TIVE UMA AMIGA

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel branco
com uma jóia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem jóias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela

 

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▪ Helder Macedo
( África do Sul 🇿🇦 )
in “Poemas Novos e Velhos”, Editorial Presença Lisboa, 2011

DOIS POEMAS DE LINDA PASTAN

 

Popcorn
 
When Plato said
that what we see are shadows
flickering on a cave wall,
he must have meant
the movies.
You let a cigarette lean
from your mouth precisely
as Bogart did.
Because of this, reels later,
we say of our life
that it is B-grade;
that it opened and will close
in a dusty place where
things move always
in slow motion;
that what is real
is the popcorn
jammed between our teeth.

 
Pipocas
 
Quando Platão disse
que o que vemos são sombras
a tremularem na parede de uma caverna
deve ter querido referir-se
ao cinema.
Tu deixas um cigarro pender
da boca exactamente
como Bogart.
Por causa disso, bobinas mais tarde,
dizemos que a nossa vida
é um filme série B;
que começou e terminará
num lugar poeirento onde
tudo acontece sempre
em câmara lenta;
que o que é real
são as pipocas
presas entre os nossos dentes.

 
Rereading Frost
 
Sometimes I think all the best poems
have been written already,
and no one has time to read them,
so why try to write more?

At other times though,
I remember how one flower
in a meadow already full of flowers
somehow adds to the general fireworks effect

as you get to the top of a hill
in Colorado, say, in high summer
and just look down at all that brimming color.
I also try to convince myself

that the smallest note of the smallest
instrument in the band,
the triangle for instance,
is important to the conductor

who stands there, pointing his finger
in the direction of the percussions,
demanding that one silvery ping.
And I decide not to stop trying,

at least not for a while, though in truth
I’d rather just sit here reading
how someone else has been acquainted
with the night already, and perfectly.

 
Relendo Frost
 
Penso às vezes que os melhores poemas
já foram todos escritos
e ninguém tem tempo para os ler,
porquê então tentar escrever mais?

Noutras alturas contudo
lembro-me de como uma flor
num campo já cheio delas
acrescenta algo àquele efeito de fogo de artifício

ao chegarmos ao cimo de um monte
no Colorado, digamos, no pino do verão
e olharmos para toda aquela cor transbordante.
Tento convencer-me também

de que a nota mais pequena do instrumento
mais pequeno na orquestra,
os ferrinhos por exemplo,
é importante para o maestro

ali de pé, apontando o dedo
na direcção da percussão,
exigindo aquele ping argentino.
E resolvo não parar de tentar,

por uns tempos pelo menos, embora na verdade
eu preferisse sentar-me apenas aqui a ler
como outra pessoa se familiarizou
já, e perfeitamente, com a noite.
 

_
▪ Linda Pastan
(E.U.A. 🇺🇲)
in “Estes anos a desaparecerem”, Douda Correria, Lisboa, 2021

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

 

TALVEZ O MUNDO ACABE AQUI

O mundo começa numa mesa de cozinha. Não importa o quê, temos de comer para viver.

As oferendas da terra depois de preparadas são postas sobre a mesa. Sempre foi assim desde a criação e continuará a ser.

Afastamos as galinhas e os cães. Os bebés rompem os dentes nas esquinas. E arranham os joelhos debaixo dela.

É aqui que as crianças recebem instruções sobre o que significa ser humano. É aqui que nos tornamos homens ou mulheres.

Nesta mesa, mexericamos, recordamos os inimigos e os fantasmas dos amantes.

Os nossos sonhos tomam café connosco, enquanto abraçam os nossos filhos. E riem dos nossos pobres egos em queda e de quando nos recompomos mais uma vez à mesa.

Esta mesa foi uma casa à chuva e um refúgio ao sol.

Guerras começaram e terminaram nesta mesa. É o lugar onde nos podemos esconder da sombra do terror. Um lugar para celebrar a terrível vitória.

Demos à luz nesta mesa e preparamos aqui os nossos pais antes de serem enterrados.

Nesta mesa, cantamos com alegria e com tristeza. Oramos por sofrimento e remorso. Agradecemos.

Talvez o mundo acabe na mesa da cozinha, enquanto rimos e choramos, comendo o último bocado doce.

 

_
▪ Joy Harjo
(E.U.A. 🇺🇲)
in “The Woman Who Fell From the Sky”, W. W. Norton & Company, 1994

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹  Poeta, tradutor e médico

 



 

PERHAPS THE WORLD ENDS HERE

 

The world begins at a kitchen table. No matter what, we must eat to live.

The gifts of earth are brought and prepared, set on the table. So it has been since creation, and it will go on.

We chase chickens or dogs away from it. Babies teethe at the corners. They scrape their knees under it.

It is here that children are given instructions on what it means to be human. We make men at it, we make women.

At this table we gossip, recall enemies and the ghosts of lovers.

Our dreams drink coffee with us as they put their arms around our children. They laugh with us at our poor falling-down selves and as we put ourselves back together once again at the table.

This table has been a house in the rain, an umbrella in the sun.

Wars have begun and ended at this table. It is a place to hide in the shadow of terror. A place to celebrate the terrible victory.

We have given birth on this table, and have prepared our parents for burial here.

At this table we sing with joy, with sorrow. We pray of suffering and remorse. We give thanks.

Perhaps the world will end at the kitchen table, while we are laughing and crying, eating of the last sweet bite.

 

_
▪ Joy Harjo
(U.S.A. 🇺🇲)
from “The Woman Who Fell From the Sky”, W. W. Norton & Company, 1994

 

AÑIL. DIARIO DE SENSACIONES

Teja

 

Del sombrero olvidado bocarriba en el banco del jardín la paloma que se ha acercado a picotear en el ala vuelta del revés ha extraído del hueco un varón vestido con frac y pajarita y una vara de mago, que nada más aparecer le ha preguntado la hora a un tilo cuya sombra había quedado atrapada en el columpio donde niñas y niños aprenden deprisa a ser temerarios. Al ver tan extraña figura en el parque infantil, lo han rodeado de inmediato y le han pedido a coro un mismo truco: que les regale piruletas y les apruebe los exámenes.

 

Lacre

Azul, ocre, duna, mar, en sí mismos, pronunciados al azar, no son nada. Sonidos y un brote de significado entre piedras, allá donde las raíces no encuentran dónde nutrirse. Té, galletas de avena, ventana, tarde, en sí mismos, no son más que ingredientes del día sin el día. Lo que proporciona hondura y sentido a azul y a mar, a ocre y a duna, es el idilio de memoria y metáfora. La unión de dos opuestos: la presencia y su desaparición. Lo que también convierte los hechos del día en símbolos. Densidad y sentido. Les proporciona la vida que pierden.

 
_
▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in “Añil”, Editorial: Cypress Asociacion Cultural, Sevilla (España),2021
 

A FELICIDADE DO MEDO

 

Para a Ana

 

Às vezes entre a noite e a manhã
Vejo os cães rodearem-te
Cães com os dentes à mostra
E tu deitas as mãos às suas patas
E ris nos seus dentes
E eu acordo a transpirar de medo
E sei que te amo

 

_
▪ Heiner Müller
(Alemanha 🇩🇪 )
in “Traumtext”, Editora Stroemfeld, 1996

*

Mudado para português por _ Luís Costa 🇵🇹  Poeta e tradutor



 

DAS GLUCK DER ANGST

Für Anna

 

Manchmal zwischen Nacht und Morgen
Seh ich Hunde dich umkreisen
Hunde mit gebleckten Zähnen
Und du greifst nach ihren Pfoten
Und du lachst in ihre Zähne
Und ich wache auf mit Angstschweiß
Und ich weiß daß ich dich liebe

 

_
▪ Heiner Müller
( Deutschland 🇩🇪 )
in “Traumtext”, Stroemfeld, 1996
 

PÁSSAROS E SACOS

Bandos de pardais entristecem-me
quando, rápidos, voam pelos campos
e gorjeiam, secos e ásperos,
pela sua pobreza bem arada.
Não deixem nunca de fazer-me companhia.
Quase nada nos acompanha até ao fim.
Também não me abandona o cheiro dos sacos
que me serviam de cama no fundo do carro
quando andava, em criança, nas vindimas.
Saía antes da alvorada. Os sobressaltos
das rodas e o ritmo forte, calmo,
dos cascos cravados adormeciam-me.
Os sacos ainda fazem a vez de mãe.
O seu cheiro regressa, denso e cálido,
enquanto vejo como brilha ao sol a relva
e os bandos de pardais, desesperados,
procuram um lugar onde poisar
e saciar uma fome pequena e dura.
Voam, voam comigo até ao fim.

 

_
▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸 )
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015

*

Mudado para português por _ Miguel Filipe Mochila 🇵🇹  Poeta, tradutor e professor

 

ICONOGRAFIAS

As barbas que recordo do passado
são as de Deus sentado
numa nuvem, em moldura dourada
e transversal.
Na moldura do lado, um coração
em lágrimas e espinhos.
E no canto mais curto e mais final,
a lição repetida.

Há um tempo de vida e
um tempo de morte, um
tempo de lavrar e um tempo
de colher.

Ah! que ao menos na nuvem,
no mesmo patamar:
a face da mulher!

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” [Poesia 1990-2010], Publicações D. Quixote, Lisboa, 2010

RECANTO 12

Vinha ___ do outro lado do tempo ___ do inverno seguinte
um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,
anfíbio
como alguém em trânsito para o seu mar
ao sair do emprego, e o instrumento
sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abençoe-te-
-etecetera-amen-
a buzinar-lhe aos ouvidos

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais
em potência de tortura passou imediatamente a ser
útil vertiginosamente indispensável
porque é uma rosa e só por isso
porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo
e na mesma roda de espaço que nós em tudo
e só por isso
quando a caixa toráxica passa a ser de metal
por assimilação
e de plástico por fora e roda no corpo
e só no sexo o circuito é uma onda fundente
liquidamente

lemos o capítulo do sangue
quando em transe se descarrega como a campainha
de que as palavras são o toque e os silêncios
o clarão da música.

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos
por outrem
de que as palavras se chamassem fala
e o terror ventriloquia.

 

_
▪ Luiza Neto Jorge
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia 1960-1989”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993

 

VIAGEM

A demolidora clarividência das minhas palavras é um punhal abrindo
a página até ao coração. O poema é múltiplo e atinge violentamente o nosso
rosto.
Certa palavra, inventada por Bleuler, é tão potente que torna estranho
quem a possui. Se considerarmos lógico possuir uma palavra, o poeta
tem um percurso a realizar. Embarca para uma viagem de que volta perigosamente
lúcido. Morte e renascimento fizeram dele um outro, capaz de
penetrar a textura do mundo.

 

_
▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Repetir o poema”, Edições Quasi, Vila nova de Famalicão, 2005