Dentro de mil anos não restará nada

Dentro de mil anos não restará nada
do quanto se há escrito neste século.
Lerão frases soltas, rastros
de mulheres perdidas,
fragmentos de crianças imóveis,
teus olhos lentos e verdes
simplesmente não existirão.
Será como a Antologia Grega,
ainda mais distante,
como uma praia no inverno
para outro assombro e outra indiferença.

 

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▪ Roberto Bolaño
(Chile, n. 1953-2003)
in “La Universidad Desconocida”, Editorial Anagrama, Barcelona ESP
Tradução – Gustavo Petter (SP-BR)

NÚMEROS

Gosto da generosidade dos números.
Do modo como, por exemplo,
desejam contar
alguma coisa ou alguém:
dois legumes em vinagre, uma porta para o quarto,
oito bailarinas vestidas de cisnes.

Gosto da domesticidade da adição —
adicione dois copos de leite e agite —
do sentido da abundância: seis ameixas
no chão, mais três
a cair da árvore.

E das multiplicações escolares
de peixes vezes peixes,
os seus corpos prateados aumentando
sob a sombra
de um barco.

Mesmo a subtracção nunca significa perda,
apenas soma em qualquer outro lugar:
de cinco pardais tiram-se dois,
os dois que estão agora
no jardim de alguém.

Há uma amplitude imensa na divisão,
dentro de uma caixa chinesa
abre-se uma caixa de papel,
dentro de cada biscoito dobrado
uma nova fortuna.

E nunca deixa de me surpreender
a dádiva de um excedente que resta,
liberto no fim de tudo:
quarenta e sete divididos por onze dá quatro,
e sobram três.

Três rapazes para além do chamamento das suas mães,
dois italianos livres do mar,
uma meia que nunca está onde a procuras.

 

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▪ Mary Cornish
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Trocando Dólares por cêntimos” / Alguma Poesia Norte-Americana, Editora Contracapa, 2020

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Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Professor



 

NUMBERS

 

I like the generosity of numbers.
The way, for example,
they are willing to count
anything or anyone:
two pickles, one door to the room,
eight dancers dressed as swans.

I like the domesticity of addition—
add two cups of milk and stir—
the sense of plenty: six plums
on the ground, three more
falling from the tree.

And multiplication’s school
of fish times fish,
whose silver bodies breed
beneath the shadow
of a boat.

Even subtraction is never loss,
just addition somewhere else:
five sparrows take away two,
the two in someone else’s
garden now.

There’s an amplitude to long division,
as it opens Chinese take-out
box by paper box,
inside every folded cookie
a new fortune.

And I never fail to be surprised
by the gift of an odd remainder,
footloose at the end:
forty-seven divided by eleven equals four,
with three remaining.

Three boys beyond their mother’s call,
two Italians off to the sea,
one sock that isn’t anywhere you look.

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▪ Mary Cornish
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Red Studio”, Oberlin College Press, 2007

 

CARIDADE

As dificuldades fizeram-lhe bem,
fizeram com que tudo para ela deixasse de ser banal,
deixasse de estar sempre a rir,
de brilhar na caça dos maridos das outras.

As dificuldades fizeram-na pensar;
puseram-na no seu lugar,
roubaram-lhe a confiança.
As dificuldades suavizaram o mau gosto.

Sob as nódoas negras ela parece mais merecedora:
alguém a quem lançar uma corda nos deixaria satisfeitos,
alguém a quem mandar as nossas blusas usadas
ou a fruta bichosa derrubada pelo vento.

 

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▪ Connie Bensley
( Inglaterra 🇬🇧 )

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático



 

CHARITY

 

Trouble has done her good,
trouble has stopped her trivializing everything,
giggling too much,
glittering after other people’s husbands.

Trouble has made her think;
taken her down a peg,
knocked the stuffing out of her.
Trouble has toned down the vulgarity.

Under the bruises she looks more deserving:
someone you’d be glad to throw a rope to,
somewhere to send your old blouses
or those wormy little windfalls.

 

_
▪ Connie Bensley
( England 🇬🇧 )

 

MINA, 1004

Arder, eu vi minha avô arder.
Agosto. Chihuahua, 1963. Ela ardeu,
por fora e por dentro, ardeu na rua Mina, 1004.
Vi o meu pai envolvê-la num lençol, o colchão ardia;
as cortinas, a almofada, o seu vestido
enegreceram. Guardou tudo.
«Não façam barulho, a sua mãe está cansada.»
Vi-o sair de luto nessa tarde de agosto com a sua gravata negra.
Guardou-a. Guardou cinza e pranto.

O fumo da avô no saguão, as tias
sorvendo, ásperos, os grumos do café.

Era preciso apagar o escuro que doía,
dissolver o sal, o pranto, abraçar-se,
sufocar o tremor da viagem, ouvir
Paul Anka, por exemplo, à falta de pulsação,
riscar o disco de 45 rotações por minuto.

Por instantes vivia, por instantes
tudo ficou púrpura: a mulher, o
cansaço, a folhagem dos álamos. Depois
o vidro, o vidro no cedro,
o rosto queimado sob o fumo.

Também a minha mãe ardeu. O seu sorriso apagado entre lágrimas:
«Arranja-me o cabelo, disse-me, deixa-me sair para ver se já está
__ seca a roupa.»

Tive medo. De que os meus passos lentos não voltassem, da suavidade
da folha, do silencioso apodrecimento,
do peso ressequido da hera, já sem muro, da
jarra na cozinha, sem flores. Tive medo desse quarto cego com a sua
__ morte.
De mim mesma e da intrusão do vento
que levava consigo o pó dos sicómoros.

 

_
▪ Jeannette Lozano
( México 🇲🇽 )
in “Telhados de vidro, nº. 19, Editora Averno, Lisboa, 2014

*

Mudado para português por _ Inês Dias 🇵🇹  Poeta, Tradutora e Professora

 


 

MINA 1004

 

Arder, yo vi a mi abuela arder.
Agosto. Chihuahua, 1963. Ella ardió,
su fuera y su dentro, ardió en la calle Mina 1004.
Vi a mi padre envolverla en una sábana, el colchón ardía;
las cortinas, la alfombra, su vestido
ennegrecieron. Todo lo recogió.
«No hagan ruido, su madre está cansada.»
Lo vi salir de luto esa tarde de agosto con su corbata negra.
La recogió. Ceniza y llanto recogió.

El humo de la abuela en el zaguán, las tías
sorbiendo, ásperos, los grumos del café.

Había que borrar lo oscuro que dolía,
disolver la sal, el llanto, abrazarse,
sofocar el temblor del viaje, escuchar
a Paul Anka, por ejemplo, a falta de pulso,
rayar el disco de 45 revoluciones por minuto.

Por instantes vivía, por instantes
todo fue púrpura: la mujer, el
cansancio, las frondas de los álamos. Después
el vidrio, el vidrio en el cedro,
el rostro quemado bajo el humo.

También mi madre ardió. En lágrimas su sonrisa apagada:
«Arréglame el pelo, me dijo, déjame salir a ver si ya está seca la
__ ropa».

Tuve miedo. De que sus pasos lentos no volvieran, de la tersura
de la hoja, del sigiloso carcomer,
del reseco peso de la hiedra, ya sin muro, del
florero en la cocina, sin flores. De ese cuarto ciego con su muerte
__ tuve miedo.
De mí misma y el filtrarse del viento
que se llevaba el polvo de los sicomoros.

 

_
▪ Jeannette Lozano
( México 🇲🇽 )

 

SOUS LA NUIT

 

para Y. Yván Pizarnik de Kolikovski, meu pai

 

___ Os ausentes sopram cinzentamente e noite é densa.
A noite tem a cor das pálpebras do morto.
___ Fujo toda a noite, enceto a perseguição e a fuga, canto
um canto para os meus males, pássaros negros sobre mor-
talhas negras.
___ Grito mentalmente, o vento demente desmente-me,
confino-me, afasto-me da mão crispada, não quero saber
de mais nada senão deste clamor, este arquejar da noite,
esta errância, este não se encontrar.

___ Toda a noite faço a noite.
___ Toda a noite me abandonas lentamente como a água
cai lentamente. Toda a noite escrevo para procurar quem
me procura.
___ Palavra por palavra eu escrevo a noite.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
in “Antologia Poética”, Editora Tinta da China, Lisboa, 2020

*

Mudado para português por _ Fernando Pinto do Amaral  🇵🇹  Professor, Tradutor e Poeta

 

VISITA PRISIONAL

Amantes, vencidos, vilões,
a cidade está na rua
esta noite para admirar
um pôr de sol perfeito
hesitar sobre a prisão.
__________*

Quem prendemos nós?
Os cidadãos que nos desapontam?
Aqueles que nós decepcionamos?
__________*

O amor é poderoso
mas a vida é dura.
Na lama
por trás do muro da prisão —
algemas de brincar.

 

_
▪ Pat Boran
( Irlanda 🇮🇪 )
in “O Sussurro da Corda”, Edições Eufeme, Porto, 2018

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho Poeta 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático



PRISON VISIT

 

Lovers, losers, villains,
the town is out
tonight to watch
a perfect sunset
hesitate over the prison.
__________*

Who do we gaol?
The citizens who fail us?
The citizens we fail?
__________*

Love is powerful
but life is tough.
In the mud
behind the prison wall —
toy handcuffs.

 
_
▪ Pat Boran
( Ireland 🇮🇪 )

 

INTRODUÇÃO

Atei uma ligadura ao mundo.
Seguindo uma estratégia diferente, há quem o aparafuse ajoelhan-
do-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila.
Por cima dele o céu é elástico.
Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao dar por acabado o livro
de que este texto pode, entre outros, ser a introdução, mais me fascinam.
A própria alma é elástica: podemos, assentando um dedo sobre a sua
superfície e pressionando-a, levá-la a tocar nas coisas mais inesperadas.
O real é um vidro pintado sob o sol berrante, as coisas prendem-se-
-me ao espírito. Do mar, para não dar senão um exemplo, fiz a minha
máscara integral.

 

_
▪ Luís Miguel Nava
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia”, Assírio & Alvim, 2020

 

NUMEROGRAFIA

onde estamos?        que revólver
campeia no deserto?             que
matriz norteia   o   objecto?

por ecos se repete na figura a equação da curva:
o invisível ceptro do seu número:
por ecos se reflecte a sua forma celeste
na cinza do contínuo:

_________________________ que luz emite?
que procura? ________que paradigma sonha
a sua sombra na figura?
em que campo celeste e em que linha de terra
se ergue  _______ a sua casa de ciprestes
na penumbra antiga do número?

 

_
▪ Alexandra Kräft
— Heterónimo de Maria Azenha 🇵🇹 —
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998


OBS: Quem é Alexandra Kräft?

Alexandra Sigmund Kräft (Londres, n. 2025 ) elege o átomo como Estátua Cósmica.
Ela pensa sobre os contornos e sombras dos objectos, não sobre os próprios objectos, que não existem.
Por isso o outro ser humano é uma ilusão: tudo é objecto do seu olhar.
E tudo é abjecto do seu ver.
É esta náusea que a define.

 

 

ALGUMA COISA NA BARRIGA

Eu queria escrever um poema e estava grávida. Estava muito magra. Como se vivesse de ar. Um poeta deve ser capaz de viver de ar, mas uma mãe nem deve tentar. A minha mãe queria que eu comprasse um conjunto de panelas de alumínio Wearever, iguais às que ela tinha. Eram pesadas e tinham tampas bem ajustadas, de forma que a comida não se queimaria. O meu marido queria que desse jantares de festa. John F. Kennedy corria para o escritório.

Eu senti o perigo. Kennedy não era contra a bomba ou pelo desarmamento nuclear. Juntei-me ao SANE no seu início. Também aos Cientistas Preocupados. Falei com Linus Pauling e incentivei o meu marido a ajudar o seu colega a organizar os Médicos para a Responsabilidade Social.

Tinha um bebé na minha barriga. Queria escrever poemas. Tinha a ideia maluca de que uma mulher poderia escrever um romance de verdade, daqueles que vão abalar o mundo. Tive alucinações de que uma mulher podia ser poeta, mas teria de ser livre. Eu não podia imaginar essa liberdade para mim, embora a pudesse ver na Isla Negra, enquanto seguia o Pablo Neruda. Eu podia reconhecê-lo na maneira como ele andava. Mesmo que estivesse a andar dentro de uma ditadura, entre armas, soldados e espiões, não havia nada entre ele e a sua visão. Qualquer coisa que visse, era capaz de apreendê-la, não havia nenhum olhar, nenhuma imagem, nenhuma visão a que ele não tivesse direito. No seu coração, tudo – tudo – lhe pertencia. Pablo Neruda era mais do que qualquer coisa – um poeta, e assim era um homem que tinha direito a tudo.

Eu era mulher e não tinha direito a nada. Eu não tinha nada além de um marido, uma casa alugada, um conjunto de panelas, móveis de sala, um frenesi de obrigações, cartões de crédito, parentes ansiosos, muitos conhecidos, um presente para um futuro serviço de fraldas, dois telefones, falta de tempo para ler, um livro de receitas embrulhado em plástico colhidas das páginas do New York Times, e uma fome, uma fome terrível pela inimaginável e ilimitada liberdade de ser poeta, e um bebé na minha barriga.

Teria telefonado ao Pablo (um telefonema de longa distância) se tivesse coragem, se soubesse falar espanhol fluentemente, se alguma vez tivéssemos falado de coisas reais. Mas, o que poderia saber um homem sobre um bebé na barriga? E o que importava se houvesse um poeta a mais ou a menos no mundo, quando tantos no seu país estavam a morrer?

Acordei uma manhã e pensei – Não posso ter esta criança. O meu marido disse, “Terás de arranjar trabalho a seguir ao parto, para podermos comprar uma casa. Vais precisar de um diploma avançado.” Pensei, eu não posso. Eu tenho de escrever poemas. A minha mãe encontrou um berço. Alguém o pintou de branco. Um amigo ofereceu-nos um espanta espíritos com mansos animais de madeira. Pensei em cortinas azuis, colchas e abortos.

Pablo permanecia silencioso. Caminhava longe de mim e eu não podia ouvi-lo. O meu marido opôs-se a prestar mais cuidados médicos gratuitos aos Panteras Negras. Tentei fazer trouxas a partir do zero e encontrei folhas de uva preservadas em salmoura no Boys’ Market a 30 km de distância. Organizei um movimento de escritores pela paz para desafiar o JFK. O meu marido achou que seria bom tomar chá com as crianças e termos jantares românticos sozinhos. Os novos frascos de leite alinhavam-se na pia como pequenas bombas. Os Estados Unidos estavam a realizar testes debaixo da terra; eu estava com medo que a radiação atravessasse a barreira do leite. Tinha um poema em mim uivando para a vida real, mas nenhuma linguagem para o escrever. O nevoeiro veio espesso, batendo ao redor dos meus pés como cobertores desenrolando-se. Fiquei com medo de ter uma filha.

Liguei para o Pablo Neruda a meio da noite, enquanto ele caminhava debaixo de água na Isla Negra. Movia-se como uma toninha de sonho. Parecia grávido de palavras. Saíam do seu pénis em longas e milagrosas cordas. As criaturas do mar tremiam de alegria. Eu disse, “Pablo, quero saber como carregar uma criança na minha barriga nesta cama de urânio e quero saber se uma mulher pode ser poeta.” Ele era grande como uma baleia. Bebeu o mar e jorrou-o em odes cintilantes, negras e lustrosas. Eu disse: “Não posso ter esta criança”, e ele riu como se nunca tivesse feito mais nada, além de carregar bebés e dar à luz .

Então arrumei a minha pequena mala como se fosse para o hospital e deixei um bilhete e as panelas Wearever e os mamilos esterilizados sobre os mísseis de vidro, e levei a mochila que um amigo índio me tinha me dado para transportar o bebé e que tinha feito o meu marido roncar- “Não vais carregar essa coisa nas costas, pois não?” Peguei em algum dinheiro, o carro, alguns livros, papel e canetas, os meus sapatos de caminhar, uma máquina de escrever elétrica da IBM, a minha barriga grávida e uma dúzia de fraldas de pano, e saí.

Eu sabia como carregar um bebé e como carregar um poema e iria aprender a dar à luz um bebé e até a dar à luz um poema. Teria leite suficiente para ambos. Aprenderia a andar com eles. Mas não sabia, e não queria saber, como ter um marido e um conjunto de panelas Wearever.

 

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▪ Deena Metzger
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Editora Red Hen Press, 2009

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Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Médico



 

SOMETHING IN THE BELLY

 

I wanted to have a poem and I was pregnant. I was very thin. As if I’d lived on air. A poet must be able to live on air, but a mother must not attempt it. My mother wanted me to buy a set of matching pots, Wearever aluminum, like the ones she had. They were heavy and had well fitting lids so my suppers wouldn’t burn. My husband wanted me to give dinner parties. John F. Kennedy was running for office.

I sensed danger. Kennedy wasn’t against the Bomb or for nuclear disarmament. I joined SANE at its inception. Also Concerned Scientists. I spoke with Linus Pauling and encouraged my husband to help his partner organize Physicians for Social Responsibility.

There was a baby in my belly. I wanted to write poems. I had a crazy idea that a woman could write a real novel, the kind that shook the world. I hallucinated that a woman could be a poet, but she would have to be free. I couldn’t imagine that freedom for myself even though I could see it in Isla Negra when I followed Pablo Neruda. I could see it in the way he walked. Even if he were walking inside a dictatorship, among guns, soldiers and spies, there was nothing between him and his vision. Anything he saw, he was able to take into himself–there was no sight, no image, no vision to which he didn’t feel entitled. In his heart, everything–everything–belonged to him. Pablo Neruda was–more than anything–a poet, and so he was an entitled man.

I was a woman and entitled to nothing. I had nothing except a husband, a rented house, a set of pots, living room furniture, a frenzy of obligations, credit cards, anxious relatives, too many acquaintances, a gift of future diaper service, two telephones, no time to read, a plastic wrapped cookbook of recipes gleaned from the pages of the New York Times, and a hunger, a terrible hunger for the unimaginable, unlimited freedom of being a poet, and a baby in my belly.

I would have called Pablo long distance if I had the courage, if I had the ability to speak Spanish fluently, if we had ever talked about real things. But, what would a man know about a baby in the belly? And what did it matter if there were to be one poet more or less in the world when so many in his country were dying?

I woke up one morning and thought–I can’t have this child. My husband said, “You’ll have to get a job after it’s born so we can buy a house. You’ll need an advanced degree so you can do something.” I thought, I can’t. I have to write poems. My mother found a crib. Someone painted it white. A friend sent a pastel mobile with tame wood animals. I thought about blue curtains, making bedspreads, and abortions.

Pablo was silent. He was walking so far from me, I couldn’t hear him. My husband objected to donating more free medical care to the Black Panthers. I tried to make dolmades from scratch and located grape leaves preserved in brine at the Boys’ Market twenty miles away. I organized a write-in campaign for peace to challenge JFK. My husband thought it would be nice to have teatime with the children and romantic dinners by ourselves. The new formula bottles lined up on the sink like tiny bombs. The U.S. was pursuing over ground testing; I was afraid the radiation would cross the milk barrier. I had a poem in me howling for real life but no language to write in. The fog came in thick, flapping about my feet like blankets unraveling. I became afraid to have a daughter.

I called Pablo Neruda in the middle of the night as he walked underwater by Isla Negra. He moved like a dream porpoise. He seemed pregnant with words. They came out of his penis in long miraculous strings. The sea creatures quivered with joy. I said, “Pablo, I want to know how to bear the child in my belly onto this bed of uranium and I want to know if a woman can a be a poet.” He was large as a whale. He drank the sea and spouted it in glistening odes, black and shiny. I said, “I can’t have this child,” and he laughed as if he had never done anything but carry and birth children.

So I packed my little bag as if I were going to the hospital and I left a note and the Wearever pots and sterilized nipples upon the glass missiles, and took the cradle board that an American Indian friend had given me for the baby and that had made my husband snort– “You’re not going to carry the thing on your back, are you?” I took some money, the car, some books, paper and pens, my walking shoes, an unwieldly IBM electric typewriter, my pregnant belly and a dozen cloth diapers, and I went out.

I knew how to carry a baby and how to carry a poem and I would learn how to have a baby and even how to have a poem. I would have enough milk for both. I would learn how to walk with them. But I didn’t know, and I didn’t want to know, how to have a husband and a matched set of Wearever pots.

 

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▪ Deena Metzger
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Red Hen Press, 2009