Os condomínios fechados erradicam
as tabacarias diante das janelas
e os horizontes de becos à beira-mar.
Os prédios repetem-se, as sombras
parecem-se: são todas de homens.
Os gestos imitam-se e não há
mistério no mofo que se alastra
pelas paredes — provavelmente
foi um cano que se rompeu
e o zelador está sempre pronto.
O tempo não sangra. O instante
não alcança a crise: cristaliza-se,
multiplica a luz, os dias —
sou o de ontem, desde sempre.
Diante de qual parede esperar
a porta que não irá se abrir?
Se os menos isso fosse claro.
Onde a criança que como chocolates?
Estão todos mortos, alheios, opacos.
São todos o universo a cair
sobre mim com um terror de fábula
infantil: leio sobre nebulosas,
sobre o brilho infindo dos quasares
e que jamais existiu um tempo
antes do tempo e então olho para o corpo
que ao lado dorme e penso
é mentira que exista amplidão maior
do que a do dia poeirento.
A noite continua. Queria
o meu coração fora de mim, apaziguado
como o gato defronte à janela
que dorme junto aos cactos.
_
▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016
Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?
Qual é o rio desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.
Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
de homem de outra margem.
Porque o que sucede não é verdade.
_
▪ Rosario Castellanos
( México 🇲🇽 )
in “Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Mudado para português por _ José Bento _ 🇵🇹 _ Poeta e tradutor
Corre nuda nella via.
– È una donna –
Consegna la pioggia
di perla
in
perla
a un diamante segreto
occulto nelle mani.
Viene con lei la notte
e la neve.
E il primo giorno della Creazione.
Se mia figlia vivrà, sarà sua.
_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”
*
Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ 🇮🇹 tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.
CORRE NUA NA RUA
Corre nua na rua.
– É uma mulher –
Entrega a chuva
de pérola
em
pérola
a um diamante secreto
oculto nas mãos.
Vem com ela a Noite
e a neve.
E o primeiro dia da Criação.
Se minha filha viver, será sua.
Oh velhadas que sobrais por aí,
Na ilusão de que viver é bom,
Despertai com os filhos, também eles já velhotes,
Para uma nova e dura realidade:
O mundo é das crianças, de vozes assassinas,
De nada vos serviu educá-las com esforço
E a preceito,
Já nada disso conta, estais a mais na imagem,
Ninguém sabe quem fostes, ou quem sois,
E pior, se ainda sois,
A nada tendes direito.
O tempo não regride
Em carecas não ficam bem trancinhas,
E o que sobra da gritaria vã
Já não acorda os ais das memórias perdidas.
Em vão _____assumirei a fome alheia como minha _____(há mãos obscenas a ocultar o trigo)
Em vão _____verei os olhos de meninos maiores que os seus ventres _____(há mãos obscenas a roubar o trigo)
Em vão _____Temerei as exactas máquinas da guerra _____(há obscuras mãos a sequestrar a paz)
Em vão _____Suportarei mal o sangue empapando o chão _____(há obscuras mãos a estrangular a paz)
Em vão! ______Em vão! ____________Em vão! __________________Mas que não digam que fui indiferente __________________Que não me desesperei __________________Que não morri mil mortes __________________Que não paguei o tributo de ter sido ______________________________________homem.
_
▪ Adalberto Alves
( Portugal 🇵🇹 )
in “Oriente de mim”, Editorial Teorema, Lisboa, 1993
Sabia-me água
condensada entre o mar e o céu,
mas pouco mais sabia,
até ouvir dizer, muito em baixo e ao fundo,
sobre a sua vinda.
Aprendi-lhes as palavras
e a ler o que diziam:
que ele desaparecera junto a longa batalha,
abandonando o galgo
que lhe era companheiro
E mais diziam:
que, com ele, entre a fé cega e o sonho,
haviam ido também
os de olhos mais de luz
Muito mais tarde havia eu de ouvir
que esses de olhos de luz
pertenciam aos que não tinham nunca
lutado pelo pão ou uma terra sua,
e que ser de mais luz, de ter mais sonhos,
vive na proporção das moedas
que povoam os bolsos
Não me viam, os seus olhos cegos,
entre o ardor e o rugir da batalha
E eu soube sempre,
mesmo quando era só água em finíssimos átomos ,
espalhada pelo céu e rente ao mar,
que ser tão poderoso ou menos poderoso:
uma deslocação de ar
sem peso que contasse
Nunca o vi, a ele,
antes de me ver eu feito nevoeiro,
e ele continua a ser-me
leve sombra sem corpo
Formei-me a partir de uma península,
e fui avançando devagar,
cobrindo tudo,
ano após ano,
século após século,
com ele atravessando-me o corpo,
o seu corpo e o meu sem formas definidas
Se ele não existisse,
Ele não existia,
e ainda hoje, de vez em quando,
se ouve dele falar,
com outras formas, outros nomes,
um ser vindo de outras paragens
Era preciso o brilho de um farol
de linhas sólidas e unidas
para que eu desaparecesse
para sempre do mito
Mas o farol não há,
e eu habito entre tempos,
aprisionado a elipses de tempo,
e a ele:
os dois presos à história
Se ao menos esse galgo que ele amava
nos guiasse, por fim,
como fio ou farol,
para dentro do tempo
E eu voltasse a ser nuvem,
e ele, só imagens –
_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Escuro”, Assirio & Alvim, Lisboa, 2014
Poor moth, I can’t help you,
I can only turn out the light.
*
Não te consigo ajudar
Pobre traça, não te consigo ajudar,
posso apenas apagar a luz.
*
We can destroy
We can destroy
all our evidence and still
even the mute rings of trees,
even our mute bones will tell
what times we lived in.
*
Podemos apagar
Podemos apagar
todos os nossos vestígios e contudo
até os anéis mudos das árvores
até os nossos ossos mudos dirão
em que tempos vivemos.
*
You’ve climbed high
You’ve climbed high, my little snail,
To the black lilac’s highest leaf!
But remember: September’s nearly over.
*
Subiste alto
Subiste alto, meu pequeno caracol,
até à folha mais alta do lilás negro!
Mas lembra-te: Setembro está quase a acabar.
_
▪ Ryszard Krynicki
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ Poeta, Tradutor e Matemático 🇵🇹 a partir da versão inglesa de Stanislaw Baranczak & Clare Cavanagh
La casa de leer en lo oscuro. Maria Azenha
Editorial Trea. Precio: 14 €
El libro de Azenha nos muestra una visión aterradora de este siglo, del poder y otras amenazas a las que estamos sometidos.
La labor de la poeta sería retirar del fondo del ser la “infinita tristeza” de nuestra condición y airear los despojos.
Ni siquiera conocía de nombre a Maria Azenha (1945), natural de Coimbra, matemática de profesión, además de pintora ─su compatriota, la también escritora Maria Estela Guedes ha avecindado el libro que nos ocupa con la técnica tenebrista de Caravaggio─, pero después de La casa de leer en lo oscuro, el penúltimo, parece ser, de su veintena de títulos líricos, creo que no la olvidaré fácilmente. Sus versos, a modo de latigazos, estremecen, te dejan un escalofrío hondo en los adentros, mal cuerpo incluso.
El prologuista y traductor, de lujo, el a su vez magnífico poeta y destacado lusista José Ángel Cilleruelo, precisa los rasgos esenciales de la poética, de índole simbólica, de Azenha: «el acendrado lirismo, la naturaleza significativa, el sentido ecuménico, la imaginación sin paredes y la extrema sensibilidad ante el dolor». Un simbolismo que nos muestra una visión aterradora de este siglo, del poder y de otras amenazas a las que estamos sometidos, basado en «un estilo metafórico, alusivo y elíptico», fruto del «propósito filosófico de cerrar la herida producida por la fragmentación de la experiencia», cabría añadir con el poeta barcelonés.
Pedro Fernandes califica estos poemas de extrañamiento radical frente a la quimera de la experiencia como «revelaciones», creo que en el sentido de que, a partir de imágenes durísimas, densas y herméticas, descubren, también en palabras de Cilleruelo, la «realidad exterior invertebrada: violenta, caótica, injusta y doliente». Para que aflore esa realidad Azenha nos desplaza a los sumideros actuales de la humanidad, pone el foco en los extranjeros, los ahogados de las pateras en el Mediterráneo, los somalíes en los campos de Kenia o los refugiados de Lesbos en la noche de Europa, que se muere. Esos sonidos del planeta que son «carbones encendidos en mitad de lo oscuro», porque a menudo se confrontan lo rojo, la sangre, con lo negro, como en el primer verso, con ecos lorquianos («Ha llegado la muerte con la boca llena de claveles») de «El ángel del desastre», tan de Alberti, por otra parte.
El poema, así, se convierte en el lugar, en el escenario, donde se plasma y materializa el horror del teatrillo de lo mundano, que ilumina como un fogonazo súbito la desdichada condición humana. De hecho, la labor de la poeta sería retirar del fondo del ser la «infinita tristeza» de nuestra condición y airear los despojos. Con referencias explícitas a Fassbinder, Rimbaud y Pasolini, se interna en su compañía por la senda de cierto malditismo («la locura se parece a Dios»), trufado de surrealismo onírico y misticismo negativo, con un punto expresionista, que corre el peligro de regodearse en sus propias excrecencias, pero no es el caso, porque contempla desde dentro, para intentar esclarecerla, la oscuridad consustancial con la que hemos sido arrojados a la vida.
De esta manera, cada texto, muy visual, terriblemente visual, es una especie de puesta en escena del teatro de la crueldad que sobrecoge y espeluzna, que angustia al ponernos delante de lo inevitable, en crudo, y ahí te las apañes. Cabe fingirse el distraído o hacerse cargo de la gravedad de lo que nos define y de lo irreversible. Azenha, «con una corona de espinas y la flor del desdén», no pone ni un paño caliente, nos sitúa siempre «en el centro del horror del poema», con un pesimismo cerval: «es todo tan macabro / y tan pérfido». Da la impresión de que escribe entregada a la muerte, diría a mayores, si así pudiera ser, que desde la muerte, lo que inquieta mucho y desazona en la lectura, a la vez que atrae sobremanera, como el abismo llamaba a los románticos.
ABSURDO
¡Oh flor de ansia sobre el mundo
–excremento de la ruina–
verso que se ahoga frente a la Nada!
El poema arde en sus caballos arduos.
El desespero horroriza la página.
LA CASA DE LEER EN LO OSCURO
El poema es un cuarto oscuro
donde entras en soledad.
Más negro aún el aposento
donde habita tu cadáver.
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