2 POEMAS DE ALBA FLORES ROBLA


Onde vives, qual o número do teu telemóvel

onde vives, qual o número do teu telemóvel
qual é o teu prato favorito
lês ou preferes jogos de vídeo
o que gostarias que te oferecesse no aniversário
onde costumas passar as férias na praia ou na montanha
doce ou salgado
o que causa alergia
de que flores gostas
quantos beijos deste quantas bocas beijaste
alguma vez choraste a ver um filme
de que tens medo
escolhe sol ou lua rio ou piscina cabelo curto ou comprido
dormes mal de noite
preferes o verão
que fazes quando não tens nada que fazer
o que achas
maquilhas-te saltos altos ou sapatilhas
olhos claros olhos escuros
que amigos tinhas em miúda que querias ser quando
fosses grande
quais eram os teus sonhos
o que sabes sobre as estrelas podes encontrar o norte
seguindo-as
gostas de animais

alguma vez partiste uma costela
quem foi o teu primeiro amor onde foi o teu primeiro
amor
como queres que os teus filhos se chamem
queres ter filhos quantos
por que te puseram esse nome
que fizeste como começou quantos anos tinhas
achas que alguma vez chegarei a conhecer-te como se te
tivesse conhecido sempre

*

Coisas prestigiantes

Adoro que faças coisas prestigiantes,
que tenhas um mestrado e um doutoramento
numa coisa que eu não sei o que quer dizer,
que viajes pelo mundo inteiro fazendo conferências
de ponteiro laser na mão
e de gravata à volta do pescoço.
Que te aplaudam

e tires dúvidas com received pronunciation* e
sorriso perfeito,
que façam os teus pais parar na rua
e se possam comprar online os teus livros sobre
coisas prestigiantes
que eu não sei o que significam.

*Pronúncia considerada tradicionalmente como
norma para o inglês britânico (Wikipedia).

_
▪ Alba Flores Robla
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹

AMANHÃ, VOU SER OPERADA

A morte veio e ficou ao meu lado.
Eu disse: estou pronta.
Estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Amanhã
vou ser operada.
Há muita força em mim. Posso viver,
posso correr, dançar e cantar.
Tudo isso está em mim, mas se for necessário,
partirei.

Hoje
faço contas à minha vida.
Eu era uma pecadora,
batia com a cabeça contra a terra,
implorava à terra e ao céu
que me perdoassem.

Eu era bonita e feia,
sábia e estúpida,
muito feliz e muito infeliz,
frequentemente tinha asas
e flutuava no ar.

Percorri mil caminhos ao sol e na neve,
dancei com o meu amigo sob as estrelas.
Eu vi amor
em muitos olhos humanos.
Comi com prazer
a minha fatia de felicidade.

Agora estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Ela está comigo.
Amanhã
vão-me operar.
Pela janela as árvores de maio, lindas como a vida,
e em mim, humildade, medo e paz.

 

_
▪ Anna Swir
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para prtuguês por Jorge Sousa Braga

(O poema foi escrito enquanto estava no leito da morte.)

MORTO DAS NOVE ÀS CINCO NOS DIAS ÚTEIS

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e estender-me sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestado
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

 

–

▪ Rui Knopfli
( Portugal 🇵🇹 )

Antologias de Poesia 1951 a 1963 CEI Mocambique_UCCLA

TANTAS CIDADES A QUE DEVÍAMOS TER IDO

O nosso sonho é feito de cidades cultas,
com música e cafés familiares,
a majestade de um porto e estações
de ferro e de vidro com comboios brunidos pela noite
e pela chuva, a mesma chuva
que nos acompanha num pequeno hotel
ou nas janelas de um museu.
Há recantos ao abrigo de grandes árvores,
gente calada, educada e bem vestida
e as silenciosas livrarias
onde os olhos vagueiam enquanto cai a tarde.

Tantas cidades a que devíamos ter, ido, meu amor.
A lua emerge para lá daquelas pontes de ferro
dos anos que mudaram a nossa lei.
Desde então o tempo é uma chuva
que nos inunda como inunda os telhados.
Mas na luz do pátio vemos os templos
de mármore branco e dourado travertino.
Encontramos, nas ruas de pequenas aldeias,
faustosos estuques cor de terra
esgrafiados pelo vento. Esta casa
da varanda e do pátio tem uma luz
de conversas e conforto. De nós,
aquele que ficar terá por companhia
a memória do cipreste e das heras
até nos reencontrarmos nas cidades do sonho.

 

_

▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸)
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção, tradução e posfácio – Miguel Filipe Mochila 🇵🇹
 

NÃO JOGUES FORA AS CARTAS DE AMOR

Eles nunca te vão abandonar.
O tempo passará, o desejo se apagará
– esta flecha de sombra –
e os rostos sensuais, belos e inteligentes,
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.

Os anos passarão. Cansar-te-ão os livros.
Descerás mais ainda
e perderás mesmo a poesia.

O ruído da cidade nas janelas
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que guardaste
serão a tua última literatura.

–

NO TIRES LAS CARTAS DE AMOR

Ellas no te abandonarán.
El tiempo pasará, se borrará el deseo
– ésta flecha de sombra –
y los sensuales rostros, bellos e inteligentes,
se ocultarán en ti, al fondo de un espejo.

Caerán los años.
Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesía.

El ruido de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

 

_
▪ Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por M.A.

A Divisão de Cristo

Dividamos o mundo em duas partes iguais:
uma para portugueses, outra para espanhóis.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus:
a metade morreu na viagem do oceano.

Dividamos o mundo entre as pátrias.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras:
a metade morreu nos campos de batalha.

Dividamos o mundo entra as máquinas.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das fábricas:
a metade morreu na escuridão, sem ar.

Não dividamos o mundo.
Dividamos Cristo:
todos ressuscitarão iguais.

 
 

_

▪ Jorge de Lima
( Brasil 🇧🇷 )