TALVEZ O MUNDO ACABE AQUI

O mundo começa numa mesa de cozinha. Não importa o quê, temos de comer para viver.

As oferendas da terra depois de preparadas são postas sobre a mesa. Sempre foi assim desde a criação e continuará a ser.

Afastamos as galinhas e os cães. Os bebés rompem os dentes nas esquinas. E arranham os joelhos debaixo dela.

É aqui que as crianças recebem instruções sobre o que significa ser humano. É aqui que nos tornamos homens ou mulheres.

Nesta mesa, mexericamos, recordamos os inimigos e os fantasmas dos amantes.

Os nossos sonhos tomam café connosco, enquanto abraçam os nossos filhos. E riem dos nossos pobres egos em queda e de quando nos recompomos mais uma vez à mesa.

Esta mesa foi uma casa à chuva e um refúgio ao sol.

Guerras começaram e terminaram nesta mesa. É o lugar onde nos podemos esconder da sombra do terror. Um lugar para celebrar a terrível vitória.

Demos à luz nesta mesa e preparamos aqui os nossos pais antes de serem enterrados.

Nesta mesa, cantamos com alegria e com tristeza. Oramos por sofrimento e remorso. Agradecemos.

Talvez o mundo acabe na mesa da cozinha, enquanto rimos e choramos, comendo o último bocado doce.

 

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▪ Joy Harjo
(E.U.A. 🇺🇲)
in “The Woman Who Fell From the Sky”, W. W. Norton & Company, 1994

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Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹  Poeta, tradutor e médico

 



 

PERHAPS THE WORLD ENDS HERE

 

The world begins at a kitchen table. No matter what, we must eat to live.

The gifts of earth are brought and prepared, set on the table. So it has been since creation, and it will go on.

We chase chickens or dogs away from it. Babies teethe at the corners. They scrape their knees under it.

It is here that children are given instructions on what it means to be human. We make men at it, we make women.

At this table we gossip, recall enemies and the ghosts of lovers.

Our dreams drink coffee with us as they put their arms around our children. They laugh with us at our poor falling-down selves and as we put ourselves back together once again at the table.

This table has been a house in the rain, an umbrella in the sun.

Wars have begun and ended at this table. It is a place to hide in the shadow of terror. A place to celebrate the terrible victory.

We have given birth on this table, and have prepared our parents for burial here.

At this table we sing with joy, with sorrow. We pray of suffering and remorse. We give thanks.

Perhaps the world will end at the kitchen table, while we are laughing and crying, eating of the last sweet bite.

 

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▪ Joy Harjo
(U.S.A. 🇺🇲)
from “The Woman Who Fell From the Sky”, W. W. Norton & Company, 1994

 

AÑIL. DIARIO DE SENSACIONES

Teja

 

Del sombrero olvidado bocarriba en el banco del jardín la paloma que se ha acercado a picotear en el ala vuelta del revés ha extraído del hueco un varón vestido con frac y pajarita y una vara de mago, que nada más aparecer le ha preguntado la hora a un tilo cuya sombra había quedado atrapada en el columpio donde niñas y niños aprenden deprisa a ser temerarios. Al ver tan extraña figura en el parque infantil, lo han rodeado de inmediato y le han pedido a coro un mismo truco: que les regale piruletas y les apruebe los exámenes.

 

Lacre

Azul, ocre, duna, mar, en sí mismos, pronunciados al azar, no son nada. Sonidos y un brote de significado entre piedras, allá donde las raíces no encuentran dónde nutrirse. Té, galletas de avena, ventana, tarde, en sí mismos, no son más que ingredientes del día sin el día. Lo que proporciona hondura y sentido a azul y a mar, a ocre y a duna, es el idilio de memoria y metáfora. La unión de dos opuestos: la presencia y su desaparición. Lo que también convierte los hechos del día en símbolos. Densidad y sentido. Les proporciona la vida que pierden.

 
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▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in “Añil”, Editorial: Cypress Asociacion Cultural, Sevilla (España),2021
 

A FELICIDADE DO MEDO

 

Para a Ana

 

Às vezes entre a noite e a manhã
Vejo os cães rodearem-te
Cães com os dentes à mostra
E tu deitas as mãos às suas patas
E ris nos seus dentes
E eu acordo a transpirar de medo
E sei que te amo

 

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▪ Heiner Müller
(Alemanha 🇩🇪 )
in “Traumtext”, Editora Stroemfeld, 1996

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Mudado para português por _ Luís Costa 🇵🇹  Poeta e tradutor



 

DAS GLUCK DER ANGST

Für Anna

 

Manchmal zwischen Nacht und Morgen
Seh ich Hunde dich umkreisen
Hunde mit gebleckten Zähnen
Und du greifst nach ihren Pfoten
Und du lachst in ihre Zähne
Und ich wache auf mit Angstschweiß
Und ich weiß daß ich dich liebe

 

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▪ Heiner Müller
( Deutschland 🇩🇪 )
in “Traumtext”, Stroemfeld, 1996
 

PÁSSAROS E SACOS

Bandos de pardais entristecem-me
quando, rápidos, voam pelos campos
e gorjeiam, secos e ásperos,
pela sua pobreza bem arada.
Não deixem nunca de fazer-me companhia.
Quase nada nos acompanha até ao fim.
Também não me abandona o cheiro dos sacos
que me serviam de cama no fundo do carro
quando andava, em criança, nas vindimas.
Saía antes da alvorada. Os sobressaltos
das rodas e o ritmo forte, calmo,
dos cascos cravados adormeciam-me.
Os sacos ainda fazem a vez de mãe.
O seu cheiro regressa, denso e cálido,
enquanto vejo como brilha ao sol a relva
e os bandos de pardais, desesperados,
procuram um lugar onde poisar
e saciar uma fome pequena e dura.
Voam, voam comigo até ao fim.

 

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▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸 )
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015

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Mudado para português por _ Miguel Filipe Mochila 🇵🇹  Poeta, tradutor e professor

 

ICONOGRAFIAS

As barbas que recordo do passado
são as de Deus sentado
numa nuvem, em moldura dourada
e transversal.
Na moldura do lado, um coração
em lágrimas e espinhos.
E no canto mais curto e mais final,
a lição repetida.

Há um tempo de vida e
um tempo de morte, um
tempo de lavrar e um tempo
de colher.

Ah! que ao menos na nuvem,
no mesmo patamar:
a face da mulher!

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” [Poesia 1990-2010], Publicações D. Quixote, Lisboa, 2010

RECANTO 12

Vinha ___ do outro lado do tempo ___ do inverno seguinte
um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,
anfíbio
como alguém em trânsito para o seu mar
ao sair do emprego, e o instrumento
sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abençoe-te-
-etecetera-amen-
a buzinar-lhe aos ouvidos

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais
em potência de tortura passou imediatamente a ser
útil vertiginosamente indispensável
porque é uma rosa e só por isso
porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo
e na mesma roda de espaço que nós em tudo
e só por isso
quando a caixa toráxica passa a ser de metal
por assimilação
e de plástico por fora e roda no corpo
e só no sexo o circuito é uma onda fundente
liquidamente

lemos o capítulo do sangue
quando em transe se descarrega como a campainha
de que as palavras são o toque e os silêncios
o clarão da música.

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos
por outrem
de que as palavras se chamassem fala
e o terror ventriloquia.

 

_
▪ Luiza Neto Jorge
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia 1960-1989”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993

 

VIAGEM

A demolidora clarividência das minhas palavras é um punhal abrindo
a página até ao coração. O poema é múltiplo e atinge violentamente o nosso
rosto.
Certa palavra, inventada por Bleuler, é tão potente que torna estranho
quem a possui. Se considerarmos lógico possuir uma palavra, o poeta
tem um percurso a realizar. Embarca para uma viagem de que volta perigosamente
lúcido. Morte e renascimento fizeram dele um outro, capaz de
penetrar a textura do mundo.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Repetir o poema”, Edições Quasi, Vila nova de Famalicão, 2005

 

2.

É de noite que ele dança, fulgurante
e ébrio, como uma espada de sangue
no deserto. A cidade esvazia-se nas casas,
inventa uma árvore morta, um sonho circular
que se escoa num novelo, entre os dedos.
E quando a noite finda e os homens ressuscitam,
ele transporta uma tábua dentro do peito
como um vírus roendo o seu próprio ninho.

 

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▪ Jaime Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Extermínio”, Relógio D’ Água, Lisboa, 2003
 

POEMA DE AMOR

Há algo sempre a ser feito de dor.
A tua mãe faz malha.
Produz cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal e aqueciam-te
enquanto ela se fartava de casar, levando-te
consigo. Como podia resultar
quando, naqueles anos todos, ela arrecadou o seu
____________________________[coração viúvo
como se os mortos voltassem.
Não surpreende que sejas como és,
com medo do sangue, parecendo as tuas mulheres
uma parede de tijolos após outra.

 

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▪ Louise Glück
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Descending Figure”, Ecco Press, Nova Iorque York, 1980

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Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático


LOVE POEM

 

There is always something to be made of pain.
Your mother knits.
She turns out scarves in every shade of red.
They were for Christmas, and they kept you warm
while she married over and over, taking you
along. How could it work,
when all those years she stored her widowed heart
as though the dead come back.
No wonder you are the way you are,
afraid of blood, your women
like one brick wall after another.

 

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▪ Louise Glück
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Descending Figure”, Ecco Press, New York, 1980