UM PASTOR ÁRABE PROCURA UM CABRITO NO MONTE SION

Um pastor árabe procura um cabrito no Monte Sion,
e no monte à frente eu procuro meu filho pequeno.
Um pastor árabe e um pai judeu
nos seus fracassos temporários.
As nossas vozes se encontram por cima
do Tanque do Sultão no vale entre nós.
Nós dois queremos que eles não entrem,
o filho e o cabritinho, na engrenagem
da terrível máquina do Had Gadiá.

Depois nós os encontramos entre os arbustos,
as nossas vozes retornaram a nós
choraram e riram por dentro.

A procura pelo cabrito ou pelo filho
sempre foi
o começo de uma nova religião nesses montes.

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▪ Yehuda Amichai
( Israel  🇮🇱 )
in “Terra e paz” – Antologia poética – Editora Bazar do Tempo, Brasil RJ 2018
Organização e tradução – Moacir Amâncio

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N. do T. > Had Gadiá: canção infantil de Pessach (a Páscoa judaica) sobre a compra de um cabritinho que é devorado por um gato e este por um cão, num ciclo de vida e morte que se renova.

PRÍNCIPE

Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

 

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▪ Ana Hatherly
( Portugal 🇵🇹 )
in “Um Calculador de Improbabilidades”

DEMORO-ME NAS HORAS MAIS TARDIAS

Demoro-me nas horas mais tardias.
É tempo que entretenho e o detenho
(Plo menos no meu espírito o tenho),
É tempo que ficou de outros dias.
E o tempo que me sobra é para nada…
É todo para o meu entardecer.
Gostava, enfim, de ver, enfim, de ter
Por toda a grande cada a pequenada!…
A vida… bem, tem dias… gosto dela…
Mas ela não é nada nem é grande.
Às vezes ela é tudo, às vezes nada.
Enfim… não há senão sem haver bela.
No escuro o tempo pára, mesmo que ande.
É um cortejo fúnebre e uma estrada.

 

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▪ Daniel Jonas
( Portugal 🇵🇹 )
in “Nó”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014
 

ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que ainda não são a treva.
Buenos Aires,
que dantes se espraiava em arrabaldes
rumo à planície sem fim,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as confusas ruas do bairro Once
e as vacilantes casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo foi o meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e é parecida com a eternidade.
Os meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isto deveria amedrontar-me,
mas é uma doçura e um regresso.
Das gerações de textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que ainda hoje leio na memória,
lendo-os e transformando-os.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
ao meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
devaneios e sonhos,
cada ínfimo instante de outrora
e dos outroras do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os actos dos mortos,
o partilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou.

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▪Jorge Luíz Borges
( Argentina 🇦🇷 )

TRICÍDIO

Matei meu pai e minha mãe com um garfinho
– com um garfinho – porque os confundi com dois
pássaros nas árvores do caminho. Matei os meus pais
com a pinça de catar cubos de açúcar do meu avô:
não disse uma só palavra o adorado ídolo a quem eu,
todas as manhãs, saúdo tirando o chapéu. O gato da
minha vizinha tomou-me sob a sua protecção. Veio
sentar-se a meu lado, vigiando-me constantemente – a
sua crina, de pele de coelho bestialmente escovada por
detrás e os seus olhos em forma de ovos de cegonha.

Agora estou só agora e mortalmente triste:

todo o trabalho abandonado: choro – apoiada no
caixãozinho onde dormem lado a lado.

o meu pai e a minha mãe que eu matei com um garfinho
no maldito dia dos meus dezasseis anos.

 

Marianne Van Hirtum
Bélgica (1935-1988)
Tradução de Regina Guimarães

¿A QUÉ NECESITO EL AIRE SI NO MUERO?

¿A qué necesito el aire si no muero?
Pero sí la vista para discernir entre el gesto
y la ternura de los dioses –y la elegancia
en el portar su hábito plegado- Necesitaré
ironía para las reconvenciones y un cierto
rubor ante su sabiduría. Querré, además,
guardar memoria de todo ello por lo que
pudiera pasar. Me pondré, para el caso,
mi mejor discreción y el ánimo a punto
con la imaginación desnuda.

Respirando aquí, en la orilla, es
gozoso pensar: ‘lo que será (si acaso)

 
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▪ Ricardo Martínez-Conde
(España 🇪🇸 )
in “El pétalo”
 

NUNCA SOUBE DIFERENCIAR O POEMA

NUNCA SOUBE DIFERENCIAR O POEMA do mundo
nem do meu corpo
mal distingo um cais ou o peso de um entardecer
da pele avultada que arredonda as unhas
mas posso, por exemplo, colocar a palavra ilha
no limite do esterno aonde só chega o ar
e a partir daí, talvez pronunciar povo
muitas vezes, a partir daí
a partir daí: a vida

e o resto céu

 

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▪ Silvia_Penas
( España 🇪🇸 )
in “O resto é céu”, pág. 19, Editora Urutau (Galiza, Brasil, Portugal), 2021

 

UMA CADEIRA

 

( para Caroline Tyssen )

 

Eu já não peço muito:
uma cadeira ao sol
perto da Galileu
uma bica na mesa
dois dedos de conversa
com a Caroline amiga
olhar à minha volta
ver quem está a ler livros
e quem saiu com pressa

 
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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

EN CUANDO EL SOL NOS DA LA ESPALDA EN SU VIAJE

En cuanto el sol nos da la espalda en su viaje
enigmático y familiar, corre el susurro de que
cada cosa habría de recuperar su verdadera identidad
y, en esa limpia postura, habrá de ocupar su lugar
a la espera de la noche.
¿Por qué? (Sería una preguntas, como tantas,
dirigidas al tiempo…)
Porque ha de haber un equilibrio –una íntima armonía-,
porque la noche tiene una entidad tan grande como el
Destino, o casi, y sería una grave vulneración poética no
tomar en consideración esta premisa elemental de que el
gusano ha de estar en su guarida, y el búho vigilante…

 
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▪ Ricardo Martínez-Conde
(España 🇪🇸 )
in “El pétalo”