*
Quando pinto, nunca contemplo os modelos existentes: dirijo o meu olhar para dentro, para onde os olhos interiores buscam a beleza.
I.
As forças da linguagem são as damas solitárias, desoladas, que cantam através de minha voz que escuto à distância. E longe, na negra areia, jaz uma criança densa de música ancestral. Onde a verdadeira morte? Quis iluminar-me à luz de minha falta de luz. Os ramos morrem na memória. A jacente aninha em mim com sua máscara de loba. A que não pode mais e implorou chamas e ardemos.
II.
Quando voa o telhado da casa da linguagem e as palavras não a protegem, eu falo.
As damas de vermelho se extraviaram dentro de suas máscaras embora regressem para soluçar entre flores.
Não é muda a morte. Escuto o canto dos enlutados selar as rachaduras do silêncio. Escuto teu dulcíssimo pranto florescer meu silêncio triste.
III.
A morte restituiu ao silêncio seu prestígio enfeitiçante. E eu não direi meu poema e eu hei de dizê-lo. Mesmo que o poema (aqui, agora) não tenha sentido, não tenha destino.
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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
Um dia um rapaz judeu que se tinha sentado ao meu
lado
surpreendeu-me com a pergunta: em que língua é
que estás a falar?
“Em árabe”.
“Com quem?”
“Com os peixes.”
“Os peixes percebem árabe?”
“Os peixes velhos sim.”
“E os peixes velhos também percebem hebraico?”
“Eles percebem hebraico, árabe e todas as línguas.
Os mares são vastos e fluem juntos. Não têm fronteiras,
e há espaço para todos os peixes.”
Dei-lhe um peixe pequeno. O rapaz falou para o
peixe, mas ele não respondeu. Ainda era muito novo.
Atirou-o de volta ao mar para que pudesse crescer e
aprender a falar.
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▪Emile Habibi
(Palestina-Israel 🇯🇴)
in “Antologia de Poesia Árabe”, Editora Contracapa
Versões de Marta Vidal e André Simões
Lá fora, à porta,
escondido pelas sombras,
está um terrorista.
A descrição está incorrecta?
Lá fora, àquela porta,
abrigando-se nas sombras,
está um combatente pela liberdade.
Não me exprimi bem.
Lá fora, à espera na sombra,
está um militante hostil.
As palavras não são mais
do que bandeiras que se agitam, titubeantes?
À sua porta,
vigilante na sombra,
está um guerrilheiro.
Deus me ajude.
Lá fora, desafiando todas as sombras,
está um mártir.
Vi o seu rosto.
Nenhumas palavras me podem ajudar agora.
Mesmo à porta,
perdido nas sombras,
está uma criança como as minhas.
Uma palavra para si.
À minha porta,
a mão bem firme,
os olhos muito duros,
está um jovem parecido com o seu filho, também.
Abro a porta.
Entra, digo-lhe.
Anda comer connosco.
O miúdo entra
e cuidadosamente, à porta,
tira os sapatos.
_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006
*
Mudado para português por — Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático
Nota: Poema que integrou a “Revista LÓGOS – Biblioteca do tempo”.
THE RIGHT WORD
Outside the door,
lurking in the shadows,
is a terrorist.
Is that the wrong description?
Outside that door,
taking shelter in the shadows,
is a freedom fighter.
I haven’t got this right .
Outside, waiting in the shadows,
is a hostile militant.
Are words no more
than waving, wavering flags?
Outside your door,
watchful in the shadows,
is a guerrilla warrior.
God help me.
Outside, defying every shadow,
stands a martyr.
I saw his face.
No words can help me now.
Just outside the door,
lost in shadows,
is a child who looks like mine.
One word for you.
Outside my door,
his hand too steady,
his eyes too hard
is a boy who looks like your son, too.
I open the door.
Come in, I say.
Come in and eat with us.
The child steps in
and carefully, at my door,
takes off his shoes.
_
▪ Imtiaz Dharker
( Uk 🇬🇧 )
From “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006
Vocês devem achar que o quarto estava vazio.
Pois havia ali três cadeiras de encosto firme.
Uma boa lâmpada contra a escuridão.
Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais.
Um Buda alegre, um Jesus aflito.
Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho.
Você acha que nele não estavam nossos endereços?
Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras.
Saskia com uma flor cordial.
Alegria, centelha divina.
Na estante Ulisses num sono reparador
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes inscritos em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Ao lado, também os políticos perfilados.
Não parecia que o quarto fosse
sem saída, pelo menos pela porta
nem sem vista, pelo menos pela janela.
Os óculos para longe largados no parapeito.
Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva.
Devem achar que ao menos a carta explicasse algo.
E se eu lhes disser que não havia carta –
éramos tantos os amigos e coubemos todos
no envelope vazio apoiado no lado do corpo.
_
▪ Wisława Szymborska
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para português do brasil por Regina Przybycien
Estou aqui,
agitando os baldes que a chuva
encheu durante a madrugada
para evitar que o silêncio faça mais vítimas.
Fui colocar essa peruca de pardais e vim
a voar até aqui acima,
e agora não sei como inventar as escadas para descer.
Dizes que é apenas uma questão de tempo,
que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
o pé no vazio.
Já nem reparas,
mas estou aqui como um animal pré-histórico
a ficar enternecido com a bailarina
da tua caixa musical.
Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
o fim da era glaciar.
Passo a mão pelos cabelos molhados,
chove,
outra vez.
Há ecos de corpos rasgados
na gargalhada dos palhaços
e as hienas começam a ficar impacientes:
é tarde mas sobretudo urgente.
Deixa-me pôr esse vestido
com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
É a minha vez.
Sei o papel de cor.
Mas não chego para uma história.
–
▪ Golghona Angel
( Portugal 🇵🇹 )
the first wind
of autumn and
still no moon
to carry me
into winter
primeiro vento
de outono
e lua nenhuma
para me levar
até ao inverno
*
there you are
midway through a
dream, telling
me the moon is
made of paper
ali estás
a meio de um
sonho, dizendo-me
que a lua é
feita de papel
*
they play cards
on the floor of the
wet market,
sandwiched between
the cries of fish
jogam às cartas
no chão molhado
do mercado,
entre os gritos
dos peixes
*
twilight. . .
passersby paint
the walls of
the cemetery
with shadows
crepúsculo…
transeuntes pintam
com sombras
as paredes
do cemitério
*
she acts
as if darkness
was more than
a lover walking
on telephone lines
ela age
como se a escuridão
fosse mais do que
um amante a caminhar
por linhas telefónicas
*
the look she
gave me when i
handed her
a bag of peanuts
nailed to the sky
o olhar que ela
me deitou quando
lhe entreguei
um saco de amendoins
pregado ao céu
*
almost 60,
this gnarled tree reminds
me of an old
man riding a bicycle
in his underwear
quase 60,
esta árvore retorcida
lembra-me um velho
em roupa interior
a andar de bicicleta
*
this breeze
and the song sung
on limbs
by small leaves
pretending to be birds
esta brisa
e a canção cantada
nos ramos
por folhas novas
fingindo serem pássaros
*
a shooting
star races past
me on its
way to another
man’s pocket
uma estrela
cadente passa
por mim depressa
a caminho do bolso
de outro homem.
*
what is winter
to patients waiting
in line to
use the hospital
ward’s one toilet?
o que é o inverno
para os doentes na fila
à espera de usar
a única casa de banho
da enfermaria?
_
▪ Robert D Wilson
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)
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