“A mamã por cima dos telhados e o meu amor”

 

– RECENSÃO –

A mamã por cima dos telhados e o meu amor: ou um “ramo da história incestuosa do Amor”

 

_____“Não será o medo da loucura que nos forçará a pôr a meia-haste a bandeira da imaginação” anuncia a epígrafe de A mamã por cima dos telhados e o meu amor da poeta portuguesa Maria Azenha. Citação retirada do Primeiro Manifesto do Surrealismo de André Breton, não é de se espantar que seja o surrealismo uma das forças abertamente expressas que percorre o livro, em conjunção com um dos topos de maior relevância psicanalítica: a função materna.
_____O volume, que se inicia com o poema “Tabernáculo”, sentencia: “Submeto os poemas à maternidade./ E são os mais amados.” (AZENHA, 2019, p. 9), para depois ser finalizado com a composição “O poema”:

Era a luz reunida numa alva manhã

E o seu pequeno coração
Unido ao meu
Combatia a grande solidão de Deus

Ouviu o som do mar

Depois começou a desintegrar-se

(ibidem, p. 74)

_____Tabernáculo, santuário portátil onde os hebreus guardavam e transportavam a arca da aliança e demais objetos sagrados, é evidentemente uma analogia ao corpo materno, cuja aliança psicocorpórea entre mãe e filha(o) muito comunga da sacralidade da relação do humano com o divino, conforme a justaposição de corações dos versos de “O poema” dá a perceber. No entanto, diferente de Deus, entidade individuada e masculina, o pequeno coração indiferenciado bate juntamente do da carne materna na “luz reunida numa alva manhã”, combatendo assim a solidão divina descorporificada, até, com o som do mar (elemento masculino), desintegrar-se (meus grifos). E poderíamos dizer isso: A mamã por cima dos telhados e o meu amor é um livro de luto, o qual aborda o difícil processo de separação do corpo materno, da cisão da submissão da(o) filha(o) à maternidade.
_____Em seu livro La Révolution du langage poétique, Julia Kristeva define o termo chora como uma fase no desenvolvimento psicossexual do sujeito caracterizada como um ritmo constantemente em movência que precede a significação linguística, uma não-expressiva totalidade que tem o poder de ressurgir de seu espaço reprimido no interior do domínio simbólico. Relacionado intimamente com a fase pré-Edipiana, o conceito é conectado ao maternal, o marginal, o poético e musical, não estando diretamente sujeito a uma forma sensível capitalista ou patriarcal, ainda que as diferentes pulsões que a compõem estejam “organizadas segundo várias restrições impostas ao corpo envolvidas no processo semiótico pela família e estruturas sociais” (KRISTEVA, 1984, p. 93).
_____Sua vinculação a uma fase pré-Edipiana é identificada como um momento em que o corpo materno ainda está em uma relação de continuidade com o da criança, um estado anterior à individuação do ego. Assim, se o simbólico, instaurado pelo complexo de Édipo, baseia-se na rejeição da mãe, a chora, mediante ritmos, jogos sonoros e repetições, recupera o corpo materno na linguagem ao abalar a dicotomia sujeito/objeto que o desejo implica, recuperando uma espécie de gozo que precede o surgimento do desejo. Dessa maneira, para Kristeva, a poesia e a maternidade representariam práticas privilegiadas no interior da cultura paternalmente sancionada de subversão cultural.
_____Em A mamã por cima dos telhados e o meu amor, o título “Mãe, ramo da história incestuosa do amor” não deixa dúvidas aos leitores da vinculação libidinal dos poemas com o materno. Ao mesmo tempo que ao longo dos poemas afirma-se a perda da mãe ( “Ó minha mãe, onde estás? / Ouves-me do céu?…” (AZENHA, 2019, p. 17) de “Carta submersa”, “Mãe – é dezembro/ Se morreste porque fazes/ Tanta força contra os números? (ibidem, p. 46) de “Com toda a força na paisagem”), o eu-lírico promulga a potência da figura perdida no insistente endereçamento e apelo à imensa e sexualizada força materna, tornando-a viva: “Mamã,/ Vem depressa buscar os meus beijos incendiados/ Para levar o mundo a escrever mais livros…” (ibidem, p. 27) de “A mamã por cima dos telhados e o meu amor”, “E sinto-me estranha aos teus símbolos./ E quero vê-los,/ Quero tocá-los no teu útero./ (…) Quero encerrar-me aí contigo/ e fazer o meu poema de guerra.” (ibidem, p. 38) de “Mãe, ramo da história incestuosa do amor”, “Mamã!.,/ Envia um telegrama a todos os jornais, anuncia/ Com o meu coração em febre,/ Com todos os meus punhos cerrados como que a rezar,/ Que fumo Camboja, liamba, (…),”(ibidem, p. 40) de “Mamã! Mamã Federal”.
_____Se no surrealismo o inconsciente funciona como uma fonte primordial de criação artística e, portanto, de entendimento do mundo, vê-se no livro de Maria Azenha como a função materna age como um eixo psíquico e, consequentemente, de sentido fundamental, no qual uma diversidade profícua de imagens díspares se cumulam. Em contraposição ao Vaticano “esse grande gângster de robe,/ Que anuncia/ A paz para os domingos” (AZENHA, 2019, p. 41), Mamã é interlocutora feminina de imagens desmedidas, de mãos profanas, bordéis de lágrimas, artes de sangue. Em todos os poemas do volume verifica-se o procedimento de justaposição invulgar de elementos a que se refere Breton em seu manifesto de 1924, em que imagens de realidades semânticas aparentemente distantes são postas ao lado a fim de provocar uma resposta emotiva.
_____Manifestamente há no livro de Azenha uma estética do excesso, sendo a frequente menção à loucura como ethos poético sintoma desse transbordamento (“E sinto-me como um violino doido,/ (…) Por cima dos telhados a arder…” (AZENHA, 2019, p. 25) de “A Mamã por cima dos telhados e o meu amor”, “O meu corpo ficou de cicatrizes,/ Estou em desordem.” (ibidem, p. 39) de “Mãe, ramo da história incestuosa do amor”. ). Karen Jackson Ford, em seu livro Gender and the Poetics of Excess: Moments of Brocade (1997), aponta que a poética do excesso busca resistir e/ou transgredir as opressivas e limitantes restrições da convenção em determinadas circunstâncias históricas. O excesso para Ford é “a rhetorical strategy adopted to overcome the prohibitions imposed by the application of a disabling concept of decorum” (FORD, 1997, p. 13). Ao final da leitura de A mamã por cima dos telhados e o meu amor, apesar do eu-lírico afirmar em “A Mamã por cima dos telhados e o meu amor” que “Não gosto, mamã, deste tom destruído do mundo.” (ibidem, p. 29), resta ao leitor conjecturar sobre o que os massacres obstinadamente representados de África, Camboja, Hiroshima, “balas nos vestidos amarelos das crianças” (ibidem, p. 41), “os rios negros do terrorismo” (ibidem, p. 31), “as fezes com feiuras sacrossantas” (ibidem, p. 41) desejam libidinalmente significar quando conjugados para a expressão do amor maternal.

 

Referências bibliográficas:

AZENHA, Maria. A mamã por cima dos telhados e o meu amor. Bragança Paulista: Editora Urutau, 2019.
DÓRIA, Henrique. Apresentação da obra “De Amor Ardem os Bosques”. Silves. IV Bienal de Poesia de Silves, 22-26 de Abril de 2010.
FORD, Karen Jackson. Gender and the Poetics of Excess: Moments of Brocade. Jackson: University Press of Mississippi, 1997.
GUEDES, Maria Estela. Apresentação de A casa de ler no escuro, de Maria Azenha. Lisboa. Associação 25 de Abril, 7 de Outubro de 2016.
KRISTEVA, JULIA. Revolution in Poetic Language. Trad. Leon Roudiez. New York: Columbia University Press, 1984.



Ana Beatriz Affonso Penna

Graduada em Letras nas habilitações Português e Inglês pela Universidade Federal Fluminense (2010) e mestre pela Universidade Federal Fluminense em Estudos de Literatura (2013), lecionou na Emory University por um ano letivo (2013-2014) através do Foreign Language Teaching Assistant Program da Fulbright Association. Foi professora credenciada pela Universidade Federal do Amazonas do Plano Nacional de Formação de Professores nas turmas de Licenciatura em Língua Inglesa de 2014 a 2015. De 2016 a abril de 2017, foi professora substituta no Departamento de Letras e Comunicação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, na área de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas em Língua Portuguesa. Doutorada em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, tendo realizado de setembro de 2017 a fevereiro de 2018 estágio doutoral na Universidade do Porto. Sua pesquisa está dedicada aos estudos do texto poético em Língua Portuguesa e Inglesa, com foco na poesia contemporânea.

 


 

░ Paisagem

O tempo passou, transformou tudo em gelo.
Sob o gelo, o futuro bulia.
Se caísses lá dentro, morrias.

Era um tempo
de espera, de acção suspensa.

Eu vivia no presente, que era
a parte do futuro que podíamos ver.
O passado pairava sobre a minha cabeça,
como o sol e a lua, visível mas inalcançável.

Era um tempo
governado por contradições, como
Não sentia nada e
tinha medo.

O inverno esvaziou as árvores, voltou a enchê-las de neve.
Como eu nada sentisse, a neve caiu, o lago gelou.
Como se eu tivesse medo, permaneci imóvel;
o meu bafo era branco, uma descrição do silêncio.

O tempo passou, e uma parte dele tornou-se isto.
E outra parte evaporou-se simplesmente;
podíamos vê-la a pairar sobre as árvores brancas,
formava partículas de gelo.

Esperas a vida inteira pelo momento oportuno.
Depois o momento oportuno
revela-se acção consumada.

Eu via mover-se o passado, uma fila de nuvens a avançar
da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda,
consoante o vento. Por vezes

não havia vento. As nuvens pareciam
ficar onde estavam,
como uma pintura do mar, mais imóveis do que reais.

Por vezes o lago era um lençol de vidro.
Sob o vidro, o futuro murmurava,
modesto, convidativo:
tinhas de te concentrar para o não ouvires.

O tempo passou; chegaste a ver parte dele.
Os anos que levou eram anos de inverno;
ninguém lhes sentiria a falta. Por vezes

não havia nuvens, como se
as fontes do passado tivessem desaparecido. O mundo

perdera a cor, como um negativo; a luz atravessava-o
de lado a lado. Depois
a imagem apagava-se.

Por cima do mundo
só havia azul, azul em toda a parte.

 

 
__
▪ Louise Glück
(EUA 🇺🇲 )
Tradução – Rui Pires Cabral
in “Telhados de vidro” nº. 12, Editora Averno, Lisboa, 2009

 
 

░ O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman

O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman,
Dickinson, Frost. Bem-vindos vós cuja fama nunca passará da
família mais chegada, e talvez um ou dois amigos intímos reuni-
dos depois do jantar à volta de um jarrão de rude vinho tinto…
enquanto as crianças adormecem e se queixam do barulho que
fazes ao vasculhar os armários à procura dos teus poemas antigos,
com medo que a tua mulher os tenha deitado fora na limpeza da
última primavera.
Neva, diz alguém que espreitou a noite escura e que, depois, tam-
bém se volta para ti quando te preparas para ler, de uma forma
algo teatral e uma face que cora, o longo e tortuoso poema de
amor cuja estrofe final (que não sabes) falta sem remissão.

 

__
▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
in “Previsão de tempo para utopia e arredores”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Tradução – José Alberto Oliveira

Com esta boca, neste mundo

Não voltarei a pronunciar-te, verbo sagrado,
embora tinja as gengivas de azul,
embora traga debaixo da língua uma pepita de ouro,
embora derrame sobre o coração um caldeiro de estrelas
e flua pela minha testa a corrente sagrada dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para o outro lado da noite da alma,
que nenhuma lâmpada consegue alcançar,
onde não há sombra que guie o meu voo à entrada,
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
em que só o atrito dos ramos e o queixume do vento se inscrevem.

E nem um só tremor que sobressalte as mudas pedras.
Falámos demasiado do silêncio,
condecorámo-lo como a uma sentinela no arco final,
como se nele jazesse o esplendor depois da queda,
o triunfo da palavra com a língua cortada.

Ah, não se trata da canção, nem do soluço!
Já disse do que amei e do que perdi,
sustive com cada sílaba os bens que mais receei perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a melodia tenaz,
ecoam, propagam-se como o trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão.
O nosso longo combate foi também um combate até à morte com a morte, poesia.

Ganhámos. Perdemos,
porque – como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo apenas com esta boca neste mundo com esta boca só?

 

_
▪ Olga Orozco
( Argentina 🇦🇷 )
in “Con esta boca, en este mundo”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1979

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ Con esta boca, en este mundo

 

No te pronunciaré jamás, verbo sagrado,
aunque me tiña las encías de color azul,
aunque ponga debajo de mi lengua una pepita de oro,
aunque derrame sobre mi corazón un caldero de estrellas
y pase por mi frente la corriente secreta de los grandes ríos.

Tal vez hayas huido hacia el costado de la noche del alma,
ese al que no es posible llegar desde ninguna lámpara,
y no hay sombra que guíe mi vuelo en el umbral,
ni memoria que venga de otro cielo para encarnar en esta dura nieve
donde sólo se inscribe el roce de la rama y el quejido del viento.

Y ni un solo temblor que haga sobresaltar las mudas piedras.
Hemos hablado demasiado del silencio,
lo hemos condecorado lo mismo que a un vigía en el arco final,
como si en él yaciera el esplendor después de la caída,
el triunfo del vocablo con la lengua cortada.

¡Ah, no se trata de la canción, tampoco del sollozo!
He dicho ya lo amado y lo perdido,
trabé con cada sílaba los bienes que más temí perder.
A lo largo del corredor suena, resuena la tenaz melodía,
retumban, se propagan como el trueno
unas pocas monedas caídas de visiones o arrebatadas a la oscuridad.
Nuestro largo combate fue también un combate a muerte con la muerte, poesía.

Hemos ganado. Hemos perdido,
porque ¿cómo nombrar con esa boca,
cómo nombrar en este mundo con esta sola boca en este mundo con esta sola boca?

 

_
▪ Olga Orozco
( Argentina 🇦🇷 )
de “Con esta boca, en este mundo”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1979

 

░ Quero apenas uma canção

Estou cansado de chamar
à porta dos que amo,
meu caminho se cobre de violetas
e sombras perdidas do meu canto.

Partiu a estação da açucena
pela morte que foi bela fábula;
agora ninguém me conhece
todos se distanciam de minha alma.

Não sei que caminho seguir
nem a quem dizer que me ame,
meus olhos miram a floresta
e estou cansado e é tarde.

Quero apenas uma canção
que me traga tuas mãos de fada
uma canção para a vida
sob esta chama de ciprestes tão branca.

Quero viver ou morrer,  a mim
o mesmo deve ser a morte que a vida.
¿Quiseras me dizer a canção
da esperança ou da ruína?

Somente peço a ti uma palavra
e algo do céu da tua música:
aguardarei na sombra do meu outono
coberto pelas flores e pela lua;

Estou cansado de chamar
mas ninguém me abre as portas;
acorde em mim da noite
açucenas de um vale perdido.

 

_
▪ Giovanni Quessep
(Colômbia 🇨🇴)
in “Quiero apenas una canción” Antologia , Universidad Externado de Colombia, Decanatura Cultural, Bogotá – Colombia, 2010

*

Mudado para português por _ Gustavo Petter _ Poeta, Tradutor, Professor / Araçatuba SP, Brasil.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Quiero apenas una canción

 

Estoy cansado de llamar
a la puerta de los que amo,
mi camino se cubre de violetas
y de sombras perdidas de mi canto.

Se ha ido la estación de la azucena
por la muerte que fue una bella fábula;
ahora nadie me conoce,
todos se alejan de mi alma.

No sé qué camino seguir
ni a quién decirle que me ame,
mis ojos miran la floresta
y estoy cansado y se hace tarde.

Quiero apenas una canción
que me traiga tus manos de hada
una canción para la vida
bajo esta llama de ciprés tan blanca.

Quiero vivir o morir, lo mismo
me debe ser la muerte que la vida.
¿Quisieras tú decirme la canción
de la esperanza o la desdicha?

Sólo te pido una palabra
y algo del cielo de tu música:
Aguardaré a la sombra de mi otoño
cubierto por las flores y la luna;

Estoy cansado de llamar
pero nadie me abre sus puertas;
acuérdate de mí en la noche
azucena de un valle que perdiera.

 

_
▪ Giovanni Quessep
(Colombia 🇨🇴)
in “Quiero apenas una canción – Antologia”, Universidad Externado de Colombia, Decanatura Cultural, Bogotá – Colombia, 2010

 

ALZHEIMER

A minha mãe com 99 anos
pergunta-me:
Quem és tu?
E deu-me uma laranja e colocou-a em cima
da minha mesa de cabeceira.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal 🇵🇹)
in “Nervo/4 – Colectivo de Poesia”, Editora: Maria F. Roldão

░ A SALADA COM MOLHO COR-DE-ROSA

1.
Conheci a Magda na praia
na praia é uma metáfora obscena
que como as outras metáforas obscenas
pode ser usada quer como eufemismo
quer como insulto
conheço por experiência própria
os dois usos da expressão
na praia

2.
Eu gosto de me fazer passar
por uma rapariga ordinária
a Magda era mesmo ordinária
a princípio era isto o que mais
me atraía nela depois foi isto
o que sobretudo me desgostou dela

3.
As minhas relações com a Magda
de deliciosas passaram a promíscuas
aconteceu-me
o que me tinha acontecido
quando comi salada com molho cor-de-rosa
ao princípio
a salada era deliciosa por causa do molho
depois comecei a perceber
que era mil vezes melhor
estar a comer os vegetais
sem molho do que com molho
o molho impedia-me de comer os vegetais
com gosto
desgostava-me da vida

4.
Vivia com a Magda
num quarto de duas camas
quando eu chegava ao quarto
a Magda estava deitada na minha cama
numa posição de Maja desnuda
mas vestida
o que ainda era pior
outras vezes encontrava-a
sentada na minha cadeira
a folhear os meus livros
e a chupar os dedos

5.
A Magda era uma intrusa
depois de ter sido um ser envoûtant
quer como intrusa
quer como ser envoûtant
ela era para mim
uma fonte de perturbação

6.
Eu não era casta
não porque me entregasse
com a Magda
(que era aliás uma praticante profissional do safismo)
a um prazer que alguns dizem vicioso
(só lhe toquei uma vez
sem querer
e pedi-lhe automaticamente desculpa)
mas porque com a Magda
não tinha prazer nenhum

7.
(Acho que o prazer é casto
o que não é casto
é o simulacro do prazer
ou a renúnica ao prazer
tanto o simulacro
como a renúncia)

8.
Um dia voltei ao quarto
e a Magda tinha desaparecido
sem deixar marcas
custou-me não encontrar
o chiqueiro próprio da Magda
os meus cigarros fumados
o meu cinzeiro cheio de beatas
sujas de bâton
(que me faziam lembrar
dentes cuspidos após uma briga)
o Las Moradas
antes do Calculus I
na minha estante
quando eu me habituei
a pôr esses livros por ordem inversa

9.
O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido

_
▪ Adília Lopes
(Portugal 🇵🇹)
in “Obra”, Mariposa Azual, Lisboa, 2000

Ninguém

Acordei toda a minha vida ao mesmo sonho
e a cada instante tive de inventar-me quem era eu.
Procurei-me sem paz, como a si procura um homem que guarda
enormes quantidades de ansiolíticos no fundo dos seus bolsos
e recomendações terapêuticas.
Mas apenas encontrava o horizonte alucinado
da psiquiatria a pôr ordem na minha alma, os paraísos químicos
como forma de encontrar a verdade,
os sonhos que se sonharam falsos ao serem sonhados e não quiseram existir.

Ah sim, sonhei-me sem trégua
como um mendigo de sensações impossíveis,
como alguém falho de amor que procura amor
e acaba a chorar debaixo da intempérie absurda
dos seus sentimentos. Como alguém que, debaixo dessa intempérie,
saiu de si com o seu psiquismo sozinho e se procurou
no outro, mas o outro não era nada:
só esse horizonte de sacos de lixo à beira de todos os caminhos
abertos no meu coração, e estabelecimentos alternativos
para a cura de qualquer cansaço e de qualquer metafísica,
estabelecimentos onde sempre se via um velho meditar
o seu suicídio enquanto acariciava
a tremer o colesterol da sua pança
debaixo de uma camisa Cacharel de contrafacção.

Espectador irónico de mim mesmo
nunca me conheci porque sempre duvidei que existisse.
E alguém alheio a mim representava essa doce mentira de visitar o mundo
e ver como a vida passa.
A complexa maquinaria de um pássaro cantava nos ramos de uma magnólia
como um profeta alucinado e não me revelava nenhuma verdade.
As dálias e os lilases, com os seus vastos perfumes industriais,
com as alterações genéticas da sua beleza
apareciam no sonho quotidiano do que era real para mim,
mas não significavam coisa nenhuma.
Diferentes mulheres, com diferentes personalidades, com diferentes vidas por detrás,
com símbolos diferentes do que poderia significar cada uma dessas vidas
mostravam-se nos diversos canais informativos
de uma loja de electrodomésticos
a falar das suas tragédias como belos fantasmas
sem que ninguém lhes prestasse nenhuma atenção.

Sempre o pó das coisas,
como um vasto nevoeiro, sem ir a parte alguma.
Sempre a irrealidade dos sentimentos,
a irrealidade das percepções
que revelam a tragédia de viver. Sempre o viver
como algo sem propósito, sem nexo.
Como algo emprestado e falso onde nos dias límpidos,
no sonho dos dias límpidos, se podia fingir uma cidade
e homens e talvez o alento de algo como a vida.

Por vezes um pintassilgo regressava ali de não sei onde
e a leveza do seu bico sobre as pétalas transmitia-me um pouco
de calor. Um calor de existência.
Por vezes surpreendiam-me os meus próprios gestos
como se por detrás de eles houvesse uma alma,
ainda um instante de alma, algum alívio.
Por vezes uma humilde primavera
apócrifa parecia despertar dentro de mim.
E das janelas dos edifícios
ou no vislumbre da velocidade dos carros
o sol arremedava vigiar os meus pensamentos.

Mas no fim sentia que em tudo aquilo não estava eu,
que no lado do mais além de todas as presenças
a luz era um regueiro de cinza,
o deserto puro da minha fantasia, a metafísica
do meu próprio cansaço. Alguém não me deu a claridade de visão
nem a mente clara para ver claras as coisas.
Alguém talvez não pôs em mi demasiada lucidez
para ver o mundo na sua infinita simplicidade:
a rosa como rosa, o sol como sol,
a terra como terra sem estar eu pelo meio.
Sem estar o sonho de mim a invadir tudo.
Sem estar este sonhado fantasma que me acompanha
e a que chamo o nome que outros me dão.

Sempre soube que nunca me conheci
pois também nunca pude conhecer o mundo.
Tive de inventar-me quem era para, de vez em quando,
me julgar em posse de um pouco de realidade.
Tive de possuir um pouco de realidade
para perceber a minha dimensão como homem:
esta alma suja de dor, estes envelhecidos olhos pela passagem das insónias.
Para perceber que entre conhecer-se e desconhecer-se
o melhor é esquecer-se de si mesmo.
Que para esquecer-me de mim apenas devia ser ninguém:
a nuvem de pó de um remoto e solitário caminho.

Tenho os meus próprios paraísos químicos aqui junto da lareira,
os meus dias e as minhas noites dedico-os a regressar a uma qualquer longínqua província
do silêncio onde possa encontrar dentro da minha loucura
um pouco de serenidade. Sim, hoje regressei ao sonho
da morte como outra invenção,
talvez como a única verdade dentro deste equívoco.

E o que não sei é se pode morrer um morte

 

_

▪️Diego Doncel 
(Espanha 🇪🇸 )
in “Em Nenhum Paraíso“, Editora Averno, Lisboa

*

Tradução – Joaquim Manuel Magalhães _ 🇵🇹 _ Ensaísta, poeta e professor catedrático.