A HIENA

A hiena ama os tanques de guerra
que ficam em pé nos desertos
porque a tripulação morreu.
Ela sabe esperar.
Ela espera até que mil e uma
tempestades de areia corroam o aço.
Então chega a sua hora.
A hiena é o animal heráldico da Matemática,
ela sabe que não pode ficar nenhum resto,
o seu deus é  o zero.

 

_
▪ Heiner Müller
(Alemanha 🇩🇪 )
Mudado para português por Luis Costa

LAMENTO

Pátria sem rumo,minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta,adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia…
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!…
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente…

 

_

▪Miguel Torga
( Portugal 🇵🇹 )
in Diário XII, 136.

LAMENTAÇÕES AOS MORTOS DA GUERRA

Dia de recordação dos mortos na guerra: junta
o luto de todas as tuas ao luto da perda deles,
inclusive a perda da amada que te deixou; mistura
sofrimento com sofrimento, conforme faz à memória parcimoniosa,
ao contrair festa, sacrifício e dor, tudo num dia só,
data festiva e de fácil lembrança.
Doce mundo, embebido feito pão
em leito doce para o Deus terrível e sem dentes
“Por trás disso tudo, uma grande felicidade oculta”.
De nada te serve chorar por dentro e gritar por fora.
Por trás disso tudo, uma grande felicidade se oculta, talvez.
Dia de recordação dos mortos. Sal amargo vestido de
menina pequena com flores.
Cordas disposta ao longo do caminho
de um desfile conjunto: vivos e mortos.
Crianças com passos de luto alheio,
como se andassem sobre cacos de vidro.
A boca da flautista permanecerá assim por muitos dias.
Um soldado morto nada por entre pequenas cabeças,
com braçadas de morto, no antigo equívoco que possuem os mortos
sobre o lugar da água viva.
Uma bandeira perde o contato com realidade e voa.
uma vitrine enfeitada com vestidos bonitos de mulher,
em azul e branco. E tudo em
três línguas: hebraico, árabe e morte.
Um animal grande e majestoso agoniza durante a noite,
sob o jasmim, olhando o mundo incessantemente.
Um homem anda na rua — seu filho morreu na guerra —
como uma mulher carregando um feto morto no ventre.
“Por trás disso tudo, uma grande felicidade se oculta.”

 

_
▪ Yehuda Amichai
( Israel  🇮🇱 )
Tradução de Berta Waldman, Roney Cytrynpwicz e Tal Goldfajn.

MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta
[ culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice,
[ e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.
Já disse isso.

 
_

▪ Raymond Carver
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português(brasil) por Cide Piquet

DEMOCRACIA

Outra maldita tarde
de domingo, uma dessas
tardes que um dia escolherei
para me pendurar
do último prego flamejante
da minha angústia.
Pela rua
famílias com crianças,
pais e mães
de faces rosadas, satisfeitos
pelo recém-cumprido
dever eleitoral;
gente debruçada sobre rádios
que vomitam números, percentagens
em bases de dados.
Cordeiros a caminho do matadouro
dando a escolher a arma
ao magarefe.

–
▪ Roger Wolfe
( Inglaterra 🇬🇧 )
in “Fazer o trabalho sujo”, Língua morta, 2020
Mudado para português por Luís Pedroso

NAQUELA MANHÃ / THAT MORNING

 

NAQUELA MANHÃ

Ao funeral de meu pai não assistiu ninguém
não chegou uma coroa de flores
nem padre
nem irmãos

nem as nuvens quiseram saber
da piscina dos meus olhos

foi terrível chorar com o corpo acima da terra
compor a dor
antes da primavera

passava um comboio
os carris tinham o nome dos anjos
exalavam um perfume a óleo
levavam o meu choro banhado a ouro

 

( Maria Azenha )

 

THAT MORNING

No-one came to my father’s funeral
no wreath of flowers appeared
no priest
no brothers

not even the clouds wanted to know
about the lake in my eyes

terrible, to weep over the body not buried
to gather up the pain
before spring

a train went past
the carriages bore the name of angels
they exhaled their diesel-fragrance
they took my weeping and bathed it in gold

(translated by Lesley Saunders)

O CÃO E O MÉDICO

Um Cão que viu um médico assistir ao enterro de um paciente rico, perguntou-lhe:
“Quando espera desenterrá-lo?”
“ Porque faria eu isso?” questionou o médico.
“ Quando enterro um osso” , disse o Cão, faço-o com a intenção de o desenterrar mais tarde para roê-lo.
“ Os ossos que enterro” , salientou o médico, “são aqueles que não posso mais roer”.

 

_

▪ Ambrose Gwinett Bierce
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “ Fábulas Fantásticas”