso que contasse

Nunca o vi, a ele,
antes de me ver eu feito nevoeiro,
e ele continua a ser-me
leve sombra sem corpo

Formei-me a partir de uma península,
e fui avançando devagar,
cobrindo tudo,
ano após ano,
século após século,
com ele atravessando-me o corpo,
o seu corpo e o meu sem formas definidas

Se ele não existisse,
Ele não existia,
e ainda hoje, de vez em quando,
se ouve dele falar,
com outras formas, outros nomes,
um ser vindo de outras paragens

Era preciso o brilho de um farol
de linhas sólidas e unidas
para que eu desaparecesse
para sempre do mito

Mas o farol não há,
e eu habito entre tempos,
aprisionado a elipses de tempo,
e a ele:
os dois presos à história

Se ao menos esse galgo que ele amava
nos guiasse, por fim,
como fio ou farol,
para dentro do tempo

E eu voltasse a ser nuvem,
e ele, só imagens –

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Escuro”, Assirio & Alvim, Lisboa, 2014