ESCREVER APÓS O HORROR

Escrever após o horror
talvez mantenha um homem vivo —
mas qual o poema das noites brancas
entrevistas pelas cortinas da sala?
Diante da janela, o perfil de uma palmeira
fossilizada, uma criança chora,
descerro a cortina, pressinto o luar
para lá do prédio defronte, no gramado
a relva judiada, a persistência dos grilos,
a sutil, misteriosa incorporação
de tudo a um cristal já trincado.

Tenho a ternura. Mantenho-a.
Sou o mesmo das garapas na praça.
O mesmo que não recusa esmolas.
O mesmo da busca dos gatos da avó
pelos telhados da casa eterna,
pisando com cuidado, sentindo ranger
a telha fria sob os meus pés
no instante em que alguém lá em baixo morre.
O mesmo que temia a porta fechada
no fundo de um corredor catacumba
(o amor alquebrado e eu, Pietà
de um poema desesperado, caminhando por entre
miasmas de cigarros e culpas irremíveis).
O mesmo dos poemas que floresciam
ainda quando não havia um tema,
ainda quando nem sequer existiam poemas.
O mesmo. Mas até quando
ou ainda no esquife serei o de agora?

Carrego a ternura como um vaso de flores
trazido dos lugares da infância
(a terra apodrecida, as raízes malcheirosas).
Digo a ternura com um hálito de palavras mortas,
mas não importa — tenho-a aqui,
sinto-a embotando os meus olhos durante a visão
de uma centena de negros acorrentados;
zune-me aos ouvidos como um festim
de vidas destroçadas — os passos
somam-se aos ecos da tarde,
há prolongados cantos de pássaros
roucos, terrenos, baldios
e casas desabitadas à espera
de um homem e seu método.

Pálido poema das noites brancas
apenas entrevistas por rendas rasgadas:
és tão lívido, faltam-te riquezas.
Até o sol surge como os centavos
esquecidos nos bolsos do casaco puído:
paga-me uma garapa nas tardes de sábado
ou é a esmola que dou a um esfomeado
com ridícula certeza de ser bom.

 

_
▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016

 

MANUAL DE COMBATE

eles chamaram Celine de nazista
eles chamaram Pound de fascista
eles chamaram Hamsun de nazista
eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão
de fuzilamento
e você sabe que eles atiraram em Lorca
submeteram Hemingway a tratamento de choque
e você sabe que ele se matou
e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris)
e Mayakovsky
se desiludiu com o regime
e depois de uma desavença amorosa
bem
ele se matou.
Chatterton ingeriu veneno de rato
e funcionou.
e alguns dizem que Malcom Lowy morreu
afogado no próprio vômito
enquanto estava bêbado.
Crane tomou o rumo da hélice
do navio ou dos tubarões.

Era escuro o sol de Harry Crosby.
Berryman preferiu a ponte.
Plath não acendeu o forno.

Pascal cortou seus pulsos na
banheira (é melhor assim:
na água morna).
Thomas e Behan beberam
até a morte.
há muitos outros
e você quer ser um
escritor?
é esse tipo de guerra,
sabe:
criação mata;
muitos enlouquecem,
alguns perdem o rumo e
não conseguem
prosseguir.
uns poucos chegam à velhice.
uns poucos fazem dinheiro.
uns passam fome (como Vallejo).
é esse tipo de guerra:
baixas por todo lado.

tudo bem, vá em frente
mas quando eles o descartarem
pelo seu ponto fraco
não me venha com os seus
problemas

eu datilografei isso esta noite
sobre a mesa da cozinha
enquanto ouvia
Music for the Royal Fireworks
de Handel.

agora vou fumar um cigarro
na banheira
e depois vou
dormir.

 

_
▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
Escrito: 1978, Fonte: Original manuscript

*

Mudado para português do brasil por Nelson Santander 🇧🇷 (servidor público federal e tradutor neófito). Nascido em 1967, reside em Marília, SP, Brasil. Mantém o blogue de poesia e tradução “Singularidade”.



🇺🇲

combat primer

 

they called Celine a Nazi
they called Pound a fascist
they called Hamsun a Nazi
they put Dostoevsky in front of a firing
squad
and you know they shot Lorca
gave Hemingway shock treatments
and you know he shot himself
and they ran Villon out of town (Paris)
and Mayakovsky
disillusioned with the regime
and after a lover’s quarrel
well
he shot himself.
Chatterton took rat poison
and it worked.
and some say Malcom Lowry died
swallowing his own vomit
while drunk.
Crane went the way of the boat
propellor or the sharks.

Harry Crosby’s sun was black.
Berryman preferred the bridge.
Plath didn’t light the oven.

Pascal cut his wrists in the
bathtub (it’s best that way:
in warm water).
Thomas and Behan drank themselves
to death.
there are many others
and you want to be a
writer?
it’s that kind of war,
you know:
creation kills;
many go mad,
some lose the way and
can’t do it
anymore.
a few go into old age.
a few make money.
some starve (like Vallejo).
it’s that kind of war:
casualties everywhere.

all right, go ahead
but when they sandbag you
from the blind side
don’t come to me with your
troubles.

I typed this tonight
on this kitchen table
while listening to
Music for the Royal Fireworks
by Handel.

now I’m going to smoke a cigarette
in the bathtub
and then I’m going to
sleep.

 

_
▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
Written: 1978, Source: Original manuscript

 

SOMBRA DOS DIAS POR VIR

 

A Ivonne A. Bordelois

Amanhã
hão-de me vestir de cinzas ao alvorecer,
encher-me-ão a boca de flores.
Vou aprender a dormir
na memória de um muro,
na respiração
de um animal que sonha.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
Do livro “Os trabalhos e as noites”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2013
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto 🇵🇹 Poeta, Jornalista e Editor

 

ISTO NÃO É UM DOCUMENTÁRIO

o modo como vivi me confundiu com o que acontecia
viver era a transformação implacável de eu em nós

desde o início essa distância dentro de nós
um por não saber em que resultava
outro por não entender o que sucedia
um não era apenas personagem tampouco o outro documentarista

a memória fiel dos começos e o sabido atrativo dos fins
não firmaram quem era o mordomo de quem
de quem era a dívida ou a quem se servia

no chiaroscuro dos pronomes, estampado no meio da tela
vê-se agora um corte uma cicatriz
ou inversamente
um rasgo para a plateia

 

_
▪ Marcos Siscar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Isto não é um documentário”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2019

 

 

DORMIR NA FLORESTA

Pensei que a terra
se lembrasse de mim, tão
carinhosamente me recebeu de novo, ajeitando
as saias escuras, com os bolsos
cheios de líquenes e sementes. Dormi
como nunca, uma pedra
no leito do rio, sem nada
entre mim e o fogo branco das estrelas
a não ser os meus pensamentos e estes flutuavam
leves como mariposas por entre os ramos
das árvores perfeitas. Ouvi
toda a noite os pequenos reinos a respirarem
à minha volta, os insectos e as aves
que trabalham na escuridão. Toda a noite
me levantei e caí, como se estivesse dentro de água, a lutar
com uma fatalidade luminosa. De manhã
tornara-me em alguma coisa melhor
umas doze vezes pelo menos.

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA 🇺🇲 )
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático



Original version / Versão original

 

░  SLEEPING IN THE FOREST

 

I thought the earth
remembered me, she
took me back so tenderly, arranging
her dark skirts, her pockets
full of lichens and seeds. I slept
as never before, a stone
on the riverbed, nothing
between me and the white fire of the stars
but my thoughts, and they floated
light as moths among the branches
of the perfect trees. All night
I heard the small kingdoms breathing
around me, the insects, and the birds
who do their work in the darkness. All night
I rose and fell, as if in water, grappling
with a luminous doom. By morning
I had vanished at least a dozen times
into something better.

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA 🇺🇲 )
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012

 

TRANSPARÊNCIAS

Há momentos em que a luz
só deseja transparências.
Passa horas nas bancas
de pigmentos, mistura e escolhe
os que sabiamente misturados
alcançam qualidade diáfana
no seu traço. Prescinde de cores,
tessituras, nem sequer a parede
branca em face da qual se inclina
a descansar a tarde lhe interessa.
Considera apenas o translúcido.
Artista que desenrola os novelos
de sedas sobre o real.
Estende-os sobre o que quer
pintar. Absorve-se nas suas pregas.
Aspira, como eu,
a contemplar o que não se mostra,
mas estou a ver.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.

Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: Metade do Mundo Mudanças & Cia


🇪🇸

TRANSPARENCIA

 

Hay épocas en que la luz
solo anhela las transparencias.
Se pasa horas en los puestos
de pigmentos, revuelve y selecciona
los que, sabiamente mezclados,
consigan cualidad diáfana
en su trazo. Prescinde de colores,
de urdimbres, ni siquiera la pared
blanca ante la que se reclina
a descansar la tarde le interesa.
Atiende solo a lo traslúcido.
Artista que despliega las bobinas
de sedas sobre lo real.
Las extiende ante todo cuanto quiera
pintar. Se ensimisma en los pliegues.
Aspira, como yo,
a mirar lo que no se muestra,
pero estoy viendo.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

 

I MORTI DEL MONDO MODERNO

Ho visto Abele uccidere Caino!
Ho visto uno specchio di morti di velluto
accostati a un Muro.
Bevevano birre insieme ed erano ubriachi di Buio.
Quando parlo di questo alle persone
con parole incise su corone di spine
voltano le spalle. Non sanno di cosa io parli.
Allora ho dovuto mettere una maschera.
Con guanti chirurgici ho graffiato il vento
e i versi non gemettero al toccarli.
Né una foglia a terra per il biancore caldo delle mani.
Né uno specchio degno per scrivere oscuramente sulle braccia.
Riesco solo a urlare l’imponderabile il rally immenso dei morti.
I negozi,
— Come dirvi? —
con lo stesso manichino da vetrina
con gli stessi vestiti,
con gli stessi denti,
con gli stessi colori,
e le gambe dei bambini senza mutamento.
Non so come lo sopportano.

Là dentro il registratore di cassa del tempo
e il sangue che scorre nella roca speranza.
La padrona del negozio è appassita.
Chiede ogni momento scusa.

Uscirò nella selva, ho solo bisogno che qualcuno mi ascolti
su un ramo di angoscia.
Risolvo la maschera con i pasticci della Cina
e con la candeggina della Storia per disinfettare il mondo.

Approfitto ora di un intervallo per insultare la memoria
e passeggiare nelle ombre creatrici di uccelli.
Quasi immersa nel terrazzo, a metà pomeriggio, di un sesto piano,
prendo il sole e il suo mansueto abbraccio.
— Non si sentono macchine,
né aerei esaltati
che improvvisano sonate per topi.
Tutto è andato giù nello scarico del mondo. —

Quasi le cinque.
Sono quasi le cinque.

C’è uno specchio di morti di velluto
da qualche parte
accostato
a un Muro.

Più tardi,
i morti pensierosi e maturi
andranno al lavoro,
come di consueto.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia de Protesto”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 

POR UM INCUMPRIMENTO DO PRESSÁGIO

Não me envies dor. Já, minha vida,
me despedi há tempo do transtorno
que nos infundes chega. Muitos anos
o desejei supondo que ainda vinha.
Continuo a merecê-lo, mas agora
Gostaria de desistir de sua vinda.
Despedir-me do mundo, com a ventura
que suspende os olhos do amante
seria graça maior que ter nascido.
Mas débil ante a dor e conhecendo
a matéria desprezível de que és feita,
não pares ante meus anos os teus passos,
não me ofereças aquilo que arrebatam
de tuas mãos os jovens. Dá-lhes,
a eles, com seu sabor, conhecimento;
se são agradecidos, vão amar-te
para sempre. Eu quero que os corpos
deixem seu belo fogo entre meus braços,
em troca de moedas ou palavras.
Mas o que já vivi, fique vivido;
Estou desabitado; não me tentes
Para ser infeliz tão fora de horas.

 

_
▪ Francisco Brines
( Espanha 🇪🇸 )
in ”A Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro”, Assírio & Alvim, Porto, 2001
Mudado para português por José Bento 🇵🇹
 

OUVIU-SE LONGAMENTE

Ouviu-se longamente,
desde o fundo das cisternas,
um grito que arruinou para sempre os palácios
de vidro.

O príncipe cego acordou em sobressalto e com
um dedo em riste, trémulo,
assinalou o Oriente,
mas não disse nada.

Muito perto,
nos aposentou de cetim e almíscar,
sob os tectos de âmbar,
as concubinas continuaram a dormir, a dormir
profundamente,
como só acontece com as amantes cujo corpo
saciado
esquece as amargas horas do mundo.

Eram belas assim,
deitadas,
acariciando o cofre onde guardavam as jóias:
crescentes em ouro, anéis,
pulseiras onde se reflectia o brilho de Lira e
Andrómeda,
pérolas que rodeavam as suas gargantas escuras,
e desciam para a inclinação dos seios.

Era uma vida lenta, uma vida pura.

Havia uma interminável música de alaúdes nos
longínquos lugares do sono.
Sobre os animais do deserto,
viajavam outros príncipes, também cegos pelo
desejo
que começava nos oásis do Levante.

As tâmaras eram esmagadas pela ferocidade
dos dentes.
Vénus nascia muito cedo quando olhavam para
o seu lado esquerdo.
Mais tarde,
tambores incessantes cercavam as fogueiras.
Os turbantes brancos davam aos seus vultos a
placidez do algodão e das estátuas.

Era uma vida lenta, inspirada.

Encostado a uma palmeira,
o ancião das dunas interrogava Alá sobre os
segredos da lua cheia.
Mas os deuses não respondem aos homens que
contemplam a lua,
debaixo da sua morada.

Por vezes,
havia uma luz relampejante no aço das
cimitarras.
Por vezes,
o sangue corria como um pequeno rio vermelho,
através da areia,
purificado.

Era uma vida nómada, que passava.

Muito longe,
nos palácios em ruínas,
nos aposentos de cetim e almíscar,
sob os tectos de âmbar,
elas continuavam a dormir profundamente.

Eram apenas a carne, o sol, a serpente.
Eram apenas um corpo deitado, entreaberto.

 

_
▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esta voz é quase vento”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004