VERTIGEM

Nem sempre sou brava ou forte
Há dias que entra água na primeira palavra
confundo o Sul com o Norte
perco-me no rés do chão

Há dias em que o mundo é um caminho
é um camião que me passa
atravessado na garganta
Há dias em que tudo o que preciso é uma manta

Nem sempre sou brava
nos mais altos dos céus as palavras parecem ocas
e algo se torna mais real
salto com um amargo na boca
numa paisagem feita de sal

Nem sempre sou forte
os sonhos nascem rareados
com pouco pelo, desfiados
nos novelos dos dias nublados

nos hálitos das segundas terças feias
que embaraçam as teias
e me tornam menos humana

Há dias que me levam
arrastada pela semana
em que a dor desce dum salto
no elevador estragado
num passo mal dado
a descer um degrau
a baixar a temperatura

Olha o degrau
Olha o degrau

Esfolo o joelho a caminhar
com a sede de suar

Há dias que me passa o barco
e a vontade de remar

Nem sempre sou brava
a água entra na primeira
e na última palavra
e nem sempre sou forte
confundo o Sul com o Norte
perco-me no rés do chão

Há dias assim
em que as rimas me saltam da mão
e todas as sílabas sabem a tónicas
desequilibradas no receio
de nunca mais conseguir beber um poema inteiro

 

_

▪ Alice Neto de Sousa
( Portugal 🇵🇹 )

 

SILÊNCIO

Quando os dias compridos chegam ao fim, é preciso um tempo para estar em silêncio. Como quando estou em frente da lareira e , inconscientemente, estendo as mãos tensas para o silêncio, com os dedos abertos para o seu calor fugidio.

▪ Han Kang
( Coreia do Sul 🇰🇷)
in “O livro branco”( pag. 143)
Publicações D. Quixote, 2018

 

Cubos de açúcar

Ela devia ter na altura uns dez anos. Acompanhada por uma irmã, ia a um café pela primeira vez, e foi também a primeira ocasião em que viu cubos de açúcar. Aqueles cubinhos embrulhados em papel branco eram de uma perfeição infalível, decididamente demasiado primorosos para ela. Tirou o papel com todo o cuidado e passou o dedo sobre a superfície granulosa.
Desfez um canto, tocou-lhe com a língua, mordiscou aquela doçura estonteante e, por fim, meteu-o num copo de água e suspirou enquanto o via derreter-se.
Hoje já não é grande apreciadora de coisas doces, mas ver um prato com cubos de açúcar embrulhados ainda evoca nela a sensação de estar a presenciar algo sumptuoso. Há certas memórias que se mantêm imunes à erosão do tempo. E do sofrimento. Por isso, não é afinal verdadeiro que tudo seja deturpado pelo tempo e pelo sofrimento. Nem é verdade que tudo se perca ou seja destruído.

__

▪ Han Kang
( Coreia do Sul 🇰🇷)

in “O livro branco”(pag. 87)
Publicações D. Quixote, 2018

MÃE

Mãe,
acho que vou fazer uma visita ao Inferno.
Não importa que seja muito longe.
Partirei de manhã como se estivesse a sair para o trabalho,
voltarei à noite como se tivesse saído do trabalho.
Não te esqueças das refeições, mastiga bem os alimentos antes de engolir,
certifica-te que desligas o gás quando saíres
e não te preocupes comigo.
O inferno deve ser um lugar onde vivem pessoas.
Se eu for para o Inferno para ganhar a vida
poderei finalmente tornar-me uma pessoa.

 

_
▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para Português por Jorge Sousa Braga

O RETRATO

A minha mãe nunca perdoou o meu pai
por se ter matado,
e logo num momento tão estranho
e num parque público,
naquela primavera
em que eu estava à espera de nascer.
Ela trancou o nome dele
no seu armário mais profundo
e não o deixaria sair,
embora eu o pudesse ouvir a bater.
Quando desci do sótão
com o retrato a pastel na minha mão
de um estranho de grandes lábios
com um bigode corajoso
e olhos castanhos profundos,
ela rasgou-o em pedaços
sem uma única palavra
e deu-me uma grande bofetada.
Mesmo agora com sessenta e quatro anos
consigo sentir a minha bochecha
ainda a arder.

 

_
▪ Stanley Kunitz
(E.U.A. 🇺🇸)
Mudado para português por_ Jorge Sousa Braga

BALADA DA BÓSNIA

Enquanto te serves de um uísque,
esmagas uma barata, olhas para o relógio,
enquanto compões a gravata,
há pessoas a morrer.

Em cidades com nomes curiosos,
atingidas por balas, apanhadas pelas chamas,
em regra sem saberem porquê,
as pessoas morrem.

Em pequenas localidades desconhecidas,
porém vastas, que não deixam hipótese
de gritar ou dizer adeus,
há pessoas a morrer.

As pessoas morrem enquanto eleges
novos apóstolos da incúria,
do autodomínio, etc. — pelos quais
as pessoas morrem.

Demasiado longe para o amor
pelo vizinho/irmão eslavo,
onde os querubins temem voar,
há pessoas a morrer.

Enquanto observas a pontuação dos atletas,
verificas o último extrato, ou
cantas uma canção de embalar ao teu filho,
há pessoas a morrer.

O tempo, cuja cortante sede de sangue separa
os mortos daqueles que matam,
anunciará a tribo derradeira
como o teu grupo sanguíneo.

__

▪ Joseph Brodsky
(E.U.A. 🇺🇸)
Mudado para português por_ Lauro Machado Coelho

TERAPIA

Leio Santa Teresa
e rezo na hora de pôr a mesa.
Li Miguel de Cervantes
e continuo como antes.
Leio Jorge Manrique
e faço dísticos com minha psique.
Li São João da Cruz
e o caixão é lindo.
Li Nietzshe e li Kafka
e minha razão se rompe.

Léo e Léo e Leão Felipe!!!
Ser poeta é uma delícia.
Leio ensaios, leio romances,
fico acordado a noite toda.
Leio poesia, teatro,
minha alma cresce com o tempo.

Ler é uma terapia,
quem não lê fica cego
e surdo como uma parede.

_
▪ Belén Reyes
( Espanha 🇪🇸 )