NUMEROGRAFIA

onde estamos?        que revólver
campeia no deserto?             que
matriz norteia   o   objecto?

por ecos se repete na figura a equação da curva:
o invisível ceptro do seu número:
por ecos se reflecte a sua forma celeste
na cinza do contínuo:

_________________________ que luz emite?
que procura? ________que paradigma sonha
a sua sombra na figura?
em que campo celeste e em que linha de terra
se ergue  _______ a sua casa de ciprestes
na penumbra antiga do número?

 

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▪ Alexandra Kräft
— Heterónimo de Maria Azenha 🇵🇹 —
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998


OBS: Quem é Alexandra Kräft?

Alexandra Sigmund Kräft (Londres, n. 2025 ) elege o átomo como Estátua Cósmica.
Ela pensa sobre os contornos e sombras dos objectos, não sobre os próprios objectos, que não existem.
Por isso o outro ser humano é uma ilusão: tudo é objecto do seu olhar.
E tudo é abjecto do seu ver.
É esta náusea que a define.

 

 

ALGUMA COISA NA BARRIGA

Eu queria escrever um poema e estava grávida. Estava muito magra. Como se vivesse de ar. Um poeta deve ser capaz de viver de ar, mas uma mãe nem deve tentar. A minha mãe queria que eu comprasse um conjunto de panelas de alumínio Wearever, iguais às que ela tinha. Eram pesadas e tinham tampas bem ajustadas, de forma que a comida não se queimaria. O meu marido queria que desse jantares de festa. John F. Kennedy corria para o escritório.

Eu senti o perigo. Kennedy não era contra a bomba ou pelo desarmamento nuclear. Juntei-me ao SANE no seu início. Também aos Cientistas Preocupados. Falei com Linus Pauling e incentivei o meu marido a ajudar o seu colega a organizar os Médicos para a Responsabilidade Social.

Tinha um bebé na minha barriga. Queria escrever poemas. Tinha a ideia maluca de que uma mulher poderia escrever um romance de verdade, daqueles que vão abalar o mundo. Tive alucinações de que uma mulher podia ser poeta, mas teria de ser livre. Eu não podia imaginar essa liberdade para mim, embora a pudesse ver na Isla Negra, enquanto seguia o Pablo Neruda. Eu podia reconhecê-lo na maneira como ele andava. Mesmo que estivesse a andar dentro de uma ditadura, entre armas, soldados e espiões, não havia nada entre ele e a sua visão. Qualquer coisa que visse, era capaz de apreendê-la, não havia nenhum olhar, nenhuma imagem, nenhuma visão a que ele não tivesse direito. No seu coração, tudo – tudo – lhe pertencia. Pablo Neruda era mais do que qualquer coisa – um poeta, e assim era um homem que tinha direito a tudo.

Eu era mulher e não tinha direito a nada. Eu não tinha nada além de um marido, uma casa alugada, um conjunto de panelas, móveis de sala, um frenesi de obrigações, cartões de crédito, parentes ansiosos, muitos conhecidos, um presente para um futuro serviço de fraldas, dois telefones, falta de tempo para ler, um livro de receitas embrulhado em plástico colhidas das páginas do New York Times, e uma fome, uma fome terrível pela inimaginável e ilimitada liberdade de ser poeta, e um bebé na minha barriga.

Teria telefonado ao Pablo (um telefonema de longa distância) se tivesse coragem, se soubesse falar espanhol fluentemente, se alguma vez tivéssemos falado de coisas reais. Mas, o que poderia saber um homem sobre um bebé na barriga? E o que importava se houvesse um poeta a mais ou a menos no mundo, quando tantos no seu país estavam a morrer?

Acordei uma manhã e pensei – Não posso ter esta criança. O meu marido disse, “Terás de arranjar trabalho a seguir ao parto, para podermos comprar uma casa. Vais precisar de um diploma avançado.” Pensei, eu não posso. Eu tenho de escrever poemas. A minha mãe encontrou um berço. Alguém o pintou de branco. Um amigo ofereceu-nos um espanta espíritos com mansos animais de madeira. Pensei em cortinas azuis, colchas e abortos.

Pablo permanecia silencioso. Caminhava longe de mim e eu não podia ouvi-lo. O meu marido opôs-se a prestar mais cuidados médicos gratuitos aos Panteras Negras. Tentei fazer trouxas a partir do zero e encontrei folhas de uva preservadas em salmoura no Boys’ Market a 30 km de distância. Organizei um movimento de escritores pela paz para desafiar o JFK. O meu marido achou que seria bom tomar chá com as crianças e termos jantares românticos sozinhos. Os novos frascos de leite alinhavam-se na pia como pequenas bombas. Os Estados Unidos estavam a realizar testes debaixo da terra; eu estava com medo que a radiação atravessasse a barreira do leite. Tinha um poema em mim uivando para a vida real, mas nenhuma linguagem para o escrever. O nevoeiro veio espesso, batendo ao redor dos meus pés como cobertores desenrolando-se. Fiquei com medo de ter uma filha.

Liguei para o Pablo Neruda a meio da noite, enquanto ele caminhava debaixo de água na Isla Negra. Movia-se como uma toninha de sonho. Parecia grávido de palavras. Saíam do seu pénis em longas e milagrosas cordas. As criaturas do mar tremiam de alegria. Eu disse, “Pablo, quero saber como carregar uma criança na minha barriga nesta cama de urânio e quero saber se uma mulher pode ser poeta.” Ele era grande como uma baleia. Bebeu o mar e jorrou-o em odes cintilantes, negras e lustrosas. Eu disse: “Não posso ter esta criança”, e ele riu como se nunca tivesse feito mais nada, além de carregar bebés e dar à luz .

Então arrumei a minha pequena mala como se fosse para o hospital e deixei um bilhete e as panelas Wearever e os mamilos esterilizados sobre os mísseis de vidro, e levei a mochila que um amigo índio me tinha me dado para transportar o bebé e que tinha feito o meu marido roncar- “Não vais carregar essa coisa nas costas, pois não?” Peguei em algum dinheiro, o carro, alguns livros, papel e canetas, os meus sapatos de caminhar, uma máquina de escrever elétrica da IBM, a minha barriga grávida e uma dúzia de fraldas de pano, e saí.

Eu sabia como carregar um bebé e como carregar um poema e iria aprender a dar à luz um bebé e até a dar à luz um poema. Teria leite suficiente para ambos. Aprenderia a andar com eles. Mas não sabia, e não queria saber, como ter um marido e um conjunto de panelas Wearever.

 

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▪ Deena Metzger
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Editora Red Hen Press, 2009

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Médico



 

SOMETHING IN THE BELLY

 

I wanted to have a poem and I was pregnant. I was very thin. As if I’d lived on air. A poet must be able to live on air, but a mother must not attempt it. My mother wanted me to buy a set of matching pots, Wearever aluminum, like the ones she had. They were heavy and had well fitting lids so my suppers wouldn’t burn. My husband wanted me to give dinner parties. John F. Kennedy was running for office.

I sensed danger. Kennedy wasn’t against the Bomb or for nuclear disarmament. I joined SANE at its inception. Also Concerned Scientists. I spoke with Linus Pauling and encouraged my husband to help his partner organize Physicians for Social Responsibility.

There was a baby in my belly. I wanted to write poems. I had a crazy idea that a woman could write a real novel, the kind that shook the world. I hallucinated that a woman could be a poet, but she would have to be free. I couldn’t imagine that freedom for myself even though I could see it in Isla Negra when I followed Pablo Neruda. I could see it in the way he walked. Even if he were walking inside a dictatorship, among guns, soldiers and spies, there was nothing between him and his vision. Anything he saw, he was able to take into himself–there was no sight, no image, no vision to which he didn’t feel entitled. In his heart, everything–everything–belonged to him. Pablo Neruda was–more than anything–a poet, and so he was an entitled man.

I was a woman and entitled to nothing. I had nothing except a husband, a rented house, a set of pots, living room furniture, a frenzy of obligations, credit cards, anxious relatives, too many acquaintances, a gift of future diaper service, two telephones, no time to read, a plastic wrapped cookbook of recipes gleaned from the pages of the New York Times, and a hunger, a terrible hunger for the unimaginable, unlimited freedom of being a poet, and a baby in my belly.

I would have called Pablo long distance if I had the courage, if I had the ability to speak Spanish fluently, if we had ever talked about real things. But, what would a man know about a baby in the belly? And what did it matter if there were to be one poet more or less in the world when so many in his country were dying?

I woke up one morning and thought–I can’t have this child. My husband said, “You’ll have to get a job after it’s born so we can buy a house. You’ll need an advanced degree so you can do something.” I thought, I can’t. I have to write poems. My mother found a crib. Someone painted it white. A friend sent a pastel mobile with tame wood animals. I thought about blue curtains, making bedspreads, and abortions.

Pablo was silent. He was walking so far from me, I couldn’t hear him. My husband objected to donating more free medical care to the Black Panthers. I tried to make dolmades from scratch and located grape leaves preserved in brine at the Boys’ Market twenty miles away. I organized a write-in campaign for peace to challenge JFK. My husband thought it would be nice to have teatime with the children and romantic dinners by ourselves. The new formula bottles lined up on the sink like tiny bombs. The U.S. was pursuing over ground testing; I was afraid the radiation would cross the milk barrier. I had a poem in me howling for real life but no language to write in. The fog came in thick, flapping about my feet like blankets unraveling. I became afraid to have a daughter.

I called Pablo Neruda in the middle of the night as he walked underwater by Isla Negra. He moved like a dream porpoise. He seemed pregnant with words. They came out of his penis in long miraculous strings. The sea creatures quivered with joy. I said, “Pablo, I want to know how to bear the child in my belly onto this bed of uranium and I want to know if a woman can a be a poet.” He was large as a whale. He drank the sea and spouted it in glistening odes, black and shiny. I said, “I can’t have this child,” and he laughed as if he had never done anything but carry and birth children.

So I packed my little bag as if I were going to the hospital and I left a note and the Wearever pots and sterilized nipples upon the glass missiles, and took the cradle board that an American Indian friend had given me for the baby and that had made my husband snort– “You’re not going to carry the thing on your back, are you?” I took some money, the car, some books, paper and pens, my walking shoes, an unwieldly IBM electric typewriter, my pregnant belly and a dozen cloth diapers, and I went out.

I knew how to carry a baby and how to carry a poem and I would learn how to have a baby and even how to have a poem. I would have enough milk for both. I would learn how to walk with them. But I didn’t know, and I didn’t want to know, how to have a husband and a matched set of Wearever pots.

 

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▪ Deena Metzger
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Red Hen Press, 2009

 

VELHO POETA

Recebi tudo de vós:
Prêmios, honrarias, reconhecimento.

Renderam-se a meus méritos, com unânime aplauso,
as difíceis portas da Academia.

Os jovens me chamam mestre e procuram emular-me.

Com a idade logrei domesticar o tigre
que levo dentro; ser cortês,
amável, agradecido.

E, orgulhoso, em meu peito sustento as medalhas
das mais altas distinções.

Medalhas…
_____________ ¡Infantis miçangas,
desapiedados cencerros da glória!

Quanto, quanto daria para ser torpe, inexperiente,
maravilhado, jovem balbuciante
com todos os poemas pela frente.

 

_
▪ José Luis Parra
(Espanha 🇪🇸 )
in “De la frontera”,València, Pre-Textos, 2009

*

Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



 

VIEJO POETA

 

He recibido todo de vosotros:
premios, honores, reconocimientos.

Se han rendido a mis méritos, con unánime aplauso,
las difíciles puertas de la Academia.

Los jóvenes me llaman maestro y procuran emularme.

Con la edad he logrado domesticar al tigre
que llevo dentro; ser cortés,
amable, agradecido.

Y, orgulloso, en mi pecho ostento las medallas
de las más altas distinciones.

Medallas…
_____________   ¡Infantiles abalorios,
despiadados cencerros de la gloria!

Cuánto, cuánto daría por ser torpe, inexperto,
maravillado, joven balbuceante
con todos los poemas por delante.

 

_
▪ José Luis Parra
(España 🇪🇸 )
in “De la frontera”,València, Pre-Textos, 2009

ALVOS

Eu não vou dar um tiro
na cabeça, não vou dar um tiro
nas costas, não me vou enforcar
com um saco do lixo, e se o fizer,
prometo-te, não o fazer
num carro da polícia, algemado,
ou na cela da prisão de uma cidade
de que só sei o nome,
porque tenho de atravessá-la
para chegar a casa. Sim, eu posso estar em risco,
mas prometo-te, confio mais nos vermes
que vivem por baixo do soalho
da minha casa para fazerem o que devem
a qualquer carcaça, do que confio
num representante da lei
para me fechar os olhos como um homem
de Deus, ou para me cobrir com um lençol
tão limpo que a minha mãe poderia tê-lo usado
para me aconchegar. Quando me matar, vou
fazê-lo como a maioria dos americanos,
prometo-te: fumo de cigarro
ou engasgar-me com um pedaço de carne
ou sem dinheiro, congelado,
num desses invernos que recordamos
como o pior dos invernos. Prometo-te, se ouvires dizer
que morri em qualquer lugar perto
de um polícia, foi esse polícia que me matou. Retirou-me
do meio de nós e deixou o meu corpo, que vale mais,
não importa aquilo que nos ensinaram,
do que a indemnização
que uma cidade pode pagar a uma mãe para ela parar de chorar,
e é mais bonito que a nova bala
pescada entre as circunvoluções do meu cérebro.

 

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▪ Jericho Brown
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “The Tradition”, Copper Canyon Press, 2019

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

Bullet Points

 

I will not shoot myself
In the head, and I will not shoot myself
In the back, and I will not hang myself
With a trashbag, and if I do,
I promise you, I will not do it
In a police car while handcuffed
Or in the jail cell of a town
I only know the name of
Because I have to drive through it
To get home. Yes, I may be at risk,
But I promise you, I trust the maggots
Who live beneath the floorboards
Of my house to do what they must
To any carcass more than I trust
An officer of the law of the land
To shut my eyes like a man
Of God might, or to cover me with a
sheet
So clean my mother could have used it
To tuck me in. When I kill me, I will
Do it the same way most Americans do,
I promise you: cigarette smoke
Or a piece of meat on which I choke
Or so broke I freeze
In one of these winters we keep
Calling worst. I promise if you hear
Of me dead anywhere near
A cop, then that cop killed me. He took
Me from us and left my body, which is,
No matter what we’ve been taught,
Greater than the settlement
A city can pay a mother to stop crying,
And more beautiful than the new bullet
Fished from the folds of my brain.

 

_
▪ Jericho Brown
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Tradition”, Copper Canyon Press, 2019

VISIONES EN LA NIEVE

 

Visiones en la nieve.

Interpretación de «Bosque blanco» (2020), de Maria Azenha

*

José Ángel Cilleruelo

 

Tras algunos libros con un carácter temático extrovertido, Maria Azenha regresa con Bosque Branco (2020) a los poemas extremadamente breves y al simbolismo endocéntrico, es decir, aquel en el que los textos ramifican un único símbolo troncal. Una poética que ya había inspirado alguno de sus títulos esenciales, como A sombra da Romã (2011), con el que el recién publicado establece ciertos paralelismos. Formales, como la extensión de los poemas, de dos y tres versos; pero sobretodo en el contenido, como poemas de amor escritos no a una persona, sino al Amor mismo: «Es primavera, Amor. / Mi corazón nació en el tuyo, en flor». Al igual que en aquel libro, Bosque Branco está compuesto, en líneas generales, por las declaraciones, promesas, carencias, deseos, regalos, intimidades, temores, ausencias y sueños amorosos. Y también por otro elemento, ausente entonces, que desfigura el paralelismo.

   Bosque Branco es un poema de amor al Amor: «Una criatura inocente duerme en mi lecho / Con el nombre de mi Amado», se lee en los dos primeros versos con una alusión clara al mito clásico de Amor. Pero en el tercer verso añade: «Viene cada mañana a resucitarme».

  En primer término, como innovación formal, se observa en los tres versos del poema dos instancias semánticas separadas. Una previa de declaración amorosa (dos versos iniciales), otro de contraste (tercer verso). Este esquema se repite en los poemas dípticos. Un verso inicial afirma; otro final, contrapone la afirmación, de suerte que el resultado es la transformación del monólogo de la Amada en un diálogo implícito. Como si después de lo afirmado, alguien (el Amado, la circunstancia, el tiempo, la propia Amada…) hubiera matizado lo dicho antes del contraste. En esta sombra de diálogo prende un acontecer, un mínimo conflicto o quizá solo su resolución. Una trama implícita. Solo en dos versos: declaración amorosa y contrapunto.

  En el poema inicial, arriba citado, el contraste, o el acontecer, aparece en el término «resucitar». No es ya, el que ahora desarrolla Bosque Branco, un amor al Amor primaveral, renacido, sino a un Amor póstumo, resucitado, es decir, el que regresa al Amor después de padecer aflicción, ausencia o pérdida. Otro díptico da una pista del padecimiento: «La polvareda del exilio huele a pólvora. / Amor, estamos en un gran campamento de extranjeros.» El resucitar diario del Amor lo es desde un mundo injusto y desolado, aquel que reflejaban los títulos anteriores de la poeta, A casa de ler no oscuro (2016) o Xeque-Mate (2019). Esta es la primera dimensión temática de Bosque Branco: el regreso de la autora a los símbolos introvertidos, que surgen ahora impregnado con los símbolos exocéntricos: «En la puerta del desierto somos alumnos de la nieve».

  Existen en el libro otras dimensiones que se entrecruzan y remiten también a tramas temáticas enraizadas a la obra de Maria Azenha: una religiosidad propia, con un Dios insolidario al que se le acusa («Vi a Dios decapitar los árboles del mundo») y al que se le pide clemencia («Oh, Dios, no nos apartes tanto»); un universo metapoético personal («Esta noche, abrazada a mi padre / No tengo miedo de escribir»); y una actitud lírica activa, donde se excluye lo contemplativo: «Entrelazo las manos y recuerdo tus brazos. / Mi corazón ya corre a buscarte».

  El símbolo central a partir del cual se deriva la experiencia de los poemas es el «desierto», o «bosque blanco». Un desierto que a veces es de nieve, o se le llama Ángel. O propicia una carta de amor. En este «bosque» o «desierto» no concurre un único sentido, sino una encrucijada de significados. Cada vez que aparece enunciado o aludido, lo es con un sentido distinto. La diferencia entre los símbolos de la poesía tradicional y de la poesía moderna — también su legibilidad e interpretación — radica en este aspecto. El símbolo contemporáneo no admite una clave de lectura única, sino una gama de equívocos que lo amplían y difuminan.

  El «desierto» es, en sentido lato, los extramuros de los amantes. A veces se concreta en su intemperie, en otras ocasiones adquiere otros matices. Como en el siguiente verso: «Quien en el desierto busca un refugio ve allí su túmulo». En el extremo de la intemperie del «bosque blanco» se encuentra el límite existencial. Su conciencia. Una suerte, también, de intemperie absoluta, ajena a la temporalidad («Nos quedamos solos y no envejecemos»). O, dicho de otra manera: en el amor del Amor («Y tú, Amor, tienes un solo [túmulo] para los dos»), a salvo del paso del tiempo, aunque se ciña alrededor el círculo de la sola blancura de la nieve: «Los amantes están solos».

  El ensimismamiento amoroso (el amor al Amor), a diferencia del mito clásico, no es ciego. Vive en un mundo injusto y lo ve deteriorarse. Su lugar linda con la desolación y la ve acercarse. Su gesto se encamina hacia la soledad y la ve avanzar. Aun así, lo amoroso y lo ensimismado se sobreponen a la visión. La apuesta poética de Maria Azenha por el lenguaje amoroso —igual que en otra época fue la opción de los místicos— es por la de un idealismo asediado que aún resiste. Un lenguaje amoroso que al mismo tiempo se yergue crítico y visionario.

 


 

Visões na neve.

Interpretação de «Bosque branco» (2020), de Maria Azenha

*

José Ángel Cilleruelo

 

Depois de alguns livros de carácter temático extrovertido, Maria Azenha regressa, com Bosque Branco (2020), aos poemas brevíssimos e ao simbolismo endocêntrico, isto é, em que os textos se ramificam a partir de um único símbolo troncal. Uma poética que já tinha inspirado  alguns dos seus  títulos essenciais, como A sombra da Romã (2011), livro com o qual este agora publicado estabelece certos paralelismos. Formais, como a extensão dos poemas, dois e três versos; mas sobretudo no que respeita ao conteúdo, como nos poemas de amor dirigidos, não a uma pessoa, mas ao próprio Amor: «É primavera, Amor. / O meu coração nasceu no teu, em flor». Tal como o primeiro livro, também Bosque Branco se compõe, em linhas gerais, de declaracões, promessas, carências, desejos, prendas, intimidades, temores, ausências e sonhos amorosos. E ainda de outro elemento, até então ausente, que desfigura o paralelismo.

     Bosque Branco é um poema de amor ao Amor: «Uma criança inocente dorme em meu leito / Com o nome do meu Amado», lê-se nos dois primeiros versos, numa alusão clara ao mito clássico do Amor. Mas o terceiro verso acrescenta: «Vem a cada manhã ressuscitar-me».

    Em primeiro lugar, como inovação formal, observam-se duas instâncias semânticas distintas, nos três versos do poema. Uma prévia, de declaração amorosa (os dois versos iniciais), outra de contraste (o terceiro verso). Este esquema repete-se nos poemas dípticos. Um verso de abertura afirma; outro, final, contrapõe, de modo que o resultado é a transformação do monólogo da amada num diálogo implícito.
Como se depois do afirmado, alguém (o Amado, a circunstância, o tempo, a própria Amada …) tivesse matizado o que fora dito, antes do contraste. Nesta sombra de diálogo, esboça-se um acontecer, um conflito mínimo, ou talvez apenas a sua resolução. Um enredo implícito. Apenas em dois versos: declaração de amor e contraponto.

   No poema de abertura acima citado, o contraste, ou o acontecer, aparece no termo “ressuscitar”. Já não se trata de um amor ao Amor primaveril, renascido, mas a um Amor póstumo, ressuscitado, que regressa ao Amor depois de padecer aflição, ausência ou perda.
Outro díptico dá-nos uma pista sobre sofrimento: «A poeira do exílio tem cheiro a pólvora. / Amor, estamos num grande campo de estrangeiros.» O ressuscitar diário do Amor ocorre num mundo injusto e desolado, já reflectido nos livros anteriores da poeta. “A casa de ler no escuro” (2016) ou “Xeque-Mate” (2019). Esta é a primeira dimensão temática de “Bosque Branco”: o regresso da autora aos símbolos introvertidos, que surgem agora impregnados de símbolos exocêntricos: “À porta do deserto somos alunos da neve”.

  Existem no livro outras dimensões que se entrecruzam e remetem para tramas temáticas enraizadas na obra de Maria Azenha: uma religiosidade própria, com um Deus insolidário que é acusado («Vi Deus decapitar as árvores do mundo») e a quem se pede clemência («Ó Deus, não nos apartes demais!»); um universo metapoético pessoal («Esta noite, abraçada a meu pai / Não tenho medo de escrever»); e uma atitude lírica activa, de que se exclui o contemplativo: «Entrelacei as mãos e lembrei-me dos teus braços. / O meu coração foi a correr procurar-te».

    O símbolo central de onde deriva a experiência dos poemas é o «deserto», o «bosque branco». Um deserto que às vezes é de neve, ou a que se chama Anjo. Ou propicia uma carta de amor. Neste “bosque” ou “deserto” não ocorre um sentido único, mas uma encruzilhada deles. Cada vez que é referido ou aludido, é com um significado distinto. A diferença entre os símbolos da poesia tradicional e os da poesia moderna — e também a sua legibilidade e interpretação — radica neste aspecto. O símbolo contemporâneo não admite una chave de leitura única, mas sim una gama de equívocos que o ampliam e obscurecem.

    O “deserto”, em sentido lato, é o extramuros dos amantes. Pode concretizar-se a partir da sua própria intempérie, ou assumir outros matizes. Como no seguinte verso: “Quem no deserto procura uma refúgio, vê ali o seu túmulo”. No extremo da intempérie  do “bosque branco”, encontra-se o limite existencial. A consciência dele. Uma espécie, também, de intempérie absoluta, alheia à temporalidade (“Ficámos sós e não envelhecemos”). Ou, dito de outra forma: no amor do Amor (“E tu, Amor, tens um [túmulo] só para nós dois.”), a salvo da passagem do tempo, embora em redor se aperte o círculo da brancura única da neve: “Os amantes estão sozinhos.”

  O ensimesmamento amoroso (o amor ao Amor), ao contrário do mito clássico, não é cego. Vive num mundo injusto e vê-o a deteriorar-se. O seu lugar faz fronteira com  a desolação e esta vai-se aproximando. O seu gesto encaminha-se para a solidão e vê-a avançar. Ainda assim, o amoroso e o ensimesmado sobrepõem-se à visão. A aposta poética de Maria Azenha pela linguagem amorosa – tal como noutra época fizeram os místicos – é a de um idealismo sitiado que ainda resiste. Uma linguagem amorosa que se ergue, ao mesmo tempo crítica e visionária



 

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, tradutora e professora.

Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: Metade do Mundo e  Mudanças & Cia

 

SEGREDO DE UM CAMPONÊS

Queimei uma vela de sebo por cada
árvore da floresta
e por cada noite de insónia
a céu aberto
Lancei uma pedra à água
por cada nuvem no céu
e por cada espiga nas searas
Forjei uma ferradura por cada
barco no lago
e por cada ano que vivi

Ainda há tanto que esperar
Ainda há tantos enigmas por resolver.

 

_
▪ Tor Ulven
( Noruega 🇲🇨 )
in “DiVersos – Poesia e Tradução”, nº. 17, Edições Sempre-Em-Pé, 2012

*

Mudado para português por _ José Carlos Marques; Pedro Fernandes e Sérgio Madeira Lopes 🇵🇹



BONDENS HEMMELIGHET

 

Jeg har brent ett talglys for hvert
tre i skogen
og for hver søvnløse natt
under åpen himmel
Jeg har kastet èn stein i vannet
for hver sky på himmelen
og for hvert aks i åkeren
Jeg har smidd èn hestesko for hver
båt på innsjøen
og for hvert år jeg har levd

Ennå er det lenge å vente
Ennå finnes mange uløste gåter

 

_
▪ Tor Ulven
( Norge 🇲🇨 )

AS MÃOS DA NOITE

As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.

Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite :  as figuras quebradas.

A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou

a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde

O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa

 

_
▪ Manuel Gusmão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Contra todas as evidências”  Poemas reunidos – I
Editorial Avante, Lisboa, 2013

NESTE SILÊNCIO

Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vazio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.

 

_
▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas e Pedras”, Ed. Autor, Lisboa, 1962