É possível que este cão preso ladre
às estrelas que o aturdem como se fossem sinais
e que esteja a uivar a quem o deixou de vigia
a ninguém, numa casa abandonada.
Os vizinhos queixam-se porque não conseguem dormir,
ouvir telefonia ou lavar os automóveis.
Enquanto isso eu imagino que ele tem caninos azuis
como o amor ou a morte, e imagino-o altivo
como alguns homens, como tantos cães.
Porque o seu ruido tem algo de delicada insensatez
e de agonia, e esse som acompanha-me e persegue-me.
Porque o seu latido impõe-se sobre as vozes
desafinadas e rançosas das pessoas
misturadas como no fundo de uma panela.
E porque é possível que eu esteja preso também,
mas sem convicção para ladrar e uivar
agora que sinto finalmente que me deixaram sozinho
vigiando uma luz quase desabitada.
_
▪ Néstor Mux
( Argentina 🇦🇷 )
in “De Perros atados/ Delicada insensatez”
Mudado para português por – Pedro Mexia (Poeta, cronista e crítico literário português)
Poema de Leopoldo María Panero | Voz de Silvana Ortega
Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.
Te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra.
Te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde.
Te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra.
Te mataré mañana cuando la luna salga,
y al salir de aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación.
Te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida.
Te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas.
Te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.
Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pensa dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Depois, recorte cuidadosamente todas as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Seguidamente, tire os recortes um por um.
Copie conscienciosamente pela ordem em que saem do saco.
O poema será parecido consigo.
E pronto: será um escritor infinitamente original e de uma adorável sensibilidade, embora incompreendido pelo vulgo.
Os enfermos não têm encontros marcados
Nem jantam à luz das velas
Em mesas de toalhas de linho e pratos de porcelana
Nem bebem vinho de reserva
Em copos de cristal de pé alto
Nem são convidados para festins
Cheios de homens sábios que falam sobre Eros
Exuberantes e orgiásticos
Com Platão, Sócrates e Diotima sentados à cabeceira
Ficam calados
As mãos quietas sobre os joelhos
E histórias que deixaram esquecidas na mesinha junto à cama
Das que contaram nas horas de tédio
E que despejaram dentro de um jarro
De água
E que bebem de vez em quando
Para matar uma sede desconhecida
De vida e de beleza
De delírio
São como um enorme simpósio de silêncio
Uma voz oracular
Sem reflexões filosóficas.
–
▪ Ana Paula jardim
( Portugal 🇵🇹 ) in “Enfermaria”, Guerra e Paz Editores, 2022
Quien con ellas se cruza nunca aclara
a cuál mirar. Si habla hacia la una,
piensa en la otra, pero no distingue
la que devuelve su saludo. Vistan
distinto o igual, tampoco importa mucho.
Solo se diferencian por sus hábitos.
Una sostiene el libro, otra pasa
la página. Una, el cazo; otra,
el cucharón. Una sujeta el peine,
otra estira los rizos. Y mientras una escribe,
la de enfrente dormita. Soñadora,
la que prefiere ir oculta en el bolsillo.
Dos hermanas que solo rezan juntas.
_
▪ José Ángel Cilleruelo
( España 🇪🇦 ) Publicado con autorización previa del autor
Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.
Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.
Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.
–
▪ Rosa Lobato de Faria
( Portugal 🇵🇹 ) in ‘A Noite Inteira Já Não Chega’ | (Poesia – 1983-2010)
Aprendi que ninguém precisa saber que estamos tristes ou como anda a nossa vida. Aprendi que, qualquer que seja o problema que tenhamos, ele pertence só a nós.
Aprendi a guardar as dores e os momentos difíceis só pra mim. Aprendi também que os melhores textos saem sempre das mãos de quem sabe isolar-se e tem como companhia apenas o silêncio.
Aprendi igualmente que ninguém se importa como estamos, nem como foi o nosso dia. Aprendi que poucos dão valor ao que fazemos por eles, e poucos sabem valorizar a nossa companhia.
Aprendi a não me importar com a forma como agem comigo e a não guardar mágoas no coração. E, por isso, sou diferente de muitos. Aprendi a não me importar com os pensamentos de fulano ou sicrano, que não conheço, nem sabem quem sou.
E, hoje, só me importo com o bem-estar que posso proporcionar aos que amo e a viver com a felicidade no meu sorriso.
Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
_
▪ José Miguel Silva
( Portugal 🇵🇹 ) in “Vista para um pátio seguido de Desordem”
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