Depois de Roma ter ardido
e de tu teres ardido com ela
não esperes de mim
que te escreva um poema para te chorar
eu não estou acostumado
a chorar pássaros mortos
–
▪Nizâr Qabbânî
(Síria 🇸🇾)
Mudado para português por André Simões
Depois de Roma ter ardido
e de tu teres ardido com ela
não esperes de mim
que te escreva um poema para te chorar
eu não estou acostumado
a chorar pássaros mortos
–
▪Nizâr Qabbânî
(Síria 🇸🇾)
Mudado para português por André Simões
Li por crises. Algumas duraram dois anos. Nesses casos, era obrigada a ler de dia nas grandes bibliotecas universitárias de Paris. É caso para perguntar por que aberração as grandes bibliotecas públicas estão fechadas de noite. Raramente li em praias e jardins. Não se pode ler com duas luzes simultâneas, a do dia e a do livro. Lê-se à luz eléctrica, com o quarto na penumbra, apenas a página iluminada.
–
▪Marguerite Duras
(Vietname 🇻🇳 )
in “O Mundo Exterior”
Tradução de Clarisse Tavares
A minha sombra acompanha-me
agora à minha frente
agora ao meu lado
agora atrás de mim.
Que alívio
estes dias cobertos de nuvens!
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▪ Abbas Kiarostami
(Irão 🇮🇷 )
Traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard
O Tio Knut era padre.
Era um homem prático, mas para ele
o Latim era Grego.
Morreu depois da reforma, estava
a escavar o local para a sua casa nova
quando o coração deu de si.
Mais um electricista
que um pregador, começava sempre a homilia
dizendo: “Não sou muito de discursos”
e quanto a isso estava certo.
Realmente não tinha muito a ensinar
aos paroquianos, eles tinham seus próprios problemas
com os nascimentos, o amor, com as mortes,
e ele não possuía palavras para tais coisas.
Mas aprendera como consertar
fios eléctricos e visitava as gentes em suas casas
e reparava curtos-circuitos e caixas
de fusíveis com defeito, atarraxava lâmpadas no sítio
e onde quer que ele tivesse estado, havia luz.
_
▪ Knut Ødegård
(Noruega 🇳🇴)
Mudado para português por João Luis Barreto Guimarães
Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas,
se encostar ao teu pulso o meu ouvido,
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
eu não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
_
▪ Maria do Rosário Pedreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia Reunida, Quetzal, 2012“
Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.
_
▪ Miren Agur Meabe
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por João Barreto Guimarães
Há gestos que são cheios de astúcias,
mas são gestos tristes e sem grandeza
congeminam-se todas as minúcias
de que precisa uma boa defesa.
E trai-se um amigo, sendo preciso,
porque mais precisa é ainda a glória:
o amigo que tivesse juízo
e pensasse melhor na trajectória!
A glória não prevê delicadezas
e ganha-se, mesmo que seja a murro.
Não dá para pruridos de inteireza
e finge-se, se preciso, de burro.
A glória não se importa com mãos sujas
e acha úteis palavras sabujas!
_
▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )
Ainda não enlouqueci e julgo-me até
capaz de reconhecer a beleza, quando a vejo.
Esta noite, por exemplo, era de prata,
sonora, o mar que se erguia na varanda do hotel.
Acordei-te; és agora a única testemunha
deste poema – e da minha vida.
Antes, logo de manhã, coube-nos lançar
ao mar as cinzas do meu pai.
Não foi fácil, tecnicamente falando.
A tampa de metal teimava em não abrir,
tivemos de recorrer a uma ponta de corrimão
das escadas velhas do Forte. E assim,
sem preparo nem rigor, há-de chegar ao oceano
o que sobrou, fisicamente, do meu pai.
Custou-me lavar as mãos, sujas
– pela última vez – da carne que me gerou.
A alma, se existe, não a sei lavar, embora
as lulas estufadas e o vinho branco
voltassem a tornar recomendável a Casa Pires.
Adeus, pai. Acho que foi mesmo
a única vez que me sujaste as mãos.
_
▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in ” Muito raramente, duas vozes se encontram tão perto do silêncio”
Alto, esguio, talvez uns trinta anos,
completamente cego,
resiste à indiferença das ruas.
Agora, acompanhado por um jovem,
caminha neste mundo sombrio.
A minha voz,
saída dos escombros de uma guerra fria,
ouviu-se desolada e triste:
“bom dia.”
Passámos alguns segundos quietos
a ouvir o som um do outro.
Quem éramos afinal neste encontro?
Que armas trazíamos?
Quem era o que matava e o que foi morto?
-pouco mais haveria a dizer –
Ouviu-se, no fim da rua :
“Adeus! Até à próxima.”
Um cão – de um castanho escuro –
parecia não se importar muito.
_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in ” A casa da memória”
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