FORJA

São golpes silenciosos: nada se ouve.
Um é a incompreensão, outro é o desprezo,
outro é a humilhação, outro são os maus-tratos,
repetidos em ritmos desiguais.
O meu sofrimento tornou-se incandescente.
Como sinto o martelo, e como
vibra esta bigorna, a dura solidão,
e as pinças do Ferreiro doem.
E não sei qual será a minha forma…

 

 

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▪ Mário Miguez
( Espanha 🇪🇦 )

 

HÁ TANTAS MANEIRAS DE DIZER O DESPERDÍCIO

Há tantas maneiras de dizer o desperdício
de uma noite: aquela em que dormimos
cedo demais, aquela em que dormimos
menos do que deveríamos, aquela em que
ficamos em casa e aquela em que
não mais sabíamos como regressar.
A noite atravessada de palavras, uma
depois da outra, cruéis, estéreis,
a noite rígida dentro do silêncio,
a noite solitária, e aquela em que a presença
humana é uma mácula, a madrugada
rendida ao desespero de uma prece
ou a noite órfã, sem deus, fora do tempo.
As noites de álcool e nicotina, de covardias
perante o tédio, de um torpor pantanoso,
em que não foi possível apagar as luzes,
em que caímos na cama com as roupas sujas,
ou nus e sonâmbulos – noites de ambulâncias,
de gritos, de um eco de garrafa
que se quebra. As primeiras noites
e as últimas, quando adormecemos
com um livro na mão, ou aquelas
em que compreendemos o que antes era
suspeita: ver o que aparece no espelho
quando não há ninguém diante dele
e não saber o que fazer com isso.

 

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▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

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▪ Adélia Prado
(Brasil 🇧🇷 )

A ÁGUA

“A água não opõe resistência. A água corre. Quando mergulhas uma mão na água vês só uma carícia. A água não é um muro, não pode parar. Vai para onde quer ir e nada se lhe pode opor. A água é paciente. A água que goteja consome uma pedra.
Lembra-te, minha filha. Lembra-te que metade de ti é água. Se não podes superar um obstáculo, vai à volta dele. Como faz a água.”

 

 

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▪ Margaret Atwood
(Canadá 🇨🇦 )

HÓSPEDE

Abri as portas da minha casa
as portas do meu tempo
as portas do meu nada
a um hóspede com joelhos de areia
que me traz o pequeno almoço à cama
e faz amor comigo usando as palavras remotas
de todos os degelos passados.

Nada de sério,
um clique da memória,
efémero,
uma aventura adolescente
que não imporá quarentena.
Um assobio de regresso
e voltarei alegre,
porque alegres são os reencontros
e até as melancolias.

O hóspede cheira ao tabaco preto
dos meses do pós-guerra
– espessa-me o sangue, causa trombos –
perfila sombras contra a minha luz.
Cheira a lúpulo e ao despertar de agosto,
adelgaça a cintura das minhas tardes
e incita-me a beijar os lábios do tempo.

Este meu hóspede parece-se tanto com a ausência
– carta timbrada na cidade que um poeta inventou –
que essa certeza me deixa vazia.
A minha casa.
O meu tempo.
O meu nada.

 

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▪ Carmem Ruiz Fleta
( Espanha 🇪🇦 )

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹  Poeta, tradutora e professora

QUE TEMPOS SÃO ESTES

Há um lugar entre dois renques de árvores onde a erva cresce colina acima
e a velha estrada revolucionária se desfaz em sombras
perto de uma capela abandonada pelos perseguidos
que desapareciam naquelas sombras.
Eu andei por lá colhendo cogumelos à beira do pavor, mas não se enganem
isto não é um poema russo, isto não está noutro lugar, mas aqui,
o nosso país aproximando-se da sua própria verdade e pavor,
as suas próprias maneiras de fazer as pessoas desaparecerem.
Não te vou dizer onde fica este lugar, onde a malha escura da floresta
encontra a súbita faixa de luz —
encruzilhada de fantasmas, paraíso de folhagem:
Já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.
E se não te vou dizer onde fica, porque estou então a falar
contigo? Porque tu ainda ouves, porque em tempos como estes
para que tu ouças, é necessário
falar de árvores.

 

 

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▪ Adrienne Rich
( E.U.A. 🇺🇲 )

Mudado para português por Jorge Sousa Braga

Na manhã seguinte Cesare Pavese não pediu pequeno almoço

Desceu sozinho do comboio,
atravessou a cidade deserta sozinho,
entrou sozinho no hotel vazio,
abriu o seu quarto solitário
e, surpreendido, ouviu o silêncio.
Diz-se que pegou no telefone
para ligar a alguém,
mas é mentira, completamente falso.
Não havia ninguém a quem telefonar,
não vivia ninguém na cidade, nem no mundo.
Bebeu a água, os pequenos comprimidos,
e esperou a chegada do sono.
Com algum medo da sua coragem
– afirmara pela primeira vez a sua existência –
curioso talvez, com um gesto cansado,
sentiu o peso das pálpebras a fecharem-se.
Horas mais tarde – um estranho sorriso desenhava-lhe os lábios –
anunciou a si próprio, teimosamente,
a única certeza que, por fim, adquirira:
não voltaria a dormir sozinho num quarto de hotel.

 
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▪ Juan Luis Panero
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

Mulheres

Há nas mulheres
o sono duma ausência
como uma faca aberta
sobre os ombros

à qual a carne adere
impaciente
cicatrizando já durante
o sonho

E há também
o estar impaciente
calarmos impacientes
todo o corpo

Sorrir não devagar
claramente
lugares inventados sobre
os olhos

E há ainda em nós
o estar presente
diariamente calmas
e seguras

mulheres demasiado
serenamente
nas casas   nas camas
e nas ruas

E como toda esta herança
não chegasse
como se ainda quiséssemos aumentá-la
fechamos os braços de cansaço
como se da vida
chegasse o inventá-la

E se do sono
nos vem o esquecimento
quantas insónias
cansamos por de dentro

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009