A cidade

A ambulância atravessa a cidade
com uma pedra na boca
uma pedra com uma guerra dentro
uma pedra que atravessa o deserto do corpo
uma pedra maior que a própria cidade

uma mulher com uma cadeira de pano
numa rua qualquer
de rosto tapado pelos cabelos grisalhos
ignora quem passa

aos pés uma bagagem de pedras
ou quem sabe de armas

– não me digam para lhes contar –

morreu no deserto
crescem-lhe pedras no crânio

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Livro do absurdo”



🇮🇹

 

░  LA CITTÀ

 

L’ambulanza attraversa la città
con una pietra in bocca
una pietra con una guerra dentro
una pietra che attraversa il deserto del corpo
una pietra più grande della stessa città

una donna con una sedia di stoffa
in una via qualunque
il volto coperto dai capelli ingrigiti
ignora chi passa

ai piedi una valigia di pietre
o chissà di armi

– non ditemi di raccontarvelo –

è morta nel deserto
le crescono pietre sul cranio

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Livro do absurdo”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ 🇮🇹 tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 

 

░ LOUVOR DO LIXO

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer ao pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

 

_
▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
in “A mulher-a-dias”, Editora & etc, Lisboa, 2002

 

 

Mês de maio

Escrevo, escrevo, escrevo
e não conduzo a nada, a ninguém.
As palavras debandam ao me ver
como pombas, surdamente crepitam,
arraigam-se em seu torrão escuro,
se prevalecem com escrúpulo fino
do inegável escândalo:
sobre a imprecisa escrita sombra
mais me importa amar-te.

 

_
▪ Ida Vitale
( Uruguai 🇺🇾 )
in “Oidor andante” 1972, Arca Editorial, Uruguai

*

Mudado para português por _ Gustavo Petter _ Poeta, Tradutor, Professor / Araçatuba/SP, Brasil
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

Mes de mayo

 

Escribo, escribo, escribo
y no conduzco a nada, a nadie.
Las palabras se espantan de mí
como palomas, sordamente crepitan,
arraigan en su terrón oscuro,
se prevalecen con escrúpulo fino
del innegable escándalo:
por sobre la imprecisa escrita sombra
me importa mas amarte.

 

_
▪ Ida Vitale
( Uruguai 🇺🇾 )
De “Oidor andante” 1972, Arca Editorial, Uruguay

░ Pedido

__________________A Manuel Bandeira

Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

_
▪ Olga Savary
( Brasil 🇧🇷 )
in “Obra Poética Reunida”, MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro, Brasil, 1998

░ L’amour est comme deux montagnes

L’amour est comme deux montagnes en collision
Et est ainsi que quelqu’un meurt.
Je connais une femme petite et triste
qui joue de la flute dans l’océan.
Elle est descendante des eaux qui se renversent
étant emmenée par le vent durant la nuit.
Elle est de la taie du cœur d’un miroir géant,
mourant toutes les fois dans le poème.

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Non publié

Mudado do português por _Eduardo Veras_ pesquisador colaborador e pós-doutorando na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Brasil, onde atuou em 2016 como professor de Literatura Francesa. Especialista na obra de Charles Baudelaire, sobre quem escreveu tese de doutorado (UFMG, 2013), realizou dois estágios de pesquisa no “Centre de Recherche sur la Littérature Française du XIXe Siècle” da Université Paris-Sorbonne, sob a supervisão do professor Dr. André Guyaux. Atualmente, prepara uma nova tradução dos poemas em prosa de Baudelaire, de quem já traduzira o ensaio “L’École Païenne”. É autor de “O oratório poético de Alphonsus de Guimaraens” (Relicário, 2016) e co-organizador da coletânea de ensaios “Por uma literatura pensante: ensaios de filosofia e literatura” (Fino Traço, 2012). Tem publicado artigos sobre diversos poetas, brasileiros e franceses, em periódicos especializados.



 VERSÃO ORIGINAL

░  O amor é como duas montanhas

O amor é como duas montanhas em colisão.
E é assim que alguém morre.
Conheço uma mulher pequena e triste
que toca flauta no oceano.
É descendente das águas que se derramam,
sendo levada pelo vento durante a noite.
É do tamanho do coração de um espelho gigante,
morrendo todas as vezes no poema.

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Inédito publicado com autorização prévia da autora

░ Já não invejo os gatos

Um sai do trabalho
proporcionalmente feliz,
olhos contaminados
e compra uns copos
casualmente dois.
Paga impostos
Recebe más notícias
adquire enfermidades.
Um pensa impropérios
para depois calá-los,
não consegue entender
a íntima relação
entre juventude e morte.
Um estuda filosofia
porque entende que a vida é um trem,
recebe a lição e não a inflama,
um é totalmente livre
para fazer o que quiser
dentro de sua jaula.
Um grita, quer amar,
bebe uma cerveja,
não recolhe as luvas que deus lhe arranca.
Envolve a noite
em folhas de solidão
e se hospeda na beira
de alguma canção.
Um faz isto e crê que é viver,
mas se engana prontamente.
Até que uma mulher o mira
o acalma, o prende
lhe sufoca a vida com o olhar.
Então, um ri de si
controla os gastos
já não inveja os gatos
e irradia amor.
Um parece feliz.

 

_
▪ José María Zonta
(Costa Rica, n. 1961)
Do livro “LA NOCHE IRREPARABLE”, 1984, Editorial Costa Rica

*

Mudado para português _ Gustavo Petter _ Poeta e Tradutor, mora em Araçatuba/SP. Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░  YA NO ENVIDIO A LOS GATOS

 

Uno sale del trabajo
proporcionalmente feliz,
ojos contaminados
y compra unos vasos
casualmente dos.
Paga impuestos
recibe malas noticias
y contra enfermedades.
Uno piensa improperios
para callárselos,
no acaba de entender
la íntima relación
entre la juventud y la muerte.
Uno estudia filosofía
porque entiende que la vida es un tranvía,
recibe la lección y no la enciende,
uno es totalmente libre
de hacer lo que quiera
dentro de su jaula.
Uno grita, quiere amar,
toma una cerveza,
no recoge el guante que dios le tira.
Envuelve la noche
en hojas de soledad
y se aposenta en los bordes
de alguna canción.
Uno hace esto y cree que es vivir,
pero se engaña quedamente.
Hasta que una mujer lo mira
lo aplaca, lo prende,
le atraganta la vida en los ojos.
Entonces uno ríe de sí
controla los gastos
ya no envidia a los gatos
y esparce amor.
Uno parece feliz.

 

_
▪ José María Zonta
(Costa Rica, n. 1961)
Del libro LA NOCHE IRREPARABLE, 1984, Editorial Costa Rica

 

░ Hora de deitar em casa do cientista

 

para Peter

Conta-nos outra vez como é que não há
linhas rectas no universo, embora os anéis de Saturno
se estendam com a espessura de uma moeda por 500.000 milhas.
Conta-nos isso de novo.
Gostamos sempre.

Diz-nos os nomes das luas de Júpiter,
as valências dos átomos de 1 a 103.
Explica-nos o movimento aleatório constante,
os quasares à beira de se tornarem invisíveis.

Mostra-nos, oh por favor, aquela figura
de um mundo espácio-temporal como uma bola medicinal
deixada cair numa rede. Só mais uma vez,
baixinho, como música,
depois dormimos.

 

_
▪ Pat Boran
(Irlanda, n. 1963)
in “O Sussurro da Corda”, Edições Eufeme, Porto, 2018

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Bedtime at the scientist’s house

 

Tell us again how the universe contains
no straight lines, though Saturn’s rings
stay coin-thin to 500,000 miles.
Tell us that one again.
We always enjoy it.

Tell us the names of Jupiter’s moons,
the valencies of atoms 1 to 103.
Illustrate constant random motion,
quasars on the brink of invisibility.

And show us, oh please, that picture
of a sapce-time world like a medicine ball
dropped in a net. Just once more,
softly, like music,
then we will sleep.

_
▪ Pat Boran
(Ireland, b. 1963)

 

 

░ HÖLDERLIN

Que haja uma ponte
de pedra. Que a corrente
a abrace carinhosa
pela cintura, e depois se retire
sem dizer nada
e eu fique. Pelas suas areias
circulem carruagens.
Cheguem
com fardos volumosos
e saiam com
os
sacos entre as grades,
de passo bem ligeiro.

E que me trema a mão
ao escrever cartas.

Que o caminho
entre na penumbra
e o arvoredo o oculte de imediato
e a névoa caia
naquele ponto do bosque.

Que a janela de onde vejo isto
dê para fora, não para dentro.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in “La mirada”, Antología esencial 1982-2017, Fondo de Cultura Económica (FCE), Madrid, 2017

   *

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



 VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ HÖLDERLIN

 

Que haya un puente
de piedra. Que la corriente
lo abrace por la cintura,
cariñosa, y después sin decir nada
se vaya y yo
me quede. Y por su arena
transiten carruajes.
Que entren
con fardos voluminosos.
Que salgan
con los sacos en el adral
y el paso muy ligero.

Y me tiemble la mano
con la que escribo cartas.

Que el sendero
se adentre por la umbría,
y la arboleda
lo oculte de inmediato
y parezca tiniebla
en lugar de aquel bosque.
Que la ventana donde lo contemplo
dé a un afuera y no dé a un adentro.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in “La mirada”, Antología esencial 1982-2017, Fondo de Cultura Económica (FCE), Madrid, 2017

░ o nó da tristeza

de ter esperado tanto
eu risquei, eu rasguei, eu matei luas
nos abismos perversos
dos espelhos

e dancei na poalha
dos cinzéis
até as mãos chorarem sujas
por entre as fendas
dos muros

 

rasguei-me
na terra e nas árvores
para que da dor que sobrasse
se multiplicassem estátuas de chumbo
de lábios abertos e olhos
gigantes

por onde a escuridão morresse
e deixasse ao uivo dos lobos
a tarefa difícil de murmurar a luz
no coração da terra fria
por entre a água e a pedra
no peito dos pinheiros
por onde rebentavam as manhãs
amenas,

suaves, como eram
as tuas mãos no meu rosto
ou a tua voz de abrigo
quando tropeçava naquela linha
onde se esconde o nó
da tristeza

 

_
▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “Água Forte” _ Poesia Reunida _ Editora Urutau, Galiza e Brasil, 2019