MENTALIDADE ou

aqui estou!, disseste

depois de eu ter feito
a pergunta ordinária: está lá?
estavas a falar da Marmeleira,
“aqui”, disseste
em vez do nome da terra, questão
só de mentalidade, porque
Marmeleira é um nome
como outro qualquer,
conheço muitos assim,
não precisa de ser com árvores,
nem sequer de fruto…
olha os Carvalhos, por exemplo,
e há mais! Enfim, tu viajas, sabes,
enquanto eu é o que se sabe;
eu vou só daqui para ali
e vice-versa…
e vice-versa, é claro,
porque ali é só para me lavar
e o resto… tem piada
porque primeiro o que escrevi li
rosto, mas o rosto já está,
claro que é o resto , está certo,
nenhum autor do meu conhecimento
em vez de resto escreveria cagar;
eles nem conhecem a palavra,
nunca a ouviram, ou se ouviram
pensaram que era uma “plataforma”
para outra coisa, talvez simplificação
de carregar, há autoclismos assim.
Voltaire, o maganão, dizia
também que não dizia, não precisava,
bom proveito lhe faça,
mas há quanto tempo foi isso?
é tudo mentalidade, ou não será
mental idade, pois passaram séculos,
houve muita coisa de cima para baixo:
o pudim, por exemplo, foi na cozinha,
a cozinha, centro de luculações e
lucubrações, na tua preparas tu
o teu ensopado, enquanto eu na panela
mexo a minha sopa de pacote, e assim
se vão passando os dias,
e de noite não se come. é a natureza,
“de noite comem os animais nocturnos”,
é uma das grandes observações
da revista científica, embora como tudo
tenha excepções: as excepções
às vezes são só uma questão
de mentalidade, mas outras não.
não foi na Marmeleira, também
dizes “vou entrar” quando
estás a entrar para o metro,
mas sempre que vais a sair
nunca dizes nada. mentalidade,
excepção? é mas é
um notável ponto de partida
para iniciar a filosofia
de que já te falei, lembras-te?,
segundo a qual embora o meu de transporte
seja o mesmo, e as mesmas pessoas
as implicadas, os dois actos
de entrar e sair, aproximação e afastamento,
têm um sentido tão apartado e — cuidado! —
parece mas não é sempre apertado,
pois num caso o “saio aqui” aproxima,
mesmo que a estação fique muito
distante, e o silêncio à saída afasta,
mesmo que a estação fique junto
à minha casa! mas a reflexão vai
por água abaixo (em caso de chuva)
porque junto à minha casa, é notável ,
não há nada. desse nada podia nascer
uma estação e um mundo de bilhetes,
e de turistas, claro, era onde eu queria chegar:
o tema é a mentalidade, não é?
é mesmo mentalidade há muito chula,
desde as especiarias, escravos, esbulhos
de muita espécie, sempre um esquema ,
e do pior, e dura, dura, dura,
sim, muito dura para os (e eis o x da questão)
expostos, os postos fora de sua casa.

 

_
▪ Alberto Pimenta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Zombo”, Edições do Saguão, Lisboa, 2019

 

OBRIGADA POR TEREM AGUARDADO

Senhores passageiros, vamos dar início ao embarque.
Neste momento convidamos somente os passageiros de Primeira Classe.

Obrigada por terem aguardado. Convidamos agora a embarcar
os passageiros Membros Corporativos Exclusive, Superior, Privilege e Excelsior,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Platina triplo, duplo ou single,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Gold e Silver,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Coral Club.
Podem embarcar igualmente militares que se apresentem devidamente fardados.

Obrigada por terem aguardado. Convidamos agora
a embarcar os passageiros Membros Corporativos Bronze Alliance e os passageiros
que se inscreveram no nosso sistema de pontos Metais Raros e no Esquema de Gratificações, e obrigada por terem aguardado.

Obrigada por terem aguardado. Gente Reconhecida e Comprovadamente Bela
pode agora embarcar, bem como os cavalheiros que tragam consigo uma cópia
da revista Cigar Aficionado, bem como os passageiros que subscreveram
a nossa promoção Diamante Vermelho, Opala Negra, ou Granada Azul.
Podem embarcar agora os passageiros com cartões Safira, Rubi e Esmeralda,
seguidos dos passageiros com cartões Ametista, Onix, Obsidiana, Azeviche,
Topázio e Quartzo. Podem também embarcar agora os clientes cuja tarifa lhes dá direito à Fast Track ou à Faixa de Embarque Prioritário, os passageiros das Elites Eleitas, os clientes com Acesso Preferencial e os Primeiros Entre os Iguais.

Convidamos também a embarcar os passageiros com comprovativo
de elegância e um valor mínimo de dez mil dólares americanos,
vestindo peças de estilistas e/ou fatos de alfaiate;
convidamos também a embarcar os passageiros que tenham peças de joalharia
(incluindo relógios de pulso) com preço de venda a retalho
superior ao salário anual médio
de um professor do ensino secundário a meio da carreira.
Podem também agora embarcar os passageiros que falem alto
aos telemóveis sobre vendas de acções recentemente concluídas,
compra de imóveis e aquisições agressivas,
bem como gestores de fundos de investimento com comprovado registo
no enfraquecimento de pequenas ou médias ambições.
Podem também embarcar agora os passageiros nas classes
Argila, Calcário, Marga e Barro. Os passageiros que adquiriram
os nossos pacotes Dignity ou Orquídea da Manhã
podem recolher os seus fatos de treino desinfectados antes do embarque.

Obrigada por terem aguardado.
Convidamos agora a embarcar os passageiros medíocres,
seguidos dos passageiros a quem falta perspicácia empresarial
ou potencial para genuína liderança, seguidos da gente
com pouca ou nenhuma importância, seguidos de gente
que funciona como gente em perda fiscal.
Os passageiros com bilhetes para as zonas Ferrugem, Serradura, Papelão,
Poça e Areia podem agora começar a reunir os seus
pertences e migalhas e preparar-se para o embarque.

Pedimos aos passageiros parcial ou totalmente dependentes da
assistência social ou da bondade que validem os seus cupões de viagem
junto do Balcão da Quarentena.

Suor, Pó, Reles, Caspa, Fezes, Palha, Restos,
Cinza, Pus, Lama, Tijolo, Farpa e Fuligem;
podem todos embarcar agora.

 

_
▪ Simon Armitage
(Inglaterra 🇬🇧)
in “The Unaccompanied”, Editora Faber & Faber, London, 2018

*

Mudado para português por _ Ana Luísa Amaral 🇵🇹 Poeta, tradutora e professora



 
THANK YOU FOR WAITING

 

At this moment in time we’d like to invite
First Class passengers only to board the aircraft.

Thank you for waiting. We now extend our invitation
to Exclusive, Superior, Privilege and Excelsior members,
followed by triple, double and single Platinum members,
followed by Gold and Silver Card members,
followed by Pearl and Coral Club members.
Military personnel in uniform may also board at this time.

Thank you for waiting. We now invite
Bronze Alliance Members and passengers enrolled
in our Rare Earth Metals Points and Reward Scheme
to come forward, and thank you for waiting.

Thank you for waiting. Accredited Beautiful People
may now board, plus any gentleman carrying a copy
of this month’s Cigar Aficionado magazine, plus subscribers
to our Red Diamond, Black Opal or Blue Garnet promotion.
We also welcome Sapphire, Ruby and Emerald members
at this time, followed by Amethyst, Onyx, Obsidian, Jet,
Topaz and Quartz members. Priority Lane customers,
Fast Track customers, Chosen Elite customers,
Preferred Access customers and First Among Equals customers
may also now board.

On production of a valid receipt travellers of elegance and style
wearing designer and/or hand-tailored clothing
to a minimum value of ten thousand US dollars may now board;
passengers in possession of items of jewellery
(including wristwatches) with a retail purchase price
greater than the average annual salary
of a mid-career high school teacher are also welcome to board.
Also welcome at this time are passengers talking loudly
into cellphone headsets about recently completed share deals
property acquisitions and aggressive takeovers,
plus hedge fund managers with proven track records
in the undermining of small-to-medium-sized ambitions.
Passengers in classes Loam, Chalk, Marl and Clay
may also board. Customers who have purchased
our Dignity or Morning Orchid packages
may now collect their sanitised shell suits prior to boarding.

Thank you for waiting.
Mediocre passengers are now invited to board,
followed by passengers lacking business acumen
or genuine leadership potential, followed by people
of little or no consequence, followed by people
operating at a net fiscal loss as people.
Those holding tickets for zones Rust, Mulch, Cardboard,
Puddle and Sand might now want to begin gathering
their tissues and crumbs prior to embarkation.

Passengers either partially or wholly dependent on welfare
or kindness, please have your travel coupons validated
at the Quarantine Desk.

Sweat, Dust, Shoddy, Scurf, Faeces, Chaff, Remnant,
Ash, Pus, Sludge, Clinker, Splinter and Soot;
all you people are now free to board.

 

_
▪ Simon Armitage
(England 🇬🇧)
From “The Unaccompanied”, Faber & Faber, London, 2018
 

O POETA NO SEU ATELIER DE LÁGRIMAS

Onde está
mãe         onde está
entre todos os leitos
da terra
a pedra   o nó do vento
o azul de todas as cores
que te falam
no fogo da Noite?

o amor soluça tempestades!
há homens desmaiados!

onde está mãe
onde está
onde o vento sopra
onde o vento compreende
e sabe
que brilha nesta Terra
esta ciência

esta conta feita
que não vem de volta?

o amor é uma águia
voando assustadoramente
para além das lágrimas!

onde está
mãe       onde está
a rotação do fogo
a estrela do mar-alto
os cavalos-frases com
bordados infindáveis
na hélice da Noite?

o amor é um passo ao lado
como um cão que ladra!

onde está mãe
onde está
o vapor dos barcos
que fogem das águas
no sangue incolor  redistribuído
pelas casas
pelas lâmpadas         pelas covas
pelas árvores
que comigo bebem
copos enlouquecidos
de
cantos telegráficos?

o amor é um automóvel
a dividir por quatro rodas!

onde está
mãe      onde está
o teu filho de dedos ciclópicos
feito com os teus olhos
cheios de contornos
que eu recordo que eu
recordo

o amor é uma bruxa
a perguntar por tudo!

onde está mãe
onde está
o coração velho das fábricas
agora
transformado
em supermercados    em hipermercados
em hiperhipermercados
condenados
à fealdade dos homens?

o amor tem voz fanhosa!
anda constipado.
não tem rosas no lugar adequado!

onde está mãe
onde está
o céu riscado
o outro Lado
onde andava de comboio pelo Cosmos
entre cativas margens
onde Deus fecundava as páginas?

o amor é um calendário!
uma cidade doida
com espelhos nas escadas!

onde está
mãe onde está o mar
a sua flauta mágica?

os dois cornetos de nuvens
que eu amava
que eu amava,

onde flutuam?

o amor é uma máquina de números!
um dois três !
um dois três !

uma picadora eléctrica
que faz parar o trânsito
entre Deus
e
os
Poetas!

Belos semáforos telegráficos!

olha mãe olha
mãe
eu vou acelerar vertiginosamente
estou farta de ser homem   tristeza de menina
sou     marianalfabeta
sou     marianalfabeta
sou Poeta.

e as rosas
hoje
incomodam-me

olha mãe olha
mãe      o amor
é uma grande guerra
que abre
e fecha as portas
põe luzes no Caminho
uma tragédia d’águas

olha mãe olha
mãe,
que vou acelerar vertiginosamente
fujo atrás dos figos
os mais esbeltos os mais livres
em carne e sangue vivos…

o amor é um rapaz na estrada
à espera de uma mulher
que é um violino!

olha mãe olha
há muito tempo que é domingo
e  vou sozinha
intensamente livre
angélica e fantasma,

dei um pulo para a Outra margem.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “P.I.M.”, Universitária Editora, Lisboa, 1999

Epigrafia #2

 
«explica-me este verso
pedias
como se a luz
pudesse
permanecer intacta
sobre a tua mão.»
 

Não expliques nenhum verso.
Peço-te.

Deixa que a luz tombe
sobre as janelas quase abandonadas
da varanda

e que as sombras de ferro forjado
que perduram nas cortinas
mesmo anoitecendo

sejam a única coisa intacta
no interior do poema.

 

_
▪ Sandra Costa
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

II

De um emboscado deus os sons que escreves
Vêm secretamente do infinito.
É p’ra escrever que as tuas mãos são leves,
Submissas asas de um misterioso espírito.

Alheia te é a música que atreves;
Teu é o fado, o precipício, o rito
Da dor que faz passar entre horas breves
A voz de um deus escondido no teu grito.

Cercado por crepúsculos de sabres,
A vida perfumar com as rosas que abres
Te é mister, poeta grácil de olhos tristes.

Desafias os astros? Não te gabes.
És sábio de saber que nada sabes.
Estás a mais no mundo e não existes.

 

_
▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sonetos Românticos”, Edições “O Jornal”, Lisboa, 1990

 

PRECE NO MEDITERRÂNEO

Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com o coração de ver,
vozes que nos aceitem.

E tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão, cega
durante a travessia

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar

que é também nosso

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ágora”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2020

E ASSIM FOI

assim que deus me apareceu peguei na máquina dos anjos
e comecei a escrever
certo é que sou mãe mas não uma qualquer
ando de um lado para outro com o paraíso dentro
conheço a cor intensa das mulheres que se sentam em casa
à espera que o seu corpo rebente
e penso:

agora escrevo como uma matrioska
estou sempre a deitar cá para fora mundos que fazem aumentar o universo
o Pessoa sabia-o e mudava frequentemente de ADN
estava farto de coisas visíveis como eu que nunca estou
na mesma cabine nem no mesmo laboratório de sombras
com a mão aberta à ciência

que hei de fazer se sou de dentro para fora
estou sempre grávida
repleta de objetos exóticos que se espantam de
tudo nada existir realmente

tenho o ar leve
sou uma nave

o meu corpo é uma metáfora

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Integra a Antologia Poética “Quem dera o sangue fosse só o da menstruação” – Volume II, Organização Debora Ribeiro 🇧🇷, Editora Urutau, Brasil/Galiza e Portugal, 2020

O PRISIONEIRO DO TEMPO

Começou porque me limitavam os anos,
doze anos, quinze anos, vinte anos…
Eram limites, eram fronteiras suportáveis:
o ano que vem, quando cumprir trinta anos,
o ano passado, o ano novo…
Eram limites amplos,
era possível a distância, o horizonte,
por muitos anos! Os espaços
dominavam o tempo
recebias a aurora, despedias a tarde
amplamente e amavas
docemente os sonhos.
Os anos eram os carcereiros
mas rondavam muito distanciados.
Havia quem vivesse cem anos!
Mais tarde, começaram os meses a limitar-me,
apareciam subitamente, tudo era muito distinto,
o tempo dominava os espaços,
era um limite mais pesado,
estavam mais próximos os carcereiros,
eram carcereiros!:
o mês que vem, dentro de uns meses,
oprimiam-me os meus próprios limites,
originava limites!
Que terá sido daquelas agradáveis distâncias,
há tempo pela frente, dizia,
quando me limitavam os anos.
Agora olhava com receio todas as coisas,
nove meses, três meses, um mês de prazo,
meses, meses voando sobre os sonhos.
E as semanas?
Deixaram os meses de cingir-me
e um novo limite controlava-me, uma nova medida
estendida por todo o mundo,
cobrindo de miragens todas as suas galerias.
Contava a vida por semanas,
semana atrás de semana.
Os carcereiros eram os oficiais de semana,
distraíam-me, envolviam-me nas verdades falsas,
a próxima semana, dura muito pouco uma semana,
a semana santa,
o meu mundo era a semana, a realidade era a semana,
a semana, só existia a semana.
Que era um mês senão quatro semanas
e que era um ano senão cinquenta e duas semanas…
E contava as semanas
e via a humanidade ansiosa
forçada à semana, vivendo para o fim de semana, vivos, livres
só o fim de semana.
Depois foram os dias,
comecei a contar os dias
sobressaltaram-me os dias,
era questão de dias,
pesavam enormemente os dias
e desejava por sua vez que passassem os dias
e que não passavam…
Aferrava-me aos dias, bons dias!,
o dia estava ali, era um carcereiro inamovível, omnipresente,
tudo mediam em dias.
Não era livre! Não podia ser livre!
O dia da minha boda, o dia da minha licenciatura em filosofia,
apenas um vazio para a minha aventura,
apenas ficava espaço e eu necessito de espaço, muito espaço,
não podia sair dos dias,
um dia e outro dia,
o dia das forças armadas, amanhã será outro dia,
outro dia!
Crescia a muralha dos dias,
o circo dos dias, um dia comia o outro dia,
os limites eram insustentáveis,
dias de jejum, dias de alegria,
mas tudo medido, era preciso obedecer ao dia,
despertar ao despertar o dia,
dormir ao dormir o dia,
a ordem do dia!
um dia é um dia, nos próximos dias…
agora, enquanto escrevo este poema,
já não conto os dias senão as horas,
faltam três horas, dura quatro horas,
que horas são, a que horas…
Os carcereiros converteram-se na minha sombra,
apenas falo, as horas confundem-se e confundem-me,
limites, limites, a tarde, a manhã, o meio-dia,
uma hora cai sobre outra hora, vence a outra,
uma hora é como outra hora,
hora adiantada, horas extraordinárias,
faz horas extraordinárias!,
a dança das horas, horas perdidas, o recorde da hora,
não somos seres, somos horas, corda de horas,
uma cada duas horas, quase seis horas,
e sonham as horas e já só podes ouvir as horas,
e tudo há-de mover-se num horário,
tudo há-de estar à hora,
tudo tem a sua hora,
quantas das minhas horas são horas minhas,
meia-hora, um quarto de hora, a hora!
Destrói-me pensar que nasci para as horas,
abro as mãos e tenho-as cheias de horas.
Ah, carcereiros, horas terríveis que nublais os meus olhos!:
dentro, levo-vos dentro, estou cheio de carcereiros, de sombras.

Não quero nem pensar como será a minha vida
quando ela depender dos minutos, quando
forem eles os meus carcereiros e não existam
os espaços, os sonhos, as dúvidas,
quando o meu corpo for uma garagem de minutos,
minutos, minutos, não tenho nem um minuto, só cinco minutos,
tudo sucederá em minutos, que fará de mim a fúria dos minutos,
quando não puder perder nem um minuto,
que humilhação me aguarda quando na minha vida
só se movam as agulhas dos minutos
que espaço pode haver entre minuto e minuto.
Que escura noite havia em vós, meses, anos,
e que traição os vossos espaços!
Éreis minutos, minutos, só minutos!
Que o mundo se afunde será questão de minutos!
Finalmente, finalmente, ah, finalmente,
quando apenas um sopro alente os meus sentidos
e só existam os segundos, sejam os segundos
os que cingem o meu corpo, a minha vida,
todo o meu ser um carcereiro monstruoso, uma áspide, uma víbora
destruindo os últimos reflexos,
todo o mundo um carcereiro horrível,
e quando todos forem fantasmas e as ideias se converterem em nuvens
e os sentidos em cavernas
e nos últimos segundos
passem os anos, os meses, os dias e as horas
convertidas em ar
e se encerrem os meus olhos e o rosto sem vida
riam como nunca por todos os abismos do mundo,
como desejarei continuar prisioneiro do tempo
como amarei o tempo – eu era tempo, doloríssimo tempo! -,
como amarei os limites – somente eles não estavam mortos -,
os anos e os meses,
os dias e as horas e os minutos,
todos os limites do mundo.
Como me arrancará a eternidade do tempo!

 

_
▪ Jesús Lizano
(Espanha 🇪🇸 )
in “O Engenhoso Libertário – Breve Antologia Poética de Jesús Lizano“, com organização, tradução e prefácio de Carlos d’Abreu, Douda Correria, Lisboa, 2015
 

CONTRA A POESIA DE AMOR

Casamos no verão, trinta anos atrás. Desde esse dia que te amo
profundamente. Amei outras coisas também.
Entre elas, a ideia da liberdade das mulheres. Por que coloco estas
palavras lado a lado? Porque o casamento não é
liberdade. Porque cada palavra que escrevo é contra a poesia de amor.
A poesia de amor não pode fazer justiça a isto. Esta é a recordação de uma
história dentro de outra história distante: um grande rei perdeu uma guerra e os seus inimigos
obrigaram-no a desfilar acorrentado pela cidade. Provocaram-no. Trouxeram
a mulher e os filhos – e ele não demonstrou qualquer emoção. Trouxeram
os seus cortesãos – e ele não demonstrou qualquer emoção. Trouxeram
o criado mais velho – só então ele se descaiu e chorou. Não encontrei
a minha feminilidade nas servidões do costume. Mas vi a minha
humanidade ali a olhar para mim. É para assinalar as contradições diárias
do amor que escrevi isto. Contra a poesia de amor.

 

_
▪ Eavan Boland
( Irlanda 🇨🇮 )
in “Against Love Poetry”, W. W. Norton & Company, New York , 2001

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

AGAINST LOVE POETRY

 

We were married in summer, thirty years ago. I have loved you
deeply from that moment to this. I have loved other things as well.
Among them the idea of women’s freedom. Why do I put these
words side by side? Because I am a woman. Because marriage is not
freedom. Therefore, every word here is written against love poetry.
Love poetry can do no justice to this. Here, instead, is a remembered
story from a faraway history: A great king lost a war and was paraded
in chains through the city of his enemy. They taunted him. They
brought his wife and children to him—he showed no emotion. They
brought his former courtiers—he showed no emotion. They brought
his old servant—only then did he break down and weep. I did not
find my womanhood in the servitudes of custom. But I saw my
humanity look back at me there. It is to mark the contradictions of
a daily love that I have written this. Against love poetry.

 

_
▪ Eavan Boland
(Ireland 🇨🇮 )
From “Against Love Poetry”, W. W. Norton & Company, New York , 2001