A VERDADE E A MENTIRA ENCONTRAM-SE UM DIA

A Verdade e a Mentira encontram-se um dia.
A Mentira diz à Verdade: “Hoje é um dia maravilhoso!”
A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo.
Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço.
A Mentira diz à Verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas!”
A Verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que realmente está muito gostosa.
Elas despiram-se e começaram a tomar banho.
De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e vestir as suas roupas de volta.
O Mundo, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha.
Desde então, a Mentira viaja ao redor do Mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.“

Parábola do século XIX

“A Verdade saindo do Poço”- 1896

Jean-Léon Gérôme

COMO LOBOS EM PERÍODO DE SECA

Como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela

 

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▪ Muhammad al-Maghut
(Síria 🇸🇾)
Poema mudado para português por Adalberto Alves

RENUNCIO

Toldaste o meu Outono
limpaste a frente da minha casa
das folhas da minha memória
a fusão do ser e do saber
que sempre procuro

Agora decidi matar-te no próximo inverno
renunciando ao lugar do sono comum

A terra continuará a mover-se
e sei que sempre encontrarei uma palavra
que me ajudará a sucumbir.

 

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▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

ANTIMATÉRIA

No outro lado de um espelho há um mundo ao contrário,
onde os loucos se curam; onde os ossos saem da
terra e recuam até ao sedimento inicial do amor.

E à noitinha o sol está a nascer.

Os amantes choram porque estão um dia mais novos, e em breve
a infância lhes roubará o prazer.

Nesse mundo há muita tristeza que, claro, é alegria.

 

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▪ Russell Edson
(E.U.A. 🇺🇸)
Poema mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

EXERCÍCIOS REAIS

Eu não gostava de ser rei.
Os reis praticamente
não têm vida própria. Têm sempre
que ter juízo, têm sempre que
prestar atenção. E não se pode estar sempre
com atenção. Sempre a cumprimentar.
Máquina de cumprimentos. Máquina
de apertar mãos. Não pode calçar
quaisquer sapatos. Ele bem queria
os azuis. Mas não pode. Porque tem
de calçar os castanhos. Houve alguém
que inventou isto. Tomam conta
do rei. E também ele
toma conta de si. Para não
sujar a camisa. Tem logo que
vestir outra. Da reserva.
Camisas de serviço. Tem à mão
a reserva. Nem uma pedrinha
pode ter na sopa. No entanto,
uma vez encontrou uma
no puré de legumes. O cozinheiro
ficou tramado. Não o tramem. No fundo,
o rei sentiu-se feliz por encontrar
uma pedra no puré de legumes.
Não tinha ideia de encontrar
fosse o que fosse no puré de legumes.
E logo uma pedra! Até que enfim,
alguma coisa lhe aparecia na sopa.
Enfim, alguma coisa. Aconteceram
coisas. É certo que quase cuspiu
um dente. Esteve quase
para partir um dente. E
afinal não partiu. Ficou
a abanar, mas ficou lá.
Chamaram o cozinheiro.
Mostraram-lhe a pedra.
Dias a fio o pobre cozinheiro
andou mesmo desesperado.
Ainda bem que nada de mal
aconteceu. Rapidamente tudo
foi esquecido. Esqueceram.
Este caso também.
E não se falou mais nisso.

 

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▪️Endre Kukorelly
(Hungria 🇭🇺)
Mudado para português por Fernando Pinto do Amaral