A MORTE NÃO TERÁ NENHUM DOMÍNIO

E a morte não terá nenhum domínio.
Nus, os mortos serão um só
Como o homem ao vento e a lua do poente;
Quando descarnados os ossos limpos se forem,
Pés e cotovelos serão visitados pelas estrelas;
Embora enlouqueçam, serão lúcidos,
Embora no mar se afundem, ressurgirão;
Embora se percam os amantes, não se perderá o amor:
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Sob as tortuosidades do mar,
Os que aí jazem não morrerão tortuosos;
Retorcidos em suplícios ao rasgar dos nervos,
Amarrados a uma roda, nem assim rebentarão;
Nas suas mãos a fé fender-se-á sem apelo
E os males do unicórnio serão o seu atropelo;
Cindidos de uma ponta à outra não irão quebrar;
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
Nem o clamor das vagas voltará a eclodir nas praias;
Onde uma flor de aurora desabrochou não mais
Erguerá a corola aos golpes de chuva;
Embora estejam loucas e mortas como pregos,
Cabeças rasgam caminho através das margaridas,
Irrompem ao sol até o sol ser derrotado,
E a morte não terá nenhum domínio.

 

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▪ Dylan Thomas
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Frederico Pedreira

O amor já não é o que era

O amor já não é o que era
concluiu apressadamente o senhor Couto
vindo à tona do sonho de que o poema é feito.
O amor já não é o que era
repete-me a árvore roçagando
horas e horas, entre as folhas perdendo
um qualquer coisa que se juntasse a ela
e a ela acrescentasse uma qualquer lembrança
do que fosse o amor quando era o que era.

Sabe o senhor Couto que não ser o que foi
é tão fatal com ele como com o sentimento
de que avança a falar como se o sentisse?

 

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▪ Pedro Tamen
( Portugal 🇵🇹 )
in “Memória Indescritível”, Editora Gótica, Lisboa, 2000

A CASA ESTAVA SILENCIOSA E O MUNDO ESTAVA CALMO

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

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▪ Wallace Stevens
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por David Mourão-Ferreira

ARTE POÉTICA

Entre tantos ofícios, exerço este que não é meu,
como um amo implacável
me obriga a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
debaixo de chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a doença submerge as mãos

A este ofício me obrigam as dores alheias,
as lágrimas, os lenços acenantes,
as promessas no meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos do adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.

Nunca fui o dono das minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros os escrevem como disparar contra a morte.

 

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▪ Juan Gelman
( Argentina 🇦🇷 )

Memória de Antonin Artaud

Não me reconheço entre os homens
porque são eles os demolidores do meu pensamento

Não participo desta razão comum de existir
porque luto dia a dia com sons e signos ocultos
para a invenção doutra linguagem
que não descobrirei
— sei-o perfeitamente —
mas a necessidade de estar só
dentro de um universo opiado e infinito
obriga-me a estender os cabelos no exílio

 

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▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )_
in “Pássaro-Lyra”, Averno, Lisboa, 2015

Nesta última tarde em que respiro

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

 

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▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

 

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▪ Manuel António Pina
( Portugal 🇵🇹 )