E no entanto o dia é fundo

O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram.
Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.

 

_
▪ Soledade Santos
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sob os teus pés a terra”, Editora Artefacto, Lisboa, 2010

TRE MADRI. TRE POESIE DI SABBIA

Ho sognato che avevo tre madri.
Tutte e tre stanno sotto un albero con gli occhi in alto.
La prima è trasparente e cuce pezzi fini di un cratere
dentro il mio petto.
La seconda brilla nel deserto nelle pareti della mia stanza.
E piange fili di seta in un caverna.
La terza suona il Silenzio di un Flauto,
cantando musiche antiche,
per gli anni che non abbiamo vissuto insieme.
Tutte e tre appartengono a un paese di sabbia e stanno tutte su un’isola.
noi abbiamo visto i prigionieri che ci hanno fatto compagnia.
Uno di loro è mia Madre. L’altro, mia figlia.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



TRÊS MÃES. TRÊS POEMAS DE AREIA

 

 

Sonhei que tinha três mães.
As três estão debaixo de uma árvore de olhos para cima.
A primeira é transparente e cose pedaços finos de uma cratera
dentro do meu peito.

A segunda brilha no deserto nas paredes do meu quarto.
E chora fios de seda numa caverna.

A terceira toca o Silêncio de uma Flauta,
cantando músicas antigas,
pelos anos que não vivemos juntas.

As três pertencem a um país de areia, e estão todas numa ilha.
nós vimos os prisioneiros que nos fizeram companhia.
Um deles é minha Mãe. Outro, minha filha.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M”

 

* Áudio: “Três Mães. Três poemas de areia” — Maria Azenha [Poema e voz]
Música – ‘Beyond’ (excertos) , Tina Turner

 

QUARENTENA

Na pior hora da pior estação
do pior ano de todo um povo
um homem saiu do albergue com a mulher
e caminhou- caminharam os dois – para norte.

Ela estava doente com a febre da fome e não o conseguia acompanhar.
Ele levantou-a e colocou-a às costas.
E caminhou assim para oeste, para oeste e para norte,
até ao anoitecer, sob as estrelas geladas.

De manhã, os dois foram encontrados mortos.
De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.
Mas os pés dela apoiavam-se no esterno dele.
O último calor da sua carne foi o último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limite.
Não há aqui lugar aqui para o impreciso
louvor da elegância e da sensualidade do corpo.
Apenas tempo para este inventário impiedoso:

A sua morte no inverno de 1847.
O que sofreram. E como viveram.
E o que existe entre um homem e uma mulher.
E em que escuridão se pode ver melhor.

 

_
▪ Eavan Boland
( Irlanda 🇨🇮 )
in “New Collected Poems”, Manchester, Carcanet Press, 2013

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

QUARANTINE

 

In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking—they were both walking—north.

She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.

In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.

Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:

Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.

 

_
▪ Eavan Boland
( Ireland 🇨🇮 )
From “New Collected Poems”, Manchester, Carcanet Press, 2013

 

PRIMAVERA DE GUERRA

Mas quando todos os rios abrangerem as suas margens
como uma recordação, os campos alarmando-se ao ruído
das cavalgadas do Sul,
Eis os lavradores, pesados artilheiros de capacete preto e
dourado, que vão espezinhar as calmas primaveras,
Eis os canhões lentos triando as quartas e as oitavas do
quadro rural. E as suas rodas irão gravar a dor do sulco.
A bateria no pequeno bosque romperá entre as grandes
nuvens de pinheiros-brancos e vai saltar pelos jardins com
as macieiras desabrochadas em direcção ao céu. E a queda
das suas granadas preencherá o nosso século.
As noites deixarão de ser descoradas peregrinas: as noites
sofrerão como tísicas que cospem desejando o sangue:
uma lava de obuses.
As estufas de túlipas ajoelhadas na Flandres terão lábios
vermelhos, dir-se-iam cocotes de Paris, pois todos os filhos
de burgueses do país dormiram nas suas camas.
E colunas azuis, colunas pretas sairão cantando do
recôncavo dos prados molhados: soldados de cinabre,
soldados de fogo morrerão abraçando a última Vida.

 

_
▪ Yvan Goll
( Franco-Alemão 🇫🇷🇩🇪 )
in “Elegias Internacionais – panfletos contra esta guerra (1915)”, Editora Língua Morta
Mudado para português por Diogo Paiva 🇵🇹
 

POÉTICA

Escrevo poesia porque sei que depois não farei mais nada.
Olhando profundamente a zona que está
entre o Bem e o Mal,
só podemos dar-nos conta
de que o Homem continua
— como disse Earth, Wind and Fire/
Terra, Vento e Fogo.
O que «continua» é o Método de Amor Contemporâneo:
Preocupação obsessiva pelo / Não deixar
que esse mesmo feito
te deprima — como quis Neil.
— E recorda que o amor é sempre
importante — disse Martisel

 

_
▪ Ismael González Castañer
(Cuba 🇨🇺 )
in ”Poesia Cubana Contemporânea”, Antígona, Lisboa, 2009
Mudado para português por Jorge Melícias 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Editor



🇨🇺

POÉTICA

 

Escribo poesia porque sé que después no haré más nada.
Mirando profundo en la zona que está
entre el Bien y el Mal,
uno sólo puede percatarse
de que el Hombre sigue
— como ha dicho Earth, Wind and Fire/
Tierra, Viento y Fuego.
Lo que «sigue» es el Método de Amor Contemporáneo:
Preocupacion obsesiva por el hecho / No dejar
que ese mismo hecho
te deprima — como ha querido Neil.
— Y recuerda que el amor es importante
cada vez — dijo Martisel

 

_
▪ Ismael González Castañer
(Cuba 🇨🇺 )
in ”Poesia Cubana Contemporânea”, Antígona, Lisboa, 2009

 

NO ANIVERSÁRIO DA MINHA MORTE

Todos os anos, sem me dar conta, passa o dia
Em que os últimos incêndios se despedem
E o silêncio se instala
Viajante incansável
Como os raios de luz de uma estrela já extinta

Então já não
Estarei nesta vida vestindo uma roupa estranha
Surpreendido na terra
Pelo amor de uma mulher
E a audácia dos homens
Escrevo hoje depois de três dias de chuva
e ouço a carriça a cantar e a tempestade cessar
E curvo-me sem saber perante o quê

 

_
▪ W. S. Merwin
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “The Second Four Books of Poems (Port Townsend)”, Washington, Copper Canyon Press, 1993

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

FOR THE ANNIVERSARY OF MY DEATH

 

Every year without knowing it I have passed the day
When the last fires will wave to me
And the silence will set out
Tireless traveler
Like the beam of a lightless star

Then I will no longer
Find myself in life as in a strange garment
Surprised at the earth
And the love of one woman
And the shamelessness of men
As today writing after three days of rain
Hearing the wren sing and the falling cease
And bowing not knowing to what

 

_
▪ W. S. Merwin
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Second Four Books of Poems (Port Townsend)”, Washington, Copper Canyon Press, 1993

 

A FLORESTA

A mulher coloca a criança na escola
a escola coloca a criança na sala
o pai furta da sala a criança
a criança vai para a floresta
o pai abre uma vala
a mãe
esconde-se na terra
a criança
fica sozinha
a mãe
come o pai
na
floresta

 


▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Xeque-mate”, Editora Urutau, Brasil, 2018

 

POEIRA

Alguém falou comigo ontem à noite,
disse-me a verdade. As palavras foram escassas,
mas reconheci-a.
Percebi que deveria arranjar maneira de me levantar,
anotá-la, mas era tarde,
e eu estava estafada do dia inteiro
a trabalhar no quintal, mudando pedras de lugar.
Agora, recordo apenas o sabor:
não doce nem picante, ao jeito da comida.
Algo mais próximo de um pó fino, de poeira.
E não fiquei exultante nem assustada,
mas meramente enlevada, ciente.
Por vezes sucede assim:
aparece-nos Deus à janela,
todo ele um clarão e asas negras,
e sentimo-nos demasiado cansados para a abrir.

 

_
▪ Dorianne Laux
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “What We Carry”, BOA Editions, Ltd., 1994

Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹 Poeta e tradutor



🇺🇲

DUST

..

Someone spoke to me last night,
told me the truth. Just a few words,
but I recognized it.
I knew I should make myself get up,
write it down, but it was late,
and I was exhausted from working
all day in the garden, moving rocks.
Now, I remember only the flavor —
not like food, sweet or sharp.
More like a fine powder, like dust.
And I wasn’t elated or frightened,
but simply rapt, aware.
That’s how it is sometimes —
God comes to your window,
all bright light and black wings,
and you’re just too tired to open it.

.
.

_
▪ Dorianne Laux
( U.S.A 🇺🇲 )
in “What We Carry”, BOA Editions, Ltd., 1994

 

INTERLÚDIO

essa insónia era gentil, diferente da outra, a da noite não madrugada ainda,
geralmente depois de um pesadelo. dessa insónia maior que a própria insónia
não havia desejo nenhum: só um medo de fazer recolher mãos, dedos, pulsos,
olhos fechados. suficiente de imaginar dentro dos olhos um sítio alto, e o
medo reproduzido: cair na cama tão pungente como um precipício.

 
_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” Poesia 1990-2010, Dom Quixote, Lisboa, 2010