CENA FINAL

deixei a porta entreaberta
sou um animal que não se resigna a morrer

a eternidade é a escura dobradiça que cede
um pequeno ruido na noite da carne

sou a ilha que avança sustentada pela morte
ou uma cidade ferozmente cercada pela vida

ou talvez não sou nada
somente a insônia e a indiferença brilhante dos astros

deserto destino
inexorável o sol dos vivos se levanta
reconheço essa porta
não há outra

gelo primaveral
e um espinho de sangue
no olho da rosa.

 

_
▪ Blanca Varela
( Peru 🇵🇪 )
Mudado para português do brasil por _ Tiago Fabris Rendelli

CONTA-ME OUTRA VEZ

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.

 

_
▪ Amalia Bautista
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português do brasil por Nelson Santander

CAFÉ NA PRAIA

O café está aberto anda,
os mortos estão lá sentados
em cadeiras acorrentadas, bebendo vinho
À nossa custa. Há algumas casas –
Retiradas do mar – a ver.
Um pedinte recolhe moedas e
atira -as aos mortos como um sacrifício.
Do bar, estendendo-se até ao mar,
há uma estreita faixa de luz
pela qual os mortos se afastam,
sobre a água. Permanecemos, ali sentados,
até o dia esfregar os olhos.

 

 

_
▪ Michael Krüger
( Alemanha 🇩🇪 )
in “ Deus escreveu demasiado”, edição do lado esquerdo,2022
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

Sempre que olho para o oceano, sempre quero falar com as pessoas,
mas quando estou a falar com as pessoas, sempre quero olhar para o oceano.

 

_
▪ Haruki Murakami
(Japão 🇯🇵 )

 

Levo comigo uma bagagem silenciosa.
Fechei-me tão profundamente e por tanto tempo no silêncio
que nunca consigo abrir-me através das palavras.
Apenas me fecho de outras formas quando falo.

 

_
▪ Herta Muller
(Alemanha 🇩🇪 )