“Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível.”
La tentation la plus forte de l’homme est celle de l’inertie
“Oui, c`est la vérité que nous vivons sans avenir et que le monde d’aujourd`hui ne nous promet plus que la mort ou le silence, la guerre ou la terreur. Mais c’est la vérité aussi que nous ne pouvons pas le supporter parce que nous savons que l’homme est une longue création et que tout ce qui vaut la peine de vivre, amour, intelligence, beauté, demande le temps et la maturité. Et si nous ne pouvons pas le supporter, nous devons le dénoncer.”
Et la première chose justement est de pousser ce cri de révolte.
Car la terreur et la fatalité sont faites pour moitié au moins de l’inertie et de la fatigue des individus en face des principes stupides ou des actions mauvaises dont on continue d`empoisonner le monde.
La tentation la plus forte de l’homme est celle de l’inertie.
Et parce que le monde n’est plus peuplé par le cri des victimes, beaucoup peuvent penser qu’il continuera d’aller son train pendant quelques générations encore.
Il ira son train, en effet, mais parmi les prisons et les chaînes.
Parce qu’il est plus facile de faire son travail quotidien et d’attendre dans une paix aveugle que la mort vienne un jour, les gens croient qu’ils ont assez fait pour le bien de l’homme en ne tuant personne directement. Mais, en vérité, aucun homme ne peut mourir en paix s’il n’a pas fait tout ce qu’il faut pour que les autres vivent et s’il n’a pas cherché ou dit quel est le chemin d’une mort pacifiée. Et d’autres encore, qui n’ont pas envie de penser trop longtemps à la misère humaine, préfèrent en parler d’une façon très générale et dire que cette crise de l’homme est de tous les temps. Mais ce n`est pas une sagesse qui vaut pour le prisonnier ou le condamné. Et, en vérité, nous continuons d`être dans la prison, attendant les mots de l’espoir.
Les mots d’espoir sont le courage, la parole claire et l’amitié. Qu’un seul homme puisse envisager aujourd’hui une nouvelle guerre sans le tremblement de l’indignation et la guerre devient possible. Qu’un seul homme puisse justifier les principes qui conduisent à la guerre et à la terreur et il y aura guerre et terreur. Il faut donc bien que nous disions clairement que nous vivons dans la terreur parce que nous vivons selon la puissance et que nous ne sortirons de la terreur que lorsque nous aurons remplacé les valeurs de puissance par les valeurs d`exemple. Il y a terreur parce que les gens croient ou bien que rien n’a de sens ou bien que seule la réussite historique en a. Il y a terreur parce que les valeurs humaines ont été remplacées par les valeurs du mépris et de l’efficacité, la volonté de liberté par la volonté de domination. On n`a plus raison parce qu’on a la justice et la générosité avec soi. On a raison parce qu’on réussit. Et plus on réussit, plus on a raison. A la limite, c`est la justification du meurtre.
Tout le monde aujourd’hui veut réussir, par l’argent ou par le jeu. Tout le monde veut triompher. Les nations ne souhaitent pas le succès parce qu’elles ont raison mais elles le veulent pour avoir enfin raison. Aucune d’elles ne veut plus écouter l’autre. Il n’y a plus de dialogues possibles dans un univers où tout le monde est sourd. Demain, ce sera le monologue du vainqueur et le silence de l’esclave. C`est pourquoi les hommes ont raison d’avoir peur, parce que dans un pareil monde c’est toujours par hasard ou par une arbitraire bienveillance que leur vie ou celle de leurs enfants sont épargnées. Et ils ont raison aussi d`avoir honte parce que ceux qui vivent dans un pareil monde sans le condamner de toutes leurs forces (c’est-à-dire presque tous) sont à leur manière aussi meurtriers que les autres.
Il n’y a qu’un seul problème aujourd’hui qui est celui du meurtre, toutes nos disputes sont vaines. Une seule chose importe qui est la paix. Les maîtres du monde sont aujourd’hui incapables de l’assurer parce que leurs principes sont faux et meurtriers. Que du moins, et dans tous les pays, ceux qui refusent le meurtre se réveillent, dénoncent les faux principes et entament pour leur propre compte la réflexion, le dialogue, le démarche exemplaire qui démontreront au moins que l’histoire est faite pour l’homme et non pas le contraire. Ceux qui ne veulent pas tuer doivent parler, et ne dire qu’une seule chose, mais la dire sans répit, comme un témoin, comme mille témoins qui n’auront de cesse que lorsque le meurtre, à la face du monde sera répudié définitivement.”
Albert Camus
in “Franchise No 3, novembre – décembre 1946”
Essas coisas sempre acontecem de repente
Nada acontece. Ela está
num comboio expresso com destino
a Barcelona, e eu estou aqui,
na minha mesa de trabalho, a escrever
estes versos.
Ela partiu apenas há duas horas. Amanhã
falaremos por telefone.
Na TV, o seu sorriso esplêndido.
Nada acontece, como eu disse.
E de repente não sei o que fazer
com tanta solidão.
_
▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )
–
“A solidão é, assim, a configuração extremada da ausência do Outro. O Outro que se torna presente pela própria ausência configura em meu ser a sua necessidade. O desespero do homem contemporâneo apresenta várias facetas de sofrimento, mas seguramente a ausência do Outro é um dos maiores espectros dessa realidade.”
Valdemar Augusto Angerami
in solidao-a-ausencia-do-outro_compress
CORAÇÃO SEM IMAGENS
Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
–
▪Raul de Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )
CARTA DA INFÂNCIA
Amigo Luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
…………minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
…………nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
………….cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
………….da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
–
▪Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético”, 1998
IMAGENS
Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais
e que se chove corra a apanhar
-te,
não te vás desbotar ou romper,
ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.
–
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Coisas de partir”
A QUEM DEIXAREI O MEU CANSAÇO
A quem deixarei o meu cansaço,
as unhas sujas, as marcas
do martelo falhado, a quem
senão a quem…?
– Serão de quem viver depois do dia de hoje
o dia de hoje que eu vivi doado
e a obra pequenina que fabrico
no silêncio que a rua me permite.
–
▪ Pedro Tamen
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Livro do Sapateiro”
Os namorados pobres
O namorado dá
flores murchas
à namorada
e a namorada come as flores
porque tem fome
Não trocam cartas
nem retratos nem anéis
porque são pobres
Mas um dia
têm muito medo
de se esquecerem
um do outro
então apanham
um cordel
do chão
cortam o cordel
com os dentes
e trocam alianças
feitas de cordel
Não podem
combinar encontros
porque não têm
número de telefone
nem morada
assim encontram-se
por acaso
e têm medo
de não se voltarem
a encontrar
O acaso
não os favorece
Decidem nunca sair
do mesmo sítio
e ficarem sempre juntos
para não se perderem
um do outro
Procuram um sítio
mas todos os sítios
têm dono
ou mudam de nome
Então retiram
dos dedos
os anéis de cordel
atam um anel
ao outro
e enforcam-se
Mas a namorada
tem de esperar
pelo namorado
porque o cordel
só dá par um
de cada vez
O namorado
descansa à sombra
da figueira
e a namorada
baloiça
na figueira
O dono da figueira
zanga-se
com os namorados pobres
porque julga
que estão a roubar figos
e a andar de baloiço
__
▪ Adília Lopes
(Lisboa, n. 1960)
in “Dobra” Poesia Reunida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009
OS GRANDES DIAS DO POETA
Os discípulos da luz apenas inventaram trevas pouco opacas.
O rio empurra um pequeno corpo de mulher e isso significa que
o fim está próximo.
A viúva em trajo de núpcias engana-se de escolta.
chegaremos todos atrasados ao nosso túmulo.
Um navio de carne atola-se numa pequena praia. O timoneiro
convida os passageiros a calarem-se.
As vagas esperam impacientemente. Mais perto de Ti ó meu Deus!
O timoneiro convida as ondas a falar. E elas falam.
A noite sela as suas garrafas com estrelas e faz fortuna na
exportação.
Constroem-se grandes feitorias para vender rouxinóis.
Mas não podem satisfazer os desejos da Rainha da
Sibéria que quer um rouxinol branco.
Um comodoro inglês jura que nunca mais será apanhado a colher salva
durante a noite, entre os pés das estátuas de sal.
A propósito, um pequeno saleiro levanta-se a custo em equilíbrio sobre as suas finas pernas. No meu prato ele verte aquilo que me resta viver.
Quanto basta para salgar o Oceano Pacífico.
Colocai no meu jazigo uma bóia de salvação.
Porque nunca se sabe.
–
▪ Robert Desnos
( França 🇨🇵 )
in “Sonhador definitivo e perpétua insónia”, Editora Contracapa, 2021
Mudado para português por _ Regina Guimarães
Deverá estar ligado para publicar um comentário.