MINA, 1004

Arder, eu vi minha avô arder.
Agosto. Chihuahua, 1963. Ela ardeu,
por fora e por dentro, ardeu na rua Mina, 1004.
Vi o meu pai envolvê-la num lençol, o colchão ardia;
as cortinas, a almofada, o seu vestido
enegreceram. Guardou tudo.
«Não façam barulho, a sua mãe está cansada.»
Vi-o sair de luto nessa tarde de agosto com a sua gravata negra.
Guardou-a. Guardou cinza e pranto.

O fumo da avô no saguão, as tias
sorvendo, ásperos, os grumos do café.

Era preciso apagar o escuro que doía,
dissolver o sal, o pranto, abraçar-se,
sufocar o tremor da viagem, ouvir
Paul Anka, por exemplo, à falta de pulsação,
riscar o disco de 45 rotações por minuto.

Por instantes vivia, por instantes
tudo ficou púrpura: a mulher, o
cansaço, a folhagem dos álamos. Depois
o vidro, o vidro no cedro,
o rosto queimado sob o fumo.

Também a minha mãe ardeu. O seu sorriso apagado entre lágrimas:
«Arranja-me o cabelo, disse-me, deixa-me sair para ver se já está
__ seca a roupa.»

Tive medo. De que os meus passos lentos não voltassem, da suavidade
da folha, do silencioso apodrecimento,
do peso ressequido da hera, já sem muro, da
jarra na cozinha, sem flores. Tive medo desse quarto cego com a sua
__ morte.
De mim mesma e da intrusão do vento
que levava consigo o pó dos sicómoros.

 

_
▪ Jeannette Lozano
( México 🇲🇽 )
in “Telhados de vidro, nº. 19, Editora Averno, Lisboa, 2014

*

Mudado para português por _ Inês Dias 🇵🇹  Poeta, Tradutora e Professora

 


 

MINA 1004

 

Arder, yo vi a mi abuela arder.
Agosto. Chihuahua, 1963. Ella ardió,
su fuera y su dentro, ardió en la calle Mina 1004.
Vi a mi padre envolverla en una sábana, el colchón ardía;
las cortinas, la alfombra, su vestido
ennegrecieron. Todo lo recogió.
«No hagan ruido, su madre está cansada.»
Lo vi salir de luto esa tarde de agosto con su corbata negra.
La recogió. Ceniza y llanto recogió.

El humo de la abuela en el zaguán, las tías
sorbiendo, ásperos, los grumos del café.

Había que borrar lo oscuro que dolía,
disolver la sal, el llanto, abrazarse,
sofocar el temblor del viaje, escuchar
a Paul Anka, por ejemplo, a falta de pulso,
rayar el disco de 45 revoluciones por minuto.

Por instantes vivía, por instantes
todo fue púrpura: la mujer, el
cansancio, las frondas de los álamos. Después
el vidrio, el vidrio en el cedro,
el rostro quemado bajo el humo.

También mi madre ardió. En lágrimas su sonrisa apagada:
«Arréglame el pelo, me dijo, déjame salir a ver si ya está seca la
__ ropa».

Tuve miedo. De que sus pasos lentos no volvieran, de la tersura
de la hoja, del sigiloso carcomer,
del reseco peso de la hiedra, ya sin muro, del
florero en la cocina, sin flores. De ese cuarto ciego con su muerte
__ tuve miedo.
De mí misma y el filtrarse del viento
que se llevaba el polvo de los sicomoros.

 

_
▪ Jeannette Lozano
( México 🇲🇽 )

 

SOUS LA NUIT

 

para Y. Yván Pizarnik de Kolikovski, meu pai

 

___ Os ausentes sopram cinzentamente e noite é densa.
A noite tem a cor das pálpebras do morto.
___ Fujo toda a noite, enceto a perseguição e a fuga, canto
um canto para os meus males, pássaros negros sobre mor-
talhas negras.
___ Grito mentalmente, o vento demente desmente-me,
confino-me, afasto-me da mão crispada, não quero saber
de mais nada senão deste clamor, este arquejar da noite,
esta errância, este não se encontrar.

___ Toda a noite faço a noite.
___ Toda a noite me abandonas lentamente como a água
cai lentamente. Toda a noite escrevo para procurar quem
me procura.
___ Palavra por palavra eu escrevo a noite.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
in “Antologia Poética”, Editora Tinta da China, Lisboa, 2020

*

Mudado para português por _ Fernando Pinto do Amaral  🇵🇹  Professor, Tradutor e Poeta

 

VISITA PRISIONAL

Amantes, vencidos, vilões,
a cidade está na rua
esta noite para admirar
um pôr de sol perfeito
hesitar sobre a prisão.
__________*

Quem prendemos nós?
Os cidadãos que nos desapontam?
Aqueles que nós decepcionamos?
__________*

O amor é poderoso
mas a vida é dura.
Na lama
por trás do muro da prisão —
algemas de brincar.

 

_
▪ Pat Boran
( Irlanda 🇮🇪 )
in “O Sussurro da Corda”, Edições Eufeme, Porto, 2018

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho Poeta 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático



PRISON VISIT

 

Lovers, losers, villains,
the town is out
tonight to watch
a perfect sunset
hesitate over the prison.
__________*

Who do we gaol?
The citizens who fail us?
The citizens we fail?
__________*

Love is powerful
but life is tough.
In the mud
behind the prison wall —
toy handcuffs.

 
_
▪ Pat Boran
( Ireland 🇮🇪 )

 

ALGUMA COISA NA BARRIGA

Eu queria escrever um poema e estava grávida. Estava muito magra. Como se vivesse de ar. Um poeta deve ser capaz de viver de ar, mas uma mãe nem deve tentar. A minha mãe queria que eu comprasse um conjunto de panelas de alumínio Wearever, iguais às que ela tinha. Eram pesadas e tinham tampas bem ajustadas, de forma que a comida não se queimaria. O meu marido queria que desse jantares de festa. John F. Kennedy corria para o escritório.

Eu senti o perigo. Kennedy não era contra a bomba ou pelo desarmamento nuclear. Juntei-me ao SANE no seu início. Também aos Cientistas Preocupados. Falei com Linus Pauling e incentivei o meu marido a ajudar o seu colega a organizar os Médicos para a Responsabilidade Social.

Tinha um bebé na minha barriga. Queria escrever poemas. Tinha a ideia maluca de que uma mulher poderia escrever um romance de verdade, daqueles que vão abalar o mundo. Tive alucinações de que uma mulher podia ser poeta, mas teria de ser livre. Eu não podia imaginar essa liberdade para mim, embora a pudesse ver na Isla Negra, enquanto seguia o Pablo Neruda. Eu podia reconhecê-lo na maneira como ele andava. Mesmo que estivesse a andar dentro de uma ditadura, entre armas, soldados e espiões, não havia nada entre ele e a sua visão. Qualquer coisa que visse, era capaz de apreendê-la, não havia nenhum olhar, nenhuma imagem, nenhuma visão a que ele não tivesse direito. No seu coração, tudo – tudo – lhe pertencia. Pablo Neruda era mais do que qualquer coisa – um poeta, e assim era um homem que tinha direito a tudo.

Eu era mulher e não tinha direito a nada. Eu não tinha nada além de um marido, uma casa alugada, um conjunto de panelas, móveis de sala, um frenesi de obrigações, cartões de crédito, parentes ansiosos, muitos conhecidos, um presente para um futuro serviço de fraldas, dois telefones, falta de tempo para ler, um livro de receitas embrulhado em plástico colhidas das páginas do New York Times, e uma fome, uma fome terrível pela inimaginável e ilimitada liberdade de ser poeta, e um bebé na minha barriga.

Teria telefonado ao Pablo (um telefonema de longa distância) se tivesse coragem, se soubesse falar espanhol fluentemente, se alguma vez tivéssemos falado de coisas reais. Mas, o que poderia saber um homem sobre um bebé na barriga? E o que importava se houvesse um poeta a mais ou a menos no mundo, quando tantos no seu país estavam a morrer?

Acordei uma manhã e pensei – Não posso ter esta criança. O meu marido disse, “Terás de arranjar trabalho a seguir ao parto, para podermos comprar uma casa. Vais precisar de um diploma avançado.” Pensei, eu não posso. Eu tenho de escrever poemas. A minha mãe encontrou um berço. Alguém o pintou de branco. Um amigo ofereceu-nos um espanta espíritos com mansos animais de madeira. Pensei em cortinas azuis, colchas e abortos.

Pablo permanecia silencioso. Caminhava longe de mim e eu não podia ouvi-lo. O meu marido opôs-se a prestar mais cuidados médicos gratuitos aos Panteras Negras. Tentei fazer trouxas a partir do zero e encontrei folhas de uva preservadas em salmoura no Boys’ Market a 30 km de distância. Organizei um movimento de escritores pela paz para desafiar o JFK. O meu marido achou que seria bom tomar chá com as crianças e termos jantares românticos sozinhos. Os novos frascos de leite alinhavam-se na pia como pequenas bombas. Os Estados Unidos estavam a realizar testes debaixo da terra; eu estava com medo que a radiação atravessasse a barreira do leite. Tinha um poema em mim uivando para a vida real, mas nenhuma linguagem para o escrever. O nevoeiro veio espesso, batendo ao redor dos meus pés como cobertores desenrolando-se. Fiquei com medo de ter uma filha.

Liguei para o Pablo Neruda a meio da noite, enquanto ele caminhava debaixo de água na Isla Negra. Movia-se como uma toninha de sonho. Parecia grávido de palavras. Saíam do seu pénis em longas e milagrosas cordas. As criaturas do mar tremiam de alegria. Eu disse, “Pablo, quero saber como carregar uma criança na minha barriga nesta cama de urânio e quero saber se uma mulher pode ser poeta.” Ele era grande como uma baleia. Bebeu o mar e jorrou-o em odes cintilantes, negras e lustrosas. Eu disse: “Não posso ter esta criança”, e ele riu como se nunca tivesse feito mais nada, além de carregar bebés e dar à luz .

Então arrumei a minha pequena mala como se fosse para o hospital e deixei um bilhete e as panelas Wearever e os mamilos esterilizados sobre os mísseis de vidro, e levei a mochila que um amigo índio me tinha me dado para transportar o bebé e que tinha feito o meu marido roncar- “Não vais carregar essa coisa nas costas, pois não?” Peguei em algum dinheiro, o carro, alguns livros, papel e canetas, os meus sapatos de caminhar, uma máquina de escrever elétrica da IBM, a minha barriga grávida e uma dúzia de fraldas de pano, e saí.

Eu sabia como carregar um bebé e como carregar um poema e iria aprender a dar à luz um bebé e até a dar à luz um poema. Teria leite suficiente para ambos. Aprenderia a andar com eles. Mas não sabia, e não queria saber, como ter um marido e um conjunto de panelas Wearever.

 

_
▪ Deena Metzger
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Editora Red Hen Press, 2009

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Médico



 

SOMETHING IN THE BELLY

 

I wanted to have a poem and I was pregnant. I was very thin. As if I’d lived on air. A poet must be able to live on air, but a mother must not attempt it. My mother wanted me to buy a set of matching pots, Wearever aluminum, like the ones she had. They were heavy and had well fitting lids so my suppers wouldn’t burn. My husband wanted me to give dinner parties. John F. Kennedy was running for office.

I sensed danger. Kennedy wasn’t against the Bomb or for nuclear disarmament. I joined SANE at its inception. Also Concerned Scientists. I spoke with Linus Pauling and encouraged my husband to help his partner organize Physicians for Social Responsibility.

There was a baby in my belly. I wanted to write poems. I had a crazy idea that a woman could write a real novel, the kind that shook the world. I hallucinated that a woman could be a poet, but she would have to be free. I couldn’t imagine that freedom for myself even though I could see it in Isla Negra when I followed Pablo Neruda. I could see it in the way he walked. Even if he were walking inside a dictatorship, among guns, soldiers and spies, there was nothing between him and his vision. Anything he saw, he was able to take into himself–there was no sight, no image, no vision to which he didn’t feel entitled. In his heart, everything–everything–belonged to him. Pablo Neruda was–more than anything–a poet, and so he was an entitled man.

I was a woman and entitled to nothing. I had nothing except a husband, a rented house, a set of pots, living room furniture, a frenzy of obligations, credit cards, anxious relatives, too many acquaintances, a gift of future diaper service, two telephones, no time to read, a plastic wrapped cookbook of recipes gleaned from the pages of the New York Times, and a hunger, a terrible hunger for the unimaginable, unlimited freedom of being a poet, and a baby in my belly.

I would have called Pablo long distance if I had the courage, if I had the ability to speak Spanish fluently, if we had ever talked about real things. But, what would a man know about a baby in the belly? And what did it matter if there were to be one poet more or less in the world when so many in his country were dying?

I woke up one morning and thought–I can’t have this child. My husband said, “You’ll have to get a job after it’s born so we can buy a house. You’ll need an advanced degree so you can do something.” I thought, I can’t. I have to write poems. My mother found a crib. Someone painted it white. A friend sent a pastel mobile with tame wood animals. I thought about blue curtains, making bedspreads, and abortions.

Pablo was silent. He was walking so far from me, I couldn’t hear him. My husband objected to donating more free medical care to the Black Panthers. I tried to make dolmades from scratch and located grape leaves preserved in brine at the Boys’ Market twenty miles away. I organized a write-in campaign for peace to challenge JFK. My husband thought it would be nice to have teatime with the children and romantic dinners by ourselves. The new formula bottles lined up on the sink like tiny bombs. The U.S. was pursuing over ground testing; I was afraid the radiation would cross the milk barrier. I had a poem in me howling for real life but no language to write in. The fog came in thick, flapping about my feet like blankets unraveling. I became afraid to have a daughter.

I called Pablo Neruda in the middle of the night as he walked underwater by Isla Negra. He moved like a dream porpoise. He seemed pregnant with words. They came out of his penis in long miraculous strings. The sea creatures quivered with joy. I said, “Pablo, I want to know how to bear the child in my belly onto this bed of uranium and I want to know if a woman can a be a poet.” He was large as a whale. He drank the sea and spouted it in glistening odes, black and shiny. I said, “I can’t have this child,” and he laughed as if he had never done anything but carry and birth children.

So I packed my little bag as if I were going to the hospital and I left a note and the Wearever pots and sterilized nipples upon the glass missiles, and took the cradle board that an American Indian friend had given me for the baby and that had made my husband snort– “You’re not going to carry the thing on your back, are you?” I took some money, the car, some books, paper and pens, my walking shoes, an unwieldly IBM electric typewriter, my pregnant belly and a dozen cloth diapers, and I went out.

I knew how to carry a baby and how to carry a poem and I would learn how to have a baby and even how to have a poem. I would have enough milk for both. I would learn how to walk with them. But I didn’t know, and I didn’t want to know, how to have a husband and a matched set of Wearever pots.

 

_
▪ Deena Metzger
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Red Hen Press, 2009

 

ALVOS

Eu não vou dar um tiro
na cabeça, não vou dar um tiro
nas costas, não me vou enforcar
com um saco do lixo, e se o fizer,
prometo-te, não o fazer
num carro da polícia, algemado,
ou na cela da prisão de uma cidade
de que só sei o nome,
porque tenho de atravessá-la
para chegar a casa. Sim, eu posso estar em risco,
mas prometo-te, confio mais nos vermes
que vivem por baixo do soalho
da minha casa para fazerem o que devem
a qualquer carcaça, do que confio
num representante da lei
para me fechar os olhos como um homem
de Deus, ou para me cobrir com um lençol
tão limpo que a minha mãe poderia tê-lo usado
para me aconchegar. Quando me matar, vou
fazê-lo como a maioria dos americanos,
prometo-te: fumo de cigarro
ou engasgar-me com um pedaço de carne
ou sem dinheiro, congelado,
num desses invernos que recordamos
como o pior dos invernos. Prometo-te, se ouvires dizer
que morri em qualquer lugar perto
de um polícia, foi esse polícia que me matou. Retirou-me
do meio de nós e deixou o meu corpo, que vale mais,
não importa aquilo que nos ensinaram,
do que a indemnização
que uma cidade pode pagar a uma mãe para ela parar de chorar,
e é mais bonito que a nova bala
pescada entre as circunvoluções do meu cérebro.

 

_
▪ Jericho Brown
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “The Tradition”, Copper Canyon Press, 2019

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

Bullet Points

 

I will not shoot myself
In the head, and I will not shoot myself
In the back, and I will not hang myself
With a trashbag, and if I do,
I promise you, I will not do it
In a police car while handcuffed
Or in the jail cell of a town
I only know the name of
Because I have to drive through it
To get home. Yes, I may be at risk,
But I promise you, I trust the maggots
Who live beneath the floorboards
Of my house to do what they must
To any carcass more than I trust
An officer of the law of the land
To shut my eyes like a man
Of God might, or to cover me with a
sheet
So clean my mother could have used it
To tuck me in. When I kill me, I will
Do it the same way most Americans do,
I promise you: cigarette smoke
Or a piece of meat on which I choke
Or so broke I freeze
In one of these winters we keep
Calling worst. I promise if you hear
Of me dead anywhere near
A cop, then that cop killed me. He took
Me from us and left my body, which is,
No matter what we’ve been taught,
Greater than the settlement
A city can pay a mother to stop crying,
And more beautiful than the new bullet
Fished from the folds of my brain.

 

_
▪ Jericho Brown
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Tradition”, Copper Canyon Press, 2019

SEGREDO DE UM CAMPONÊS

Queimei uma vela de sebo por cada
árvore da floresta
e por cada noite de insónia
a céu aberto
Lancei uma pedra à água
por cada nuvem no céu
e por cada espiga nas searas
Forjei uma ferradura por cada
barco no lago
e por cada ano que vivi

Ainda há tanto que esperar
Ainda há tantos enigmas por resolver.

 

_
▪ Tor Ulven
( Noruega 🇲🇨 )
in “DiVersos – Poesia e Tradução”, nº. 17, Edições Sempre-Em-Pé, 2012

*

Mudado para português por _ José Carlos Marques; Pedro Fernandes e Sérgio Madeira Lopes 🇵🇹



BONDENS HEMMELIGHET

 

Jeg har brent ett talglys for hvert
tre i skogen
og for hver søvnløse natt
under åpen himmel
Jeg har kastet èn stein i vannet
for hver sky på himmelen
og for hvert aks i åkeren
Jeg har smidd èn hestesko for hver
båt på innsjøen
og for hvert år jeg har levd

Ennå er det lenge å vente
Ennå finnes mange uløste gåter

 

_
▪ Tor Ulven
( Norge 🇲🇨 )

RECADO DA PESTE

Está em todos os jornais, cotação do
dólar, temperatura Fahrenheit, vítimas
da cólera (soma e segue, para trás,
apenas as últimas semanas dos últimos séculos).
Há um estado de emergência, e se andam à nossa procura
é porque não fazemos parte desta podridão.
É o rancor de não haver remédio, de não saber
que verbos inventavas de boca para cima quando nos desfazíamos
só para voltarmos a refazer-nos, e aceitávamos, porque éramos dois,
o desafio.
Quão difícil, na tenacidade
do contágio, ser o último casal da terra:
aqui somos o assunto de muitíssimas pessoas
que comunicam por sinais, por telefone, que espiam
às portas, que retiram os letreiros, que tocam
para o quarto andar, que nos gritam que abandonemos
o barco em que nos salvávamos, e nos afundemos
num outro, aos poucos, abraçando-nos
gastando-nos, até os nossos ossos tocarem os nossos ossos.
Depois foste a horizontal leoa quieta.
Eu dedicava-me ao meu trabalho: voltar a pôr-te,
como se fosse uma meia, o esquecimento que a noite te roubou
e a ternura que às vezes não encontravas
entre os outros que não te diziam respeito.
Mas a carreta veio buscar-te, com seus cavalos regulamentares
e levou-te, finalmente contaminada, finalmente caída,
oh minha louca de sémen, transformada em senhora honrada
ou dama morta, e o cimento implacável
das boas maneiras vai tapando as tuas enseadas
e há um corvo fúnebre em tua memória. Como foste capaz?
Se estivéssemos no meu país, poderíamos
pelo menos chorar, pôr um disco, gozar com
o governo, mas aqui não há ninguém
para nos fazer rir ou dar-nos de beber no teu velório.
Mas então a morte já não vale a pena.
Talvez esteja fora de moda.
(Também a vida, nesta aldeia grega).

 

_
▪ Jorge Enrique Adoum
( Equador 🇪🇨 )
in “El tiempo y las palabras”, Editoriaĺ Libresa, Quito – Ecuador, 1992

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

 



 

RECADO DE LA PESTE

 

312. Está en todos los periódicos, cotización
del dólar, temperatura Fahrenheit, víctimas
de cólera. (Suma y sigue, para atrás,
las últimas semanas de estos siglos solamente).
Hay estado de emergencia y si nos buscan
es porque no somos de esta podredumbre.
Es el rencor de no tener remedio, de no saber
qué verbos inventabas boca arriba cuando nos deshacíamos
sólo para rehacernos, y aceptábamos, porque éramos dos,
el desafío.
Qué difícil, en la tenacidad
de su contagio, ser la última pareja de la tierra:
aquí ambos somos asunto de muchísimas personas
que se entienden por señas, por teléfono, espían
por las puertas, descuelgan los letreros, llaman
al cuarto piso, gritan para que abandonemos
el barco en que nos salvábamos hundiéndonos
en el otro por mitades, gastándonos abrazándonos
hasta que toquen nuestros huesos nuestros huesos.
Después ya fuiste la horizontal leona quieta.
Yo estaba entregado a mi trabajo: reponerte
como una media el olvido que te quitó la noche
y la ternura que a veces no encontrabas
entre las otras tú que no te incumben.
Pero vino la carreta por ti, con caballos legales,
y te llevó, al fin contaminada, al fin caída,
oh mi loca de semen, en señora honorable
o dama muerta, y el cemento implacable
de las buenas costumbres va tapiando tus abras
y un cuervo funeral en tu memoria. Cómo puedes.
Si estuviéramos en mi país podríamos
por lo menos llorar, poner un disco, carajear
al gobierno, pero aquí no queda nadie
para darnos de reír o de beber en tu velorio.
Pero entonces la muerte ya no vale la pena.
Quizá la muerte es algo que ya pasó de moda.
(También la vida, en esta aldea griega).

 

_
▪ Jorge Enrique Adoum
( Ecuador 🇪🇨 )
in “El tiempo y las palabras”, Editoriaĺ Libresa, Quito – Ecuador, 1992

 

OBRIGADA POR TEREM AGUARDADO

Senhores passageiros, vamos dar início ao embarque.
Neste momento convidamos somente os passageiros de Primeira Classe.

Obrigada por terem aguardado. Convidamos agora a embarcar
os passageiros Membros Corporativos Exclusive, Superior, Privilege e Excelsior,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Platina triplo, duplo ou single,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Gold e Silver,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Coral Club.
Podem embarcar igualmente militares que se apresentem devidamente fardados.

Obrigada por terem aguardado. Convidamos agora
a embarcar os passageiros Membros Corporativos Bronze Alliance e os passageiros
que se inscreveram no nosso sistema de pontos Metais Raros e no Esquema de Gratificações, e obrigada por terem aguardado.

Obrigada por terem aguardado. Gente Reconhecida e Comprovadamente Bela
pode agora embarcar, bem como os cavalheiros que tragam consigo uma cópia
da revista Cigar Aficionado, bem como os passageiros que subscreveram
a nossa promoção Diamante Vermelho, Opala Negra, ou Granada Azul.
Podem embarcar agora os passageiros com cartões Safira, Rubi e Esmeralda,
seguidos dos passageiros com cartões Ametista, Onix, Obsidiana, Azeviche,
Topázio e Quartzo. Podem também embarcar agora os clientes cuja tarifa lhes dá direito à Fast Track ou à Faixa de Embarque Prioritário, os passageiros das Elites Eleitas, os clientes com Acesso Preferencial e os Primeiros Entre os Iguais.

Convidamos também a embarcar os passageiros com comprovativo
de elegância e um valor mínimo de dez mil dólares americanos,
vestindo peças de estilistas e/ou fatos de alfaiate;
convidamos também a embarcar os passageiros que tenham peças de joalharia
(incluindo relógios de pulso) com preço de venda a retalho
superior ao salário anual médio
de um professor do ensino secundário a meio da carreira.
Podem também agora embarcar os passageiros que falem alto
aos telemóveis sobre vendas de acções recentemente concluídas,
compra de imóveis e aquisições agressivas,
bem como gestores de fundos de investimento com comprovado registo
no enfraquecimento de pequenas ou médias ambições.
Podem também embarcar agora os passageiros nas classes
Argila, Calcário, Marga e Barro. Os passageiros que adquiriram
os nossos pacotes Dignity ou Orquídea da Manhã
podem recolher os seus fatos de treino desinfectados antes do embarque.

Obrigada por terem aguardado.
Convidamos agora a embarcar os passageiros medíocres,
seguidos dos passageiros a quem falta perspicácia empresarial
ou potencial para genuína liderança, seguidos da gente
com pouca ou nenhuma importância, seguidos de gente
que funciona como gente em perda fiscal.
Os passageiros com bilhetes para as zonas Ferrugem, Serradura, Papelão,
Poça e Areia podem agora começar a reunir os seus
pertences e migalhas e preparar-se para o embarque.

Pedimos aos passageiros parcial ou totalmente dependentes da
assistência social ou da bondade que validem os seus cupões de viagem
junto do Balcão da Quarentena.

Suor, Pó, Reles, Caspa, Fezes, Palha, Restos,
Cinza, Pus, Lama, Tijolo, Farpa e Fuligem;
podem todos embarcar agora.

 

_
▪ Simon Armitage
(Inglaterra 🇬🇧)
in “The Unaccompanied”, Editora Faber & Faber, London, 2018

*

Mudado para português por _ Ana Luísa Amaral 🇵🇹 Poeta, tradutora e professora



 
THANK YOU FOR WAITING

 

At this moment in time we’d like to invite
First Class passengers only to board the aircraft.

Thank you for waiting. We now extend our invitation
to Exclusive, Superior, Privilege and Excelsior members,
followed by triple, double and single Platinum members,
followed by Gold and Silver Card members,
followed by Pearl and Coral Club members.
Military personnel in uniform may also board at this time.

Thank you for waiting. We now invite
Bronze Alliance Members and passengers enrolled
in our Rare Earth Metals Points and Reward Scheme
to come forward, and thank you for waiting.

Thank you for waiting. Accredited Beautiful People
may now board, plus any gentleman carrying a copy
of this month’s Cigar Aficionado magazine, plus subscribers
to our Red Diamond, Black Opal or Blue Garnet promotion.
We also welcome Sapphire, Ruby and Emerald members
at this time, followed by Amethyst, Onyx, Obsidian, Jet,
Topaz and Quartz members. Priority Lane customers,
Fast Track customers, Chosen Elite customers,
Preferred Access customers and First Among Equals customers
may also now board.

On production of a valid receipt travellers of elegance and style
wearing designer and/or hand-tailored clothing
to a minimum value of ten thousand US dollars may now board;
passengers in possession of items of jewellery
(including wristwatches) with a retail purchase price
greater than the average annual salary
of a mid-career high school teacher are also welcome to board.
Also welcome at this time are passengers talking loudly
into cellphone headsets about recently completed share deals
property acquisitions and aggressive takeovers,
plus hedge fund managers with proven track records
in the undermining of small-to-medium-sized ambitions.
Passengers in classes Loam, Chalk, Marl and Clay
may also board. Customers who have purchased
our Dignity or Morning Orchid packages
may now collect their sanitised shell suits prior to boarding.

Thank you for waiting.
Mediocre passengers are now invited to board,
followed by passengers lacking business acumen
or genuine leadership potential, followed by people
of little or no consequence, followed by people
operating at a net fiscal loss as people.
Those holding tickets for zones Rust, Mulch, Cardboard,
Puddle and Sand might now want to begin gathering
their tissues and crumbs prior to embarkation.

Passengers either partially or wholly dependent on welfare
or kindness, please have your travel coupons validated
at the Quarantine Desk.

Sweat, Dust, Shoddy, Scurf, Faeces, Chaff, Remnant,
Ash, Pus, Sludge, Clinker, Splinter and Soot;
all you people are now free to board.

 

_
▪ Simon Armitage
(England 🇬🇧)
From “The Unaccompanied”, Faber & Faber, London, 2018
 

O PRISIONEIRO DO TEMPO

Começou porque me limitavam os anos,
doze anos, quinze anos, vinte anos…
Eram limites, eram fronteiras suportáveis:
o ano que vem, quando cumprir trinta anos,
o ano passado, o ano novo…
Eram limites amplos,
era possível a distância, o horizonte,
por muitos anos! Os espaços
dominavam o tempo
recebias a aurora, despedias a tarde
amplamente e amavas
docemente os sonhos.
Os anos eram os carcereiros
mas rondavam muito distanciados.
Havia quem vivesse cem anos!
Mais tarde, começaram os meses a limitar-me,
apareciam subitamente, tudo era muito distinto,
o tempo dominava os espaços,
era um limite mais pesado,
estavam mais próximos os carcereiros,
eram carcereiros!:
o mês que vem, dentro de uns meses,
oprimiam-me os meus próprios limites,
originava limites!
Que terá sido daquelas agradáveis distâncias,
há tempo pela frente, dizia,
quando me limitavam os anos.
Agora olhava com receio todas as coisas,
nove meses, três meses, um mês de prazo,
meses, meses voando sobre os sonhos.
E as semanas?
Deixaram os meses de cingir-me
e um novo limite controlava-me, uma nova medida
estendida por todo o mundo,
cobrindo de miragens todas as suas galerias.
Contava a vida por semanas,
semana atrás de semana.
Os carcereiros eram os oficiais de semana,
distraíam-me, envolviam-me nas verdades falsas,
a próxima semana, dura muito pouco uma semana,
a semana santa,
o meu mundo era a semana, a realidade era a semana,
a semana, só existia a semana.
Que era um mês senão quatro semanas
e que era um ano senão cinquenta e duas semanas…
E contava as semanas
e via a humanidade ansiosa
forçada à semana, vivendo para o fim de semana, vivos, livres
só o fim de semana.
Depois foram os dias,
comecei a contar os dias
sobressaltaram-me os dias,
era questão de dias,
pesavam enormemente os dias
e desejava por sua vez que passassem os dias
e que não passavam…
Aferrava-me aos dias, bons dias!,
o dia estava ali, era um carcereiro inamovível, omnipresente,
tudo mediam em dias.
Não era livre! Não podia ser livre!
O dia da minha boda, o dia da minha licenciatura em filosofia,
apenas um vazio para a minha aventura,
apenas ficava espaço e eu necessito de espaço, muito espaço,
não podia sair dos dias,
um dia e outro dia,
o dia das forças armadas, amanhã será outro dia,
outro dia!
Crescia a muralha dos dias,
o circo dos dias, um dia comia o outro dia,
os limites eram insustentáveis,
dias de jejum, dias de alegria,
mas tudo medido, era preciso obedecer ao dia,
despertar ao despertar o dia,
dormir ao dormir o dia,
a ordem do dia!
um dia é um dia, nos próximos dias…
agora, enquanto escrevo este poema,
já não conto os dias senão as horas,
faltam três horas, dura quatro horas,
que horas são, a que horas…
Os carcereiros converteram-se na minha sombra,
apenas falo, as horas confundem-se e confundem-me,
limites, limites, a tarde, a manhã, o meio-dia,
uma hora cai sobre outra hora, vence a outra,
uma hora é como outra hora,
hora adiantada, horas extraordinárias,
faz horas extraordinárias!,
a dança das horas, horas perdidas, o recorde da hora,
não somos seres, somos horas, corda de horas,
uma cada duas horas, quase seis horas,
e sonham as horas e já só podes ouvir as horas,
e tudo há-de mover-se num horário,
tudo há-de estar à hora,
tudo tem a sua hora,
quantas das minhas horas são horas minhas,
meia-hora, um quarto de hora, a hora!
Destrói-me pensar que nasci para as horas,
abro as mãos e tenho-as cheias de horas.
Ah, carcereiros, horas terríveis que nublais os meus olhos!:
dentro, levo-vos dentro, estou cheio de carcereiros, de sombras.

Não quero nem pensar como será a minha vida
quando ela depender dos minutos, quando
forem eles os meus carcereiros e não existam
os espaços, os sonhos, as dúvidas,
quando o meu corpo for uma garagem de minutos,
minutos, minutos, não tenho nem um minuto, só cinco minutos,
tudo sucederá em minutos, que fará de mim a fúria dos minutos,
quando não puder perder nem um minuto,
que humilhação me aguarda quando na minha vida
só se movam as agulhas dos minutos
que espaço pode haver entre minuto e minuto.
Que escura noite havia em vós, meses, anos,
e que traição os vossos espaços!
Éreis minutos, minutos, só minutos!
Que o mundo se afunde será questão de minutos!
Finalmente, finalmente, ah, finalmente,
quando apenas um sopro alente os meus sentidos
e só existam os segundos, sejam os segundos
os que cingem o meu corpo, a minha vida,
todo o meu ser um carcereiro monstruoso, uma áspide, uma víbora
destruindo os últimos reflexos,
todo o mundo um carcereiro horrível,
e quando todos forem fantasmas e as ideias se converterem em nuvens
e os sentidos em cavernas
e nos últimos segundos
passem os anos, os meses, os dias e as horas
convertidas em ar
e se encerrem os meus olhos e o rosto sem vida
riam como nunca por todos os abismos do mundo,
como desejarei continuar prisioneiro do tempo
como amarei o tempo – eu era tempo, doloríssimo tempo! -,
como amarei os limites – somente eles não estavam mortos -,
os anos e os meses,
os dias e as horas e os minutos,
todos os limites do mundo.
Como me arrancará a eternidade do tempo!

 

_
▪ Jesús Lizano
(Espanha 🇪🇸 )
in “O Engenhoso Libertário – Breve Antologia Poética de Jesús Lizano“, com organização, tradução e prefácio de Carlos d’Abreu, Douda Correria, Lisboa, 2015