OS POBRES

Os pobres são muitos
e por isto
é impossível esquecê-los.

Seguramente
vêm
nos amanheceres
múltiplos edifícios
onde eles
queriam habitar com seus filhos.

Podem
levar nos ombros
o féretro de uma estrela.

Podem
destruir o ar como aves furiosas,
nublar o sol.

Porém desconhecendo seus tesouros
entram e saem por espelhos de sangue;
caminham e morrem lentamente.

Por isto
é impossível esquecê-los.

 

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▪ Roberto Sosa
(Honduras 🇭🇳)
Mudado para português por Floriano Martins

 

A LEI

Em criança fui um homem sozinho numa casa de mulheres.
À excepção do meu pai, à excepção do meu avô e do meu irmão,
fui um homem sozinho numa casa de mulheres
que se vestiam de vermelho e, em segredo,
usavam nomes de princesas antigas
para que o sonho coubesse todo na sua absurda forma de cristal.
Às vezes sozinho, sem nunca as entender,
falava a sua própria língua, como se fosse acreditar sempre
que a minha mãe e as minhas irmãs inventaram, só para elas,
todo o pranto e todo o silêncio que cabem no mundo.

Um dia Raquel ensinou-me a brincar com bonecos vestidos de púrpura
e a imaginar neles Hannah, em oração, quarenta anos mais nova,
na sua cama rodeada de arame farpado, a apaixonar-se pelo senhor F.
e pelos seus olhos cinzento-anjo.
Foram de longe os anos mais felizes da minha vida,
os que antecederam a clausura do Inverno no meu peito,
no dia em que o meu avô morreu.

Só então chorei, quando vi o meu pai aproximar-se do corpo
para o tapar, antes que os corvos lhe ensinassem
o que há que fazer àqueles que morrem.
Mal se suspendeu o céu fez-se negro o seu rosto.
Comprei-o, comprámo-lo caro com o trabalho doloroso das nossas mãos.
Aquietaram-se as árvores, o vento, as mudanças
e os pássaros puderam enfim repousar do seu voo de séculos.
Trinta dias de sol e secura se seguiram e, à primeira gota de chuva,
o meu pai abriu as portas de casa e houve festa.
O meu pai abriu as portas de casa e saíram as mulheres
e entraram os senhores da lei. Disseram
Sempre que invocarmos o teu nome virás a nós e nos abençoarás
Nessa mesma noite ensinaram-me
que Deus desenha o tempo à régua e nunca ao compasso
e que para Ele os olhos têm horizonte.

Anos mais tarde, quando já nenhum homem se importava
que chovesse ou não, deixei os meus antepassados sozinhos,
uns com os outros, a escrever e a pensar a lei e o sangue,
como se isso fosse pelo menos metade da vingança que o Senhor nos merece.
Uma fé inexistente talvez tivesse sido uma fé melhor,
no extenso bosque do meu peito negro,
com o meu avô, com o meu pai e com os seus olhos vazios virados para Leste.

 

▪ David Teles Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

CONTEXTO

Eu não fiz nada de errado
e a morte veio para metade da minha família.
Três mães e uma amiga. Eu não fiz nada de errado.

Eu não fiz nada de errado
e perdi o meu bebé no chão.
Eu perdi metade da minha mente
na sala de espera do hospital. Eu não fiz nada de errado.

Eu não fiz nada de errado.
e eu perdi você.

Ferida estranha e complicada.
Acumulação de todas as perdas que vieram antes.
Eu só estava tentando proteger.
Eu não fiz nada de errado.

Eu sei que a minha vida é de ouro.
Eu sei que, com ajuda, lutei muito.
Não sei como gravar a marca d’água nos calcanhares,
como impedir que meus membros recuem.
Como sentir metade de alguma coisa. E recuse educadamente a outra peça.
Como me manter em um só lugar. Eu não fiz nada de errado.

Como estancar o sangramento, em todas as circunstâncias, no chão.

Eu não fiz nada de errado.

 

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▪ Elizabeth M. Castillo
( Inglaterra 🇬🇧 )