A EDUCAÇÃO COMO PROTECÇÃO CONTRA A MANIPULAÇÃO

Noam Chomsky, linguista marcante, analista empenhado, co-assinou um artigo sobre os desenvolvimentos mais recentes da IA, que saiu no jornal New York Times. Eis o que disse  sobre a importância crucial da educação face a esses desenvolvimentos.

«É impossível travar os sistemas», avisa ele, que não assinou a carta em que especialistas de todo o mundo pediram uma moratória no desenvolvimento de IA.
Explica por quê: «A única maneira [de controlar a evolução tecnológica] é educar as pessoas para a autodefesa. Levar as pessoas a compreender o que isto é e o que não é.»
«Falta educação, e essa educação, essa proteção, era o que se fazia quando se tinham organizações que representavam as pessoas».
«Este é o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi. A azáfama em torno da IA faz com que as pessoas também comecem a estar dessensibilizadas em relação aos riscos (…)»
«Fazer com que as pessoas compreendam que há mais coisas do mundo além das fantasias na Internet.

Há situações cada vez mais preocupantes. Recentemente foi publicado um estudo, nos EUA, sobre a Geração Z, crianças que nasceram depois de 1997, e a forma como encontram informação sobre o mundo. Quase ninguém lê jornais ou vê televisão. Muito poucos vão ao Facebook, porque já é antiquado. Imaginem o que é ter uma geração inteira a criar a sua visão do mundo através do que se vê no TikTok? Estamos falando da possibilidade de perdermos uma geração.»”

 

LOS AMANTES

Con la carne en paz se miran
los amantes;
traen de otros aires la levedad
del tiempo.
Se miran sorprendidos
el perfil
ante el espejo
que envejeció de pronto.

Algo se quiebra ante sus ojos:
ella se cubre,
él inicia la fuga
sin moverse.

 

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▪ Antonio Aliberti
( Argentina 🇦🇷 )

 

Vivi em amor e não no tempo

Quando a morte chegar e sussurrar:
“Os teus dias chegaram ao fim”,
vou dizer-lhe: “ Vivi em amor
e não no tempo.”
Se ela perguntar: “ E as tuas canções sobreviverão? “
Responderei: “ Não sei, mas de uma coisa tenho a certeza,
é que quando canto, encontro a minha eternidade.”

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▪ Rabindranath Tagore
( Índia 🇮🇳 )
Mudado para português por José Agostinho Baptista

Bebendo vinho com alguns contemporâneos

Os malefícios da multidão.
As sequóias sequiosas na sequência das secas.
As consequências de um choro na configuração do rosto.
A erva destrói o exterior da moradia.
O tédio é fraca compensação dos compromissos.

Que dizeis a este fim de caminho, onde o escritor recupera
a verdadeira solenidade da Afirmação?
Não conheço outro modo de escrever, isto é,
de substituir ao arrojo invertebrado da juventude
a coragem de uma lúcida conveniência. Assim,
renuncio ao pessimismo em proveito de outros sentimentos
mais fecundos – o nojo, o orgulho, o desejo nunca satisfeito.

Se acaso me ouvis
– não terei eu razão?

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

AFORISMOS DE JOSÉ SESINANDO

 

– Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.

– Os terroristas raciocinam por explosão de partes.

– Vá de metro, Satanás!

– Os conferencistas ateus não têm Papas na língua.

– Sabe onde é que Alberto moravia?

– Quem não tem Rolls rói-se.

 

▪ José Sesinando, o outro nome de José Palla e Carmo (1923‑1995)
(Portugal 🇵🇹 )

QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ

Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exacto de
onde pudesse explorar sua profundidade.

Foi diferente com as pessoas:
Construi-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,
por vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.

 

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▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
Poesia mudada para português por João Luis Barreto Guimarães

Estou, afinal, perto do mar e da sua ciência. Ninguém pode exigir ao mar que traga todos os barcos, ou ao vento, que encha todas as velas. De igual modo, ninguém tem o direito de me exigir que viva prisioneiro de certas funções. A minha divisa não é o dever antes de tudo, mas a vida acima de tudo. Como os outros homens, tenho direito a alguns momentos em que possa sentir-me à parte, em que possa saber que para além de pertencer a essa massa anónima chamada população mundial, sou também uma unidade autónoma.
Só nesses instantes me liberto de tudo o que na minha vida foi causa de desespero. Reconheço que o mar e o vento não deixarão de me sobreviver e que a eternidade nem sequer de mim se lembra. Por que me hei-de eu lembrar dela? A vida só é curta se a coloco no patíbulo do tempo.
As suas possibilidades só são ilimitadas se me ponho a contar o número de palavras ou livros que a morte me dará ainda tempo de acender. Mas por que me hei-de eu pôr a contar? No fundo, o tempo de nada serve, inútil instrumento de medida que só regista o que a vida já me trouxe.
Na verdade nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de
uma criança, o frio gume da beleza- nada disso tem horas ou minutos.
Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não só se situa à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.
Assim, num só movimento, liberto os ombros do peso de dois fardos : o tempo e as tarefas que teimam em me exigir. Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana- força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos.
Evidentemente que o faz – mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver? Faz máquinas? Escreve livros?
Faça o que fizer, poderia muito bem fazer outra coisa. Não é isso que importa.
Importa é saber-se livre como qualquer outro elemento da criação.
Importa é saber-se um fim autónomo, que repousa em si mesmo como uma pedra sobre a areia.

 

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▪ Stig Dagerman
( Suécia  🇸🇪 )
in “A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer”, Editora Fenda, 2004